O supremo prazer das coisas simples

Quando acordei chovia. Passou a chuva. O céu abriu um pouco. Resolvi ir à horta sem as botas de borracha por causa da preguiça de tirar as calçadas e enfiar as de borracha.

Na horta está aquilo que os editores apelidam de obra, ou seja, a criação. A minha esperança estava nas ervilhas tortas e nos grelos de couve naba. Semeara as ervilhas lá longe, em novembro, plantara as couves em dezembro.

A obra estava quase acabada e regalei-me de volta das ervilhas a tirar-lhe a literatura toda que os tutores haviam protegido do maligno vento espanhol. Por debaixo dos pés das ervilhas as vagens escondidas e as mais longilíneas. Prestando homenagem ao avô do meu Pedro irei fritá-las em banha e um nico de azeite com rodelas de salpicão e fatias de pão de milho.

Os pés ficaram tão encharcadas quanto o meu nariz de ar puro da manhã. Com os pés assim, o destino marcou o rumo – apanhar espargos que esta longa chuva os fez saltar da terra onde se escondiam. Tudo se passou num silêncio gótico e vegetal. Os pés ao cheirarem as rodelas de salpicão secaram. Tão simples.

Suicídio em direto na SIC

Não temos uma sala oval, nem zaragatas. Talvez, por isso, o PR achasse que a humilhação do PM em não lhe telefonar antes da Proclamação da Inocência merecesse o gesto absolutamente simpático e cortês de não lhe  atender o telefone, e daí por mera cortesia dar a conhecer ao país o quão Marcelo estima Montenegro, malgré tout.

Dizem que Trump despachou Zelenski, humilhando-o, coitadinho do homenzinho. Marcelo não despachou Montenegro, suicidou-o em direto na SIC. Sem humilhação, apenas com comiseração institucional.

VIVAM AS FEIRAS E QUEM AS APOIOAR

Hoje, num desses hipermercados de referência, descobri finalmente o motivo da minha antipatia por estes “estabelecimentos”. Neste domingo carnavalesco havia magotes de gente cheias de carros de compras até à cabeça. Caminhavam do mesmo modo que rolavam os carros, em silêncio, por entre prateleiras de o que se precisa e de o que não se precisa.

Alguns consumidores levavam os filhos dentro dos carros e um vigilante chamava a atenção ao transgressor pela conduta inaceitável. Tudo isto se passava em voz de plástico para não fazer perder a atenção nas fantásticas promoções de vinhos de terras que não os produziam.

Para sossego dos contribuintes não havia vozes, apenas olhares um pouco incrédulos ou cheios de frustração. Um ou outro exultante.

Giravam as multidões raspando, alguns contribuintes, nas mesas à disposição cartões à espera da sorte que não chegava e silenciosamente esperavam pelo jogo do clube ou da telenovela ou da série. Tudo conforme o pastor dos negócios e das almas semimortas

Ninguém falava a alguém.  No final das compras, uma voz perguntava pelo cartão e pelo NIF, caso necessitasse. 

Num extremo da cidade e no outro ponto da cidade fronteiriça localizam- se as Feiras do Relógio e a da Brandoa.

Ali os humanos falam, gritam, regateiam, dizem brejeirices, param e falam com os vendedores e entre si, como faziam seus pais, avós e bisavós. Sabem que à astúcia do vendedor é preciso dar a volta para a apanhar. Há de tudo, menos o silêncio das almas anestesiadas.

Um cigano vende goiabeiras e outras árvores de fruto. Uma cigana cuecas elegantes para senhoras bonitas, diz ela. Um paquistanês exuberante molhos de agriões. Um indiano mangas e anonas. E grelos frescos que não há na sua terra. Um fulano com a pronúncia das Beiras vende nozes e figos secos.

Até há quem venda pássaros apanhados em armadilhas.

Uma vendedeira ensina quando se plantam os aipos e os morangueiros. Um atrevido pergunta-lhe se pode plantar os tomates atrás dos do marido que os planta primeiro que os seus. Ela manda-o plantar ao pé dos do padre Inácio.

Há bifanas com molho a escorrer e sandes de couratos e copos de vinho e de cerveja.

Há um homem muito magro que ganha algumas moedas a dizer onde se pode estacionar o carro

Há do outro lado da estrada dezenas de aves de capoeira e faisões da senhora que vende galos a africanos como quem vende botões.

O homem que vende ovos diz a um eventual comprador – ontem o jantar foi fracote e cheguei à frigideira, está a ver esta caixa de seis, estrelei-os e não comi mais porque lhe queria lhe queria vender outra.

O silêncio de uma grande superfície é o de do indivíduo solitário sem pertença. É um consumidor com um número fiscal. O movimento da Feira é a prova provada de que somos seres humanos. Vivemos juntos e podemos falar uns com os outros.

A zaragata em direto na Sala Oval, quem escreveu o guião?

O que se passou na sexta-feira dia 28 de fevereiro, na Sala Oval da Casa Branca, entre Trump/Vance e Zelenski é algo inimaginável à luz de critérios de previsibilidade de encontros entre Chefes de Estado ou Chefes de Governos.

 A razão é simples: antes dos Encontros/Cimeiras há um conjunto de altos funcionários de ambos os lados que preparam esses Encontros e quando o trabalho preparatório está concluído, reúnem-se então os Chefes de Estado e assinam os Acordos ou Comunicados ou Declarações Conjuntas.

Se durante os trabalhos preparatórios não há possibilidade de entendimento, não se anunciam as Cimeiras. Ao anunciá-las significa que os trabalhos preparatórios aplanaram os problemas, ultrapassando-os.

 Ora, o que sucedeu na Sala Oval é de tal modo bizarro que obriga a procurar razões para além daquelas que parecem ser à primeira vista ou uma humilhação de Zelensky ou um desafio diplomático de Zelensky ao “Imperador” de Washington.

A situação militar no terreno é muito desfavorável a Zelensky. Trump terá informações que a guerra está perdida e ele não quer aparecer como perdedor da guerra, antes como obreiro da paz, mas sem deixar de garantir um bom negócio para os EUA e seus oligarcas. Já conseguiram pôr a UE dependente da energia dos EUA e separar a Rússia do resto da Europa, o que não é pouco em termos estratégicos.

Seguramente que a ida de Zelenski a Washington foi tratada discutindo todos os pontos do chamado Acordo. Se não havia hipótese de Zelenski assinar, não fazia sentido realizar a viagem. Em nenhum momento a parte ucraniana referiu que não o assinava e daí a viagem a Washington.

Nas conversações de uma hora e trinta minutos é perfeitamente adequado pensar que as duas partes não concordaram e tratava-se de saber o que cada uma iria dizer aos media. Foi a cena com os jornalistas mero improviso para cada um sair por cima a partir do fiasco verificado nas conversações?

Quer Trump, quer Zelenski, saem muito mal no que aconteceu, revelando no mínimo um primarismo político inconcebível, sendo certo que era Zelenski quem mais precisava do apoio dos EUA, a não ser que o PR ucraniano tenha desistido do apoio norte-americano e tenha jogado um jogo perigoso, por falta de cartas, como disse Trump com a sua falta de tato diplomático devido à arrogância congénita.

Imaginando um outro cenário em que Trump e Zelenski poderiam alinhar como bons atores: o Presidente ucraniano iria e regressaria, sem Acordo e com o show em direto a que assistimos, como resistente.

 Trump responsabilizaria Zelenski por não conseguir a paz no período anunciado e o Presidente ucraniano sairia da Sala Oval com a auréola de herói libertador reforçado, ganhando os dois a melhor interpretação no guião, podendo o Óscar ser partilhado.

Neste cenário a guerra continuará e a UE a comprar armas a Trump para prosseguir a guerra que tem em vista enfraquecer a Rússia e a devastação social da UE. Um bingo numa outra perspetiva.

Se, na verdade, o que vimos resulta de um improviso diplomático deste calibre então a coisa fia mais fino e não há justificação para um espetáculo absolutamente indecoroso entre o instigador/apoiante da guerra – os EUA- e o Presidente Zelenski que no seu afã de grande estadista acreditou que as relações entre Estados se baseiam em “performances” comunicacionais.

Como é possível que o Presidente da maior potência mundial, com tropas em todo o lado, se preste a uma discussão, sem desprimor para a saudosa e antiga lota do peixe da “minha” Póvoa de Varzim, daquele teor, ou similar a dois adeptos clubistas a discutir os penaltis “roubados”.

Esta ida de Zelenski a Washington traz água no bico ou então a estatura do homem não passa a de comediante que à falta da capacidade de congregar esforços para continuar a guerra do seu país vai a casa do patrocinador dizer-lhe o que ele tem de fazer, julgando que sai em grande, como se vê pela reação dos dirigentes da União Europeia que acreditam que a sua vontade é capaz de alterar o rumo da guerra.

A continuação da guerra não é a melhor notícia, embora, Zelenski tenha chegado a Washington frágil, e de lá saiu ainda mais. A Ucrânia estará prestes a sucumbir.  Ninguém acredita que Macron e Starmer tenham poder para reverter a situação, tanto mais que estão disponíveis a enviar 30 000 soldados desde que os EUA se comprometam com a sua segurança, como fizeram constar quando foram pedir proteção a Trump durante a semana, o que não conseguiram.

Resta aguardar. Com estes personagens quase nada surpreende. Neste cenário fica muito difícil perceber o fito de Zelenski. O de Trump é o de buldózer, mas atenção é ele que tem as cartas.  

O julgamento de Ricardo (Espirito Santo) Salgado é um espetáculo de farsa politica com a cobertura de legalidade proporcionada pelo sistema judicial e encenado pela comunicação social.

A justiça do Estado sacode as pulgas do tapete para assegurar o regime de capitalismo de papel e especulação. Os políticos do regime fazem de macacos cegos surdos e mudos. A indústria do espetáculo aproveita o espetáculo grátis e aumenta as audiências. O povo aplaude e compra os produtos anunciados nos intervalos. No entanto está em causa o julgamento do sistema financeiro que é o fundamento do capitalismo, seja ele gerido por democracias liberais ou ditaduras. Um sistema implantado no final do século XVII pela família Rothschild.

Deixem-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis.

Mayer Amschel (Bauer) Rothschild, o fundador da família

Todo aquele que controla o volume de dinheiro de qualquer país é o senhor absoluto de toda a indústria e comércio, e quando percebemos que a totalidade do sistema é facilmente controlada, de uma forma ou de outra, por um punhado de gente poderosa no topo, não precisaremos que nos expliquem como se originam os períodos de inflação e depressão.

James Garfield, presidente dos Estados Unidos, 1881(assassinado)

Por detrás deste espetáculo do julgamento de Ricardo Salgado encontra-se a relação de dupla dependência entre a política e a finança anunciada no final do século XVII por Mayer Amschel (Bauer) Rothschild, o fundador da família que criou o sistema bancário que da Europa, através do Banco de Inglaterra, expandiu para os Estados Unidos, onde se associou à família Rockefeller e que está na base do FED, a Reserva Federal Americana. O sistema que os Espirito Santo e os outros banqueiros utilizaram e utilizam para obter lucros assenta no que pomposamente se designa por fractional reserve lending, (FRL) ou “empréstimo baseado numa reserva fracionada”, ou “empréstimo sem cobertura ou base real”. Embora de enunciado complexo, a prática é muito simples;significa emprestar mais dinheiro do que está em caixa e transformou-se na maior fraude legal de todos os tempos.

O sistema bancário de reserva fracionada é o que vigora em todos os países do mundo, no qual os bancos que recebem depósitos do público mantêm apenas parte de seus passivos de depósito em ativos líquidos como reserva, geralmente emprestando o restante aos tomadores. As reservas bancárias são mantidas como dinheiro no banco, ou como saldos na conta do banco no banco central.

A família Espirito Santo foi a que primeiro e mais intensamente interpretou estes princípios em Portugal e os impôs ao poder político, desde o fundador da família ter evoluído de dono de uma casa de câmbios até os seus filhos surgirem como os banqueiros do regime de Salazar e desempenharem um papel político de primeira grandeza no Portugal do Estado Novo durante o período crucial da Segunda Guerra Mundial, colaborando na manutenção do difícil equilíbrio entre os aliados ingleses e a Alemanha nazi.

Os Espirito Santo, a quem a imprensa da época chamava “os Rockefeller de Portugal”, ofereceram refúgio às realezas fugidas da guerra, entre eles os condes de Paris, com os seus dez filhos, os condes de Barcelona, o rei Humberto de Itália, e o mais significativo de todos, o Duque de Windsor que acabara de abdicar do trono em Inglaterra, apesar de essa presença ser delicada para o regime de Salazar por prejudicar a sua pretensa neutralidade e de também não ser do agrado Churchill dadas as simpatias pro germânicas do duque ex.rei.

Ricardo Espirito Santo, o herdeiro do fundador, culto e muito amigo de artistas, tinha as costas quentes, era casado Maria Pinto de Morais Sarmento y Cohen, filha de un banqueiro de Gibraltar, Abraham Cohen, britânico de origem judaica, e sobrinha do barão de Sendal e através deste casamento os Espirito Santo conheceram e fizeram amizade com toda a realeza exiliada em Cascais e com as suas redes de influência.

O Banco Espirito Santo era, de todos os bancos portugueses, o mais internacionalizado e o que tinha mais fortes ligações ao Estado. A sua nacionalização em 1975 não quebrou a influência da família na política portuguesa, nem quebrou a ligação da família ao mundo da grande banca internacional. Pertenci à Assembleia do MFA do dia 11 de março de 1975 que aprovou a nacionalização da banca. Consciente da importância da banca na definição do poder político. Sofri as consequências dessa opção no 25 de Novembro de 25 de 1975, assumindo-as como naturais da parte dos que optaram pelo regime de “mercado” e pelos seus financiadores.

O 25 de Novembro de 1975 e o seu programa de integração de Portugal na ordem política e económica vigente na Europa Ocidental, implicava as privatizações indispensáveis à recuperação do poder das velhas oligarquias e da ascensão das novas, exigia a criação de novos bancos, caso do BCP e do BPI e aconselhava o regresso da marca mais prestigiada internacionalmente, a que garantia a credibilidade do novo regime. Mário Soares percebeu a importância do regresso de um nome tão prestigiado e com tão boas relações no mundo da finança internacional e promoveu o regresso da família Espirito Santo a Portugal, o que foi conseguido através dos bons ofícios de Francois Miterrand com a associação ao Crédit Agricole.

Há razões nunca explicadas por detrás da “resolução do BES” e as principais não são aquelas que se encontram no julgamento espetáculo. Com todo o respeito pelos lesados do BES, que viram sumir as suas economias e exprimem o seu protesto contra a figura de Ricardo Salgado, há que explicar se foi o Estado Português que propôs a resolução do BES à Comissão Europeia, ou se foi dela a imposição dessa medida jamais utilizada. Não havia alternativa? Não havia o exemplo do Lehman Brothers, da seguradora AIG, não foi encontrada recentemente uma outra solução para a União dos Bancos Suíços?

O BES era o único banco privado com “nacionalidade portuguesa”, embora associado ao Crédit Agricole francês. Todos os outros bancos que resultaram da reprivatização tinham passado para o controlo da banca espanhola, de capitais ingleses, americanos, alemães. Todo o sistema bancário português tem a sede em Espanha, em Madrid ou Barcelona. O sistema bancário português está hoje integrado no sistema mundial através de Espanha, o chamado “mercado ibérico”.

O BES tinha, por tradição, o papel de banco do regime, fora o banco que assegurou a transferência do ouro alemão que pagou o tungsténio, o volfrâmio, durante a Segunda Guerra, por exemplo. Nos anos anteriores à resolução era o BES que estava a financiar a implantação de grandes companhias portuguesas no Brasil e em Angola, dois mercados emergentes e muito cobiçados pela finança internacional, em particular a inglesa e a francesa. Era o BES que financiava a implantação da TELECOM no Brasil, uma ação importante de presença num grande mercado em expansão no continente sul-americano, e era o BES que estava a financiar através de uma filial, o BESA, o apoio a empresas portuguesas no mercado de Angola, outro espaço cobiçado pela banca internacional.

O BES intervinha na diversificação dos mercados de grandes empresas portuguesas em mercados importantes em concorrência com os grandes bancos europeus que têm, como é evidente, um peso de lobbying incomparavelmente superior junto de Bruxelas e dos seus financeiros. Era um concorrente a eliminar e assim foi.

Todo o negócio bancário se baseia na usura, toda a utilização do capital para obter lucro é abusiva, isto porque o lucro é obtido com a venda de um produto que não tem base material, que existe apenas porque as autoridades de um dado estado garantem que o banqueiro, o moneychanger, é de confiança e honrará o compromisso de pagar os juros aos depositantes.

O BES sob a administração de Ricardo Salgado vendeu mais dinheiro do que aquele que podia remunerar aos juros acordados. E fê-lo coberto pela reputação de confiança que lhe era e foi publicamente demonstrada pelas mais altas figuras do Estado, o presidente da República, Cavaco Silva, tido por eminente professor de Finanças, pelo primeiro-ministro Passos Coelho, pela ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, recentemente nomeada pelo atual governo comissária europeia, pelo governador do Banco de Portugal, a entidade reguladora, Carlos Costa, pelos mais conceituados comentadores políticos com acesso aos mais poderosos meios de comunicação, caso de Marcelo Rebelo de Sousa. Todos serviram de fiadores de Ricardo Salgado! Todos e todos os ministros que assinaram a ata do Conselho de Ministros que decretou a “resolução” do BES deviam responder em tribunal e serem corresponsabilizados pelos prejuízos.

O BES foi também a instituição escolhida pelo ministério da Defesa dirigido por Paulo Portas para conduzir as operações financeira de leasing que esteve e está na base do fornecimento dos helicópteros EH 101 e dos submarinos da classe Tridente, que pertencem formalmente a uma empresa e não ao Estado Português. Um banco da maior confiança do Estado e dos seus governos, de que nenhum agente político desconfiou, antes pelo contrário afiançou.

O que aconteceu ao BES, ou no BES, foi, em termos simples um excesso do abuso de confiança dentro de um sistema, o bancário, que assenta num contínuo abuso da confiança instituído pelos Estados que obrigam os cidadãos a confiar nos usurários (os banksters) para terem acesso aos bens essenciais, desde a habitação ao transporte, à alimentação, à educação, ao lazer. Quem estabelece o valor dos bens são, em última instância, os banqueiros que em Washington e na Wall Street de Nova Iorque impõem o valor do dólar como moeda de troca universal. São eles que estabelecem a inflação que gera lucros aos banqueiros e prejuízos aos clientes. São eles que desencadeiam crises e guerras para manipular o valor do dinheiro.

Agora, no Big Show BES, tudo se vai resumir a artigos dos vários códigos diante de um tribunal que interpretará factos contabilísticos, considerando-os crime ou não à luz dos seus preceitos, quando a questão era e é de política e os políticos estão todos eles a fazerem-se de mortos. Ou praticaram o rito judaico do Kaparot, realizado nas vésperas do Yom Kippur, uma expiação simbólica dos pecados, em que milhares de galos e galinhas são degolados em Israel e o sangue derramado pelas cabeças. Um ritual de arrependimento e perdão.

Numa entrevista ao Público, Vitor Bento, o administrador do BES na data da sua resolução e é hoje o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, garante que o que aconteceu ao BES não aconteceria hoje e que o sistema bancário português está mais controlado e merece confiança. É uma afirmação paliativa, como garantir que não vai ocorrer um terramoto.

O sistema financeiro mundial baseado no dólar está em equilíbrio periclitante. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente têm como causa a manutenção do dólar enquanto moeda de troca universal, o que implica força para o impor e é essa força que está a ser desafiada nessas guerras e é do resultado delas que depende a solidez do sistema bancário da área do dólar, que está a sofrer a concorrência das moedas dos BRICS.

O julgamento de Ricardo Salgado conduz à triste conclusão de que no capitalismo os cofres dos bancos contêm papel que tem o valor que a Reserva Federal dos Estados Unidos lhe atribuir e que os Estados nacionais atestam com a assinatura do governador do banco nacional. Nenhum cidadão sabe o que significam os algarismos do seu extrato bancário.

Alguém decidiu que as “obrigações” emitidas pelo BES eram papel sem valor e eram, mas resta a pergunta, porque elas, porque aquelas? Porque ninguém do BCE em Franckfurt ao Banco de Portugal em Lisboa viu o que se estava a passar no BES? Essas perguntas jamais serão colocadas em tribunal.

O espetáculo no Campo da Justiça, centrado na figura de um vencido que gera sentimentos de vingança a vários níveis, a do poderoso arrastado para o cadafalso, também esconde a vileza das ratazanas políticas que continuam a representar o seu número de macacos cegos, surdos e mudos.

Já agora, não há lesados no caso BPN, dos amigos de Cavaco Silva, nem do BANIF da Madeira.

https://cmatosgomes46.medium.com/o-julgamento-de-ricardo-salgado-big-show-bes-7861cc357d4f

Algumas conclusões sobre 3 anos de guerra na Ucrânia

Uma invasão de um país por outro tem obrigatoriamente de ser condenada, seja onde for. Não há boas invasões, nem invasões anti-imperialistas.

Por outro lado, uma invasão tem, um quadro que a caracteriza e, de certo modo, a “explica”.

Quando Zelenski, após o derrube ilegal do Presidente Yanukovich, deu o passo para a Ucrânia entrar na NATO sabia que uma tal decisão acarretaria um confronto com a Rússia.

Basta ler as declarações de dirigentes ucranianos, norte-americanos e do Think-Tank do Pentágono “ Rand Corporation” para se ficar a saber, não podendo ser ignorado que a guerra a partir deste ponto era desejável para todos Uns davam o sangue, outros as armas. Está dito e escrito. Ignorá-lo é pura manipulação.

William J. Burns, ex-embaixador dos EUA em Moscovo e ex-Diretor da CIA, alertou para os perigos de um tal plano, apontando para o desastre numa eventual derrota.

A Rússia invadiu a Ucrânia e a guerra instalou-se há três anos no Leste europeu. Podia ser diferente, lá poder podia, mas não foi.

Sendo condenável é preciso compreender as responsabilidades de cada ator e de cada parte na guerra.

Todos sabiam que as suas posições levariam à guerra. Por muito menos, na crise dos misseis em Cuba, o mundo esteve à beira da guerra mundial.

O que não se pode deixar de referir, por amor à verdade, é que esta guerra nunca foi nem é entre a democracia e a autocracia. Nem a NATO é exemplo de democracia, desde logo na sua fundação incorporou o regime fascista de Salazar.

Aquilo a que no Ocidente chamam a Ucrânai democrática. nasce de um golpe de Estado conduzido por uma dirigente dos EUA, Vitoria Nodlung que queria  fuck UE, bem divulgado em todo o lado. Iniciou uma perseguição impiedosa às esquerdas. Aos movimentos sindicais. Proibiu o russo onde as populações eram maioritariamente russas e com os nazis Banderistas criou legiões de forças militares preparando-as para a guerra.

A UE aceitou todo o plano dos EUA/NATO para desmembrar a Rússia e fez procissão com o Império para enfrentar o outro lado da potência emergente com Putin. A potência gasolineira, no dizer de Obama, deu origem a outro país que se sentia em condições de enfrentar os EUA e a NATO.

A questão da luta entre a liberdade e a ditadura fica às escâncaras quando se olha para o conflito na Palestina. A UE segue apoiando o genocídio palestiniano. Nem uma sanção a Israel. Nem uma fisga para os palestinianos.

O que fez o Ocidente correr em socorro de Zelenski foi a oportunidade histórica de eliminar a potência russa. Caso contrário, em 2003, em vez de enviar militares para o Iraque, colocar-se-ia ao lado do invadido no Iraque. Ou ao lado dos palestinianos contra a ocupação israelita.

 A principal arma ocidental eram as sanções. Falharam. Prometeram a cabeça de Putin. A narrativa ocidental desde parte da extrema-direita, toda a direita e toda a social-democracia e o todos os liberais alinhou na guerra.

É flagrante o contraste com a causa palestiniana. Que está a UEE disposta a fazer para a criação do Estado palestiniano? Quantas vezes foi e está disposta a ir a Ramalah declarar o apoio incondicional à Palestina?  

N a Ucrânia, os EUA negociam com a Rússia e a razão é muito simples: são em termos militares quem conta. Vão partilhar a Ucrânia? Talvez. Pode estar-se de acordo com a partilha? Na Conferência de Berlim no final do século XIX a Europa partilhou África sem os africanos e certamente não é isso o que deve acontecer na Ucrânia. Mas quem, por cada segundo passado ao longo destes três anos, anunciou a derrota da Rússia merece que se pergunte o porquê deste discurso, incapaz de se adaptar ao que está a acontecer.

Se juntarmos a este pano de fundo a entrega da luta pela paz e contra a guerra à extrema-direita, talvez se compreenda que Trump e os neofascistas europeus utilizaram o anseio popular de paz nas suas demagógicas campanhas eleitorais, enquanto do lado dos partidos da democracia liberal o mote foi mais armas, mais guerra. E continua. Mesmo sem poder real. O que os move? A ideia da solidariedade com a continuação da guerra está totalmente desfasada da realidade. Ninguém quer ir combater para a Ucrânia, grande parte dos ucranianos foge da guerra. Na Rússia, segundo se sabe, também.

Criar um espírito europeu desde o Norte ao Sul e a Leste será na base de melhores condições de vida para todos e não da continuação da austeridade para fazer a guerra e comprar armas aos EUA. A força da Suiça não está no seu exército, mas sim no bem-estar da sua população. O mesmo sucederá na Europa.

Destes três anos podem retirar-se finalmente algumas conclusões:

–  Há uma nova potência mundial, a Rússia.

– O mundo voltou a ser marcado por zonas de influência em vez da existência de um mundo sob a influência de uma única potência.

– A UE conta pouco em termos geoestratégicos.

– É provável que entre China, Rússia e China aja alguma descompressão.

– Taiwan, a Palestina e o Irão serão o termómetro para medir o futuro que continuo muito incerto.

As mangações de Zelenski e a paz tão urgente

Todos os dias Zelenski faz declarações. É um dos dirigentes que mais antena tem. Com traje militar vai dizendo coisas sem fim. A sua prosápia chegou a tal ponto que se auto- impediu de falar com Putin.

É de recordar as centenas de iniciativas vietnamitas nos anos sessenta do século passado para parar a invasão norte-americana e consequente retirada dos seus mais de 500 000 militares. Os vietnamitas falariam e negociariam com os dirigentes norte-americanos.

Zelenski, dentro da sua lógica e combinação com o Ocidente, comportou-se sempre como o líder que iria derrotar a Rússia e, portanto, negociações nunca. Emitiu um decreto a proibi-lo tal era a convicção que derrotaria a Rússia.

Esta postura/política era intensamente apoiada e aclamada pelos EUA/UE/NATO. Chegaram a designá-lo como um novo Churchil…

Zelenski sabia de ciência certa e segura que a entrada da Ucrânia para a NATO, rasgando os Acordos assinados, na altura da independência, e o artigo 9º da Constituição, na sequência do golpe de Estado de Maidan em 2014 contra o Presidente legalmente eleito,  acarretaria a guerra que também ele queria com os seus parceiros, pois acreditaram que derrotariam a Rússia e a “descolonizariam” nas palavras da senhora Kallas, Alta Representante da UE para as Relações Externas, depois do socialista que queria tratar da selva e impedir que estragasse o jardim que era a UE.

Zelenski, tal como Putin, quis a guerra. Quis ser Presidente de um país que afundaria a Rússia. Seria então o novo herói ocidental. Todos se vergariam à sua passagem.

Acreditou em Boris Johnson e numa tal  Primeira-Ministra inglesa,  cujo governo durou menos que o vicejo de uma alface; em Biden;  em Scholz( que já se foi com o pior resultado do SPD nos últimos 13anos);em Macron( com governos a cair semestralmente) e carregou no acelerador contra a Rússia.

Era tanta a voracidade da vitória que se esqueceram de questões tão elementares numa guerra como munições, tecnologia militar e apoio popular dentro e fora da Ucrânia.

Confundiram a onda inicial de reprovação e cavalgaram-na até à exaustão, esquecendo as consequências para os povos europeus das sanções que lhes dariam a vitória e hoje são também causa da sua derrota porque se vive pior e ainda querem mais austeridade e trocar Saúde, Educação e Habitação por canhões, não havendo travão para o défice, tudo a favor do complexo militar industrial porque os russos qualquer dia chegam a Alcanena ou quiçá a Figueiró dos Vinhos, enganados pelo nome atrativo.

Uma guerra como esta é uma desgraça brutal e todas as potências envolvidas têm a sua responsabilidade. Sabe-se quando e como começa uma guerra, mas não se sabe quando e como acaba.

Esta que destruiu a Ucrânia e causou centenas de milhar de vítimas de um lado e do outro é de uma violência inimaginável. É a guerra em 2025. Esta guerra é contra homens, mulheres e jovens como quaisquer outros. São seres humanos. Jamais o devemos esquecer. E tudo devemos fazer para a parar.

Porém, os que garantiram a derrota estratégica da Rússia têm grande responsabilidade. Zelenski andou pelo mundo a anunciar a derrota do invasor. Nunca falou de paz. Falou em destruir a ponte de Kerch, reconquistar a Crimeia, recuperar todos os territórios e entrar na NATO. Era este o Roteiro para a paz com o apoio enternecido de Ursula von der Leyen e aguerrido dos socialistas Costa, Borrel, Scholz e Cª .

Entretanto, as coisas mudaram, sobretudo no terreno. Só um cego ou quem não queira ver é que não vê.

Trump sabe o que se passa na frente da batalha e não quer que os EUA sofram mais uma pesada derrota militar. Relançou uma nova política e mudou o azimute para defender os seus interesses, enquanto a UE se vai afundando na Ucrânia, como claramente demostram os resultados eleitorais de hoje na Alemanha.

A guerra da Ucrânia foi sempre uma guerra dos EUA via NATO contra a Rússia. É, pois, natural a negociação entre os EUA e a Rússia. Chegará a hora da Ucrânia. A da UE não se sabe. Dependerá.

Zelenski veio agora numa operação de marketing mundial dizer que afinal já pode ir à vida desde que haja paz e a Ucrânia entre na NATO.

Claro que o coro dos entusiastas do novo guião logo apregoaram o desprendimento de Zelenski e a sua nobreza de sentimentos.

Leia-se bem a declaração para ver que há quem leia algo que ele não disse. Afastar-se-ia se houvesse paz e entrasse na NATO. Duas condições. A causa da guerra foi a sua intenção de levar a Ucrânia para a NATO para ter paz, segundo a sua política. Estão intimamente ligadas.

Como se vê este marketing político é rude e primário. Sente o terreno a fugir-lhe, nomeadamente na Ucrânia. Prossegue as depurações e as perseguições aos possíveis candidatos.

Talvez tenha entrado em campanha eleitoral, mesmo sem estar ainda marcada. Talvez não tenha volta a dar. Talvez queira voltar ao início e trazer a NATO para a Ucrânia, mesmo quando o novo Imperador de Washington manifesta a intenção de se apropriar de territórios de aliados. Talvez um dia se venha a saber o que hoje é apenas um juízo de prognose.

Certo é que a guerra continua e é preciso acabar com ela e respirar a paz na Ucrânia, na Europa, na Palestina, no Sahara Ocidental, no subcontinente africano e no mundo. Sem a participação dos povos a paz é sempre frágil. Por isso os autocratas liberais ou iliberais perseguem os pacifistas. Mais do que nunca a paz é a nossa maior necessidade. A pobreza reinante é também consequência do belicismo. A UE está disposta a comprar armas ao “inimigo” e atacar as despesas sociais para, segundo alegam, conter os russos, sendo que as guerras que tiveram lugar depois da 2ª guerra mundial em mais de 98% dos foram levadas a cabo pelo grande aliado da Europa, os EUA.

Zelenski acreditou no diabo e toda a gente sabe ou devia saber que no diabo não se pode fiar. Mas não foi só ele. A UE aceitou nesta triste aliança que o seu chefe de fila a tornasse irrelevante.

É preciso mais coragem e dar passos em frente pela paz. Podemos por motivos diferentes querer que a guerra acabe. Então não há tempo a perder. Unamo-nos pelo fim da guerra. Chega de anestesia e mangações. Paz para os soldados russos e ucranianos. Paz para os povos eslavos da Rússia e da Ucrânia. Paz na Europa, na Palestina e no mundo. PAZ.

Uma guerra que todos queriam com fim à vista.  

Uma invasão é uma invasão. Mas se um conjunto de países e as potências mais fortes do mundo estacionarem as suas forças junto às fronteiras de um outro país, seguramente que o país “agraciado” com esta nova ordem com regras pensará éne vezes acerca do que fazer.

John Fritzgeral Kennedy não hesitou: ou os soviéticos retiravam os mísseis de Cuba ou começava a guerra nuclear. Cuba tinha direito a ter em seu território o que entendesse até entrar para o Pacto de Varsóvia. Só que os EUA não deixavam. Aliás, todo o Ocidente.

Recentemente, desde 2022, Biden, Blinken, Stoltenberg, os dirigentes da UE afinaram pelo mesmo diapasão. Ridicularizaram a carta da Rússia a considerar inaceitável a integração da Ucrânia na NATO.

Prometeram que iriam derrotar a Rússia e desligá-la do mundo. Quem está a pagar a fatura das decisões dos funcionários burocratas que impuseram as mais de 17 000 sanções à Rússia, sem qualquer apoio jurídico da ordem internacional, são os povos, as classes médias e trabalhadoras da UE. Os resultados eleitorais confirmam este descontentamento e a incapacidade até ao momento para o canalizar para a defesa dos partidos progressistas.

Ao contrário do trombeteado urbi et orbi a economia da Rússia aguenta-se enquanto a economia dos principais países europeus está em recessão.

 No confronto militar da Rússia com EUA/NATO/UE na Ucrânia ficou à vista a derrota ocidental. Privatizaram tudo. Ficaram à mercê dos oligarcas, perdão, dos bilionários do complexo militar industrial. Os oligarcas são exclusivamente russos. Os podres de ricos no Ocidente são famosos e vão a Davos.

Ao contrário do propagado reforço da NATO com a entrada da Finlândia e a Suécia, neste momento a NATO está muito mal de saúde. Há quem se pergunte: pode um país estar numa aliança em que o chefe ameaça incorporar esse país ou parte dele no seu território? O “nosso” MNE já respondeu: não façam ruido.

A crise provocada pelo neoliberalismo, a política seguida pela UE desde meados dos anos oitenta, entregando tudo e todos ao setor financeiro está à vista. A UE esmifra os povos para comprar canhões, tanques e mísseis aos EUA, mesmo que o défice ultrapasse um dos Mandamentos da Santa Madre Senhora de Bruxelas, os tais 3% divinizados pelos países “frugais” e assistentes usurários. A Saúde, a Escola e a Habitação públicas são obra do mafarrico e te renego satanás. Todo o bem público aos mercados. O bem público foi entregue em baixela de ouro e prata aos podres de rico para que eles punam os pobres e os ensinem a merecer o que comem.

Por toda a parte foi difundida a mensagem que o Ocidente, em nome dos mais elevados valores liberais, acorria a Kiev em solidariedade. Afinal chegou a hora de passar a fatura. Ao que parece Trump pede quatro vezes mais do que cedeu. Os eurocratas erguem a voz alegando que o seu contributo foi superior. Diziam que estavam bem unidos. Num mês a Santa Aliança virou um saco de gatos.

Macron que anda há mais de seis meses a ver se arranja um governo reúne-se em Paris com a europa, sendo que o que dizem ser a Europa, não passam de meia dúzia de funcionários de Bruxelas e uns tantos dirigentes de outros tantos países, muito poucos, não chega à meia dúzia. Que decidiram? Nada, melhor, não se sabe. É que o Júpiter gaulês irá a Washington, onde mora o novo imperador daquelas terras, e era suposto estar o dono do guarda-chuva europeu.

O 1º ministro inglês é o único disponível para enviar uns tantos militares daquele Reino, mas só se os EUA estiverem de acordo.

Zelenski anda por aí. Não podia ignorar que ao riscar da Constituição o artigo 9º e pedir para entrar para a NATO que ia criar um conflito com a Rússia. Toda a gente sabia, menos umas tantas almas tão generosas, tão generosas que entendiam que a NATO devia fornecer armas à Ucrânia de borla…como se a NATO tivesse abandonado o seu caráter de braço armado dos EUA e se transformasse numa organização de solidariedade internacional ao povo ucraniano, como se o mundo de uma organização que andou a servir a política de ocupação do Iraque e do Afeganistão ou dos bombardeamentos à Jugoslávia e à Líbia se metamorfoseasse numa ONG de misericórdia cristã, meia católica, meia protestante.

Os eurocratas prometeram-nos uma vitória em toda a linha. Oferecem-nos agora uma derrota brutal. Não satisfeitos insistem na desgraça. Afinal o que os EUA afirmavam ser a ameaça global, a China, passou a ser a Rússia. Pelo menos para um dos mais altos funcionários da burocracia da UE, António Costa. O nosso compatriota e o parceiro alemão veem russos por todo o lado. Os que não tinham dinheiro para mandar cantar um cego, os que tinham armas enferrujadas e os que não tinham comida para as tropas, nem frigoríficos por causa de lhes tirar os chipes, estão a chegar à Fonte da Telha, à praia do Pescador. Vêm por baixo da terra para não serem vistos por almirante candidato. Por terra foi Napoleão e por terra e ar foi Hitler para os soviéticos os verem bem.

Ninguém nesta “europa” fala de uma coisa que a velha e boa Europa falava que foi o Acordo de Segurança assinado por todos os países europeus mais os EUA e o Canadá em Helsínquia em 1975 e que mudou a mentalidade da guerra fria.

Esta era a Europa que o mundo admirava, a Europa das conquistas sociais, do bem-estar, dos direitos e da paz. Agora os eurocratas, sem qualquer consulta aos povos e contra os interesses dos povos, querem entrar desesperadamente numa corrida às armas fabricadas nos EUA para mostrar o quão dóceis são ao imperador que não os tem poupado com insultos e impropérios.

Com Durão Barroso o neoliberalismo da UE acelerou. Saiu de Bruxelas para a Goldman Sachs. Já lá estivera Draghi. É o percurso de vida. Os que abrem os negócios vão mais tarde concretizá-los.

A UE é hoje uma federação mercantilista à qual as nações obedecem. É este sistema de regras emanadas do escuro e das profundezas burocráticas que abala as nações e os povos. São as políticas impiedosas ao serviço dos mercados que despedaçam o conceito de Europa.

Abriram a Europa aos mercados e fecharam-na aos povos.  Chamaram os mercados e os mercadores dos EUA para a Europa. Caminharam lado a lado com os EUA na aventura ucraniana. Acharam que se fizessem de capacho, teriam a recompensa. Em abril de 2022, em Istambul, o que os preocupava era a derrota da Rússia. Carregaram a fundo no acelerador da guerra a contar com o Tio Sam. Sentem-se desprezados por serem tão submissos e agora o Imperador joga-os porta fora de Riade. Os impérios nunca trataram bem os serviçais.

Estão nas mãos de Trump. Dependem dele em energia, quatro vezes mais cara do que a russa. Trump e a extrema-direita capitaliza a decadência da Europa fruto da política da UE. E com Musk tenta alargar a já forte influência da extrema-direita. Na primeira ronda de negociações entre a Rússia e os EUA a UE ficou à espera.

Naturalmente que a Ucrânia vai ter de estar nas negociações em que se discute o seu futuro, mas talvez não seja Zelenski. Aguardemos. Já o escrevi em 2023. Ele poderia não fazer parte da solução de tal forma rastejou junto do Ocidente. Acreditou mais no Ocidente do que nos ucranianos. O resultado está à vista. Em Kiev há quem aguarde a hora e a oportunidade. Zelenski, se falou de paz, foi para contrariar qualquer solução política. Até se auto impediu de falar com Putin. Agora implora. Ele e os que pensavam numa paz justa sem os russos na Suiça. E nas Cimeiras em que se anunciaram as vitórias da Ucrânia de Zelenski. Chegou a hora da verdade e da realidade. Os burocratas de Bruxelas não contam. As proclamações não ganham guerras. Os jovens deste continente não querem ir morrer nos campos de batalha da Ucrânia por causa de uma guerra que nunca teria começado se o Ocidente e Zelenski tivessem respeitado a neutralidade da Ucrânia, bem sabendo que a entrada para a NATO levaria à guerra. Era o que queriam. Julgavam poder esmagar e fragmentar a Rússia. Era o que a Rússia queria. Parece que definitivamente a Rússia ganhou. Os EUA para não perderem mais uma guerra, prepararam-se para a China, desistiram e apresentam a fatura a quem neles acreditou. Deixam a UE num pântano e a comprar-lhe energia e armamento. Se Putin acreditasse em Trump arrepender-se-ia.

Desde sempre – as relações entre Estados são determinadas pela força. Por isso, levamos com a troica e não podemos ultrapassar os 3% do défice pela imposição dos nossos amigos da UE. O resto é conversa fiada.

A Europa é o quê? O show de Paris? Ópera bufa?

As relações internacionais entre Estados têm como chão em que assentam a força de cada Estado.  Inclusivamente entre aliados. Na própria U.E. há um núcleo de Estados cujo poder na Comissão e no Parlamento é mais decisivo do que o de muitos outros. O peso da Alemanha não se compara com o de Portugal ou da Estónia.

Com a criação do euro só a Alemanha e mais um ou outro país ganharam. Os do Sul e da periferia perderam competitividade. Todos aliados. Poucos ganharam, muitos perderam. As relações entre Estados não são relações de piedade ou misericórdia. Basta atentar na fatura de terras raras exigidas pelos EUA à Ucrânia.

Um dos problemas ao analisar o comportamento dos Estados na arena internacional foi e é alinhar um conjunto desses Estados como sendo os “bonzinhos”, cheios de virtudes democráticas, as chamadas democracias liberais e os maus, o resto do mundo, o Sul global, a selva, no entendimento de uma figura proeminente da UE, o socialista espanhol de nome Josep Borrel.

Esta visão idílica das relações internacionais nada tem de ingénuo, antes pelo contrário. Trata-se de criar um pano de fundo onde supostamente se enfrentaria o mundo das virtudes e o das maldades.

No fundo nada tem de original. O Bem e o Mal. Como o Daech e os Ayatollahs, os fundamentalistas sionistas e os islâmicos ou hinduístas ou ortodoxos.

Pregaram-nos anos e anos a fio todas as virtudes do Ocidente mesmo quando invadia o Iraque, ou bombardeava a Jugoslávia ou a Líbia ou ocupava o Afeganistão. Ou apoiava as carnificinas sionistas de Israel com base no direito a defender-se dos ocupados lutando contra os ocupantes.

Sempre a mesma história com algumas nuances. Já não se trata de expandir a fé e a civilização e a escravatura. Agora é a hegemonia a nível mundial.

É a “democracia e os chamados direitos humanos” contra os autocratas que são apenas aqueles que se colocam como adversários dos interesses dos EUA/NATO/UE. Há depois e também os “nossos” autocratas ou oligarcas. Dão-nos big Money. Não se lhes toca. Business is business.

Só que este mundo existia apenas para enganar as populações, sendo que muitas delas também não se importavam porque dava menos trabalho do que preocuparem-se. É muito fofinho um mundo cheio destas “virtudes” democráticas, mesmo quando as guerras no Iraque e no Afeganistão causaram centenas de milhar de mortos. Mesmo os palestinianos com mais de 50 000 mortos, que diabo, são muçulmanos ou mouros ou incivilizados face aos civilizados que descarregam metralha como só visto nos bombardeamentos dos EUA em Nagasaqui e Hiroshima…

Que diabo. Somos democráticos e ELES não. Este é o estado da arte e da alma. Não nos aflijam que cheios de aflições andamos todos de manhã à noite para viver.

Contaram-nos uma história diabólica: a necessidade de derrotar a Rússia autocrática que se hoje comer a Ucrânia amanhã vai a Europa inteirinha até Porto Santo, as Berlengas e a Amadora…Está-se mesmo a ver … os atrasados a dominaram a nata da civilização ocidental, cheia de modernidades. As guerras dos EUA/NATO/UE/Israel não contam, são as “nossas”.

Biden, Ursula, Scholz, Boris, Borrel, Macron e Cª garantiram-nos que tinham descoberto a maneira de esmagar a Rússia. Há três anos que andam a esmagar a Rússia. Sem apelo nem agravo. Todos os dias. O grande Stoltenberg garantiu-o até arranjar um grande job. Já Barroso passara de Presidente da UE para banqueiro.

O grande problema é a realidade. Na Ucrânia os russos avançam. Não obstante as derrotas estrondosas que o Ocidente lhe infringe…O Ocidente ainda não esmagou a Rússia apenas porque ninguém no Ocidente se lembrou de que numa guerra se usam carros, tanques, drones, mísseis e vejam lá que coisa rara, munições, verdade, munições.

É uma elite de euroburocratas sem qualquer ligação à realidade. São peritos em criar realidades paralelas. E se saírem delas inexistem, como uma tal Senhoras Kallas, disposta a mandar a Europa para a guerra para satisfazer os seus traumas de juventude. Claro que não tem qualquer mandato a legitimar as suas vociferações. Nem Costa. Nem Von der Leyen. Foram escolhidos em conclaves fechados. Nenhum europeu votou para os cargos que ocupam.

Foram a Paris encenar uma espécie de ópera bufa e na qual cada um jogava o seu papel. Não havia um plano, apenas show off. Macron vive em permanente sobressalto. Scholz já era. A Dinamarca está assustada com o grande amigo americano.

O caixeiro Rutte levou a encomenda do Pentágono para amaciar a aspereza do novo Imperador cheio de hamburgers.

Acreditaram na Carochinha. Que podiam ser o que nunca foram, nem serão. Trump com a sua brutalidade considerou-os descartáveis. Uma afronta. Não têm capacidade para compreender que não contam. O que conta para os EUA é tentar romper a aliança entre a China, a Rússia e o Irão. A UE não pinta. Faz o que os EUA mandam fazer.  Tem de comprar energia e muito armamento. Os EUA já conseguiram cortar a Rússia da Europa e torná-la dependente ainda mais. As usually em termos de relações internacionais. O resto é para encher os media e intoxicar as populações. O mundo move-se, diria Galileu. A UE ainda não deu conta. Está ancorada no passado.