O lado certo da História

Este conceito é utilizado muitas vezes para justificar as posições que os Estados, governos, partidos, instituições e cidadãos tomam em relação a opções, conflitos e ideologias.

Estar do lado certo da História significa amiúde estar contra decisões governamentais e até de alianças político/militares.

Na guerra da Rússia contra a Ucrânia, no plano imediato, a tendência é para estar do lado do invadido porque realmente houve uma invasão. Há, no entanto, um conjunto de elementos a ter em conta e que podem obrigar a olhar para o conflito com outra profundidade.

No quadro da segurança dos EUA o mundo esteve à beira da terceira guerra mundial só porque a URSS instalou uns quantos misseis nucleares em Cuba.

Cuba tinha todo direito de instalar no seu país os misseis que quisesse, como a Ucrânia pode aderir a qualquer bloco militar. O problema é que Cuba e a Ucrânia não estão sós no mundo e situam-se onde estão localizadas.

Tal como os EUA sentiram a sua segurança em risco com misseis soviéticos em Cuba, também os russos se sentem inseguros com a NATO logo atrás do seu quintal.

Se o Ocidente já assumiu que os Acordos de Minsk foram apenas um instrumento para fortalecer militarmente a Ucrânia e imaginando que este país mais bem armado, melhor atacaria as regiões russófonas, então é de crer que o objetivo de armar a Ucrânia pudesse ter em vista duas saídas.

A primeira era que a Rússia ficasse nas suas fronteiras a assistir aos ataques militares ucranianos contra as populações russófonas.

A segunda era, por essa tática, a Rússia invadir a Ucrânia, a qual já estava mais bem capacitada para enfrentar o invasor.

Seguramente que o Pentágono e as cúpulas da U.E. tinham bem presente este cenário para o qual trabalharam.

A partir da invasão o mundo assistiu, grosso modo, a três posicionamentos a saber: os que defendiam a invasão, os chamados ocidentais que defendem a derrota militar da Rússia e os que defendem uma paz negociada que significará cedências de parte a parte.

Até hoje, apesar de todas as sanções e os milhões de milhões de ajuda à Ucrânia, ou a guerra escala para um patamar global e não haverá vencedores ou será preciso negociar como bem esclareceu o Papa Francisco.

Estar do lado certo da História é impedir a escalada diabólica e como homo sapiens que somos colocar toda a inteligência ao serviço de uma negociação construtiva e inspiradora de confiança. Fazer as pazes com a Alemanha e convidá-la para a construção europeia foi bem mais difícil. Haja coragem.

Marcelo em Kiev, a velhinha, a visita à trincheira e o resto

Marcelo é um caso único desde que a Humanidade conheceu os embriões dos futuros Estados. Seja nas Ilhas Samoa, Tonga, Belize, Barbados, Trinidad e Tobago, seja onde seja, é ponto assente que se ele lá for, alguém lhe sairá ao caminho para o beijar, tal e qual como o fazem as velhinhas da Baixa da Banheira ou dos Canhestros ou da freguesia que ainda não existe.

Já muito Presidente, Rei, Rainha tinha ido a Kiev, certo, só que …Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano… E empunhando o Lusíadas El- Rei dom Marcelo foi de imediato abordado por uma velhinha que lhe espetou três beijos ortodoxos que o deixaram desesperadamente de rastos.

O que houvera sido combinado, era outra coisa mais parecida com a ginjinha no dia primeiro de janeiro no Barreiro. Estávamos à distância de um míssil cruzeiro e não fosse algum russo tecê-las, a ordem foi para evacuar e o Presidente, preocupado com a Lei da Habitação coerciva, responsabilizou os russos pelo sucedido, como é óbvio; tanto mais quanto Putin fornece a casa de António Costa por ocasião do Natal de vodka a fim de contrariar a influência do PCP na ginjinha do Barreiro.

Dom Marcelo, sempre bem acompanhado, incluindo pelo homem que há de dar ordem ao polícia que irá prender Putin, seguiu para o teatro de operações e entrou de fato e gravata azul clara (para os russos não o verem) nas trincheiras de Moschun.

Dizem extasiados os jornalistas que desde Nabucodonosor nenhum Presidente/Rei ou similar tinha entrado numa trincheira; só Alexandre o Magno fizera algo parecido pelo seu amante atingido por um inimigo.

Tal bravura deixou os comandantes militares ucranianos em alerta, imaginando que esse facto podia querer significar que Celito viesse a tirar o lugar a Stoltenberg, o Secretário-Geral da NATO. Os Serviços de Segurança ucranianos pediram satisfações à CIA e zero de resposta.

As fontes bielorrusas já informaram Lukashenko do sucedido. Este ligou a Putin que lhe respondeu: não te preocupes, são coisas para safar o Montenegro. Lukashenko, admirado, questionou-o se ia invadir aquele país. Putin sorriu e exclamou:

– Há uma grande diferença entre um país e o Luís, dorme descansado.

As palavras de Francisco- eloquentes, corajosas e cheias de frescura

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi um acontecimento com um significado profundo e de caráter universal. Esse facto não apaga que a Igreja católica, liderada pelo Papa Francisco, viva um momento delicado.

A falta de conhecimentos científicos das sociedades que nos precederam criaram as suas divindades como sendo portadoras e geradoras de mistérios que os humanos não atingiam e cujos poderes podiam socorrer os necessitados quando devidamente solicitados.

As diversas religiões funcionaram muitas vezes como travões ao despertar e à curiosidade humana.  Lançando um olhar pela estrada do tempo para a Igreja Católica as mulheres não tinham alma, o Sol girava em torno da Terra, a Inquisição purificava pelos tormentos do fogo, a fé impunha-se a golpe de espada no Terceiro Mundo. Hoje a discriminação ainda se mantém em relação ao papel das mulheres e aos homossexuais, apesar de Francisco.

A fé religiosa é muitas vezes uma boia para enfrentar a irracionalidade do mundo; uma procura, mesmo que inconsciente, para dar sustento à razão de ser face ao descalabro do mundo – pobreza, fome, crise climática e guerra na Ucrânia.

A anestesia social, o fechamento aos outros, a exacerbação do individualismo, o sucesso ligado à famigerada meritocracia são pragas deste tempo.

Os poderes dominantes pretendem transformar o ser humano num ser anestesiado, que não suja as mãos no dizer de Francisco, ou até no inimigo de si próprio na desenfreada concorrência para ganhar as graças do Deus Mercado em torno do qual orbitam as sociedades contemporâneas.

 Sendo a religião um ato individual ele contém em si um laço forte que o liga a toda a comunidade, desde os peixes como símbolo dos cristãos sob o jugo romano até à missa, à comunhão e à eucaristia.

No entanto, há dezenas de anos que há uma acentuada diminuição da prática religiosa. Por outro lado, essa prática vem assumindo características muito convencionais (batizado, casamento, funeral).

Francisco, conhecedor profundo do mundo, aponta novos caminhos aos crentes, em primeiro lugar, mas também a outras confissões religiosas e aos não crentes. Ao fazê-lo ganha força dentro da Igreja e fora dela e daí falar para todos, como ele diz, Fratelli  Tutti, o seu último livro em que denuncia a economia que mata.

Ele é também o Chefe de Estado do Vaticano. Tem a coragem de se pronunciar pela abolição das armas nucleares de se empenhar na defesa da paz na Europa, na denuncia as políticas anti-imigração que faz do Mediterrâneo um cemitério de vítimas sem pão para viver.

Perguntou perante os governantes e Corpo Diplomático para onde vai esta Europa que foi capaz de juntar inimigos e agora se separa e se guerreia.

As suas palavras são marcas indeléveis do seu papel e do que ele pretende para a Igreja enquanto instituição e Estado.

Tem consciência que os tempos são difíceis para os católicos se a juventude não arriscar e despertar para as condições em que a imensíssima maioria da população vive.

Há também lastros que vêm do passado e difíceis de se conciliar com a modernidade.

O Parque do Perdão com centenas de confessionários acolheu jovens que foram pedir aos padres perdão pelos pecados cometidos. Como pode um pecador ser absolvido por outro pecador? Claramente neste perdão há dois lados, um homem ou uma mulher e sempre um homem que olha de cima para baixo e lhes concede perdão. E se pretender confessar-se anonimamente fá-lo ajoelhado. Porquê? 

Há sete pecados mortais. Peguemos na gula, temos os médicos a pedir para se comer mais comida saudável, mas nas sociedades ocidentais a obesidade é marca dominante, são doentes ou pecadores ou ambos? Quem morrer gordo vai para o inferno? Vivemos um mundo em que o sistema bancário faz gala de nada perdoar, é a avareza no seu expoente máximo. Os banqueiros quase todos assumidamente praticantes vão para o inferno com as suas muitas condecorações? A ira não é uma marca do tempo? Quem pode ser hoje preguiçoso se quiser ter uma vida para viver, o que exige mais que um emprego.  O mundo mudou muito e rapidamente.

Voltando às palavras de Francisco, eloquentes, cheias de frescura e de erudição. Ele sabe que há um mundo à espera dos que foram à JMJ e dos que a seguiram com atenção. Para quem tem fé e para quem a tem esperança em relação a esta vida. Essa é a estrada. O caminho é para os caminhantes. Vimos do caminho e só temos caminho. Caminhemos, então, cada qual com o seu mundo no meio do mundo. Fratelli Tutti.

https://www.publico.pt/2023/08/15/opiniao/opiniao/palavras-francisco-eloquentes-corajosas-cheias-frescura-2060207

De Hipócrates (460-370 A.C.) ao centrão do poder.

Apesar de todas as modificações económicas, sociais e políticas ao longo dos últimos milénios, o bicho humano, no seu íntimo, não mudou tanto quanto a realidade que o rodeia, embora tenha sido ele o artífice dessas mudanças; bem mais nítidas no mundo exterior do que na psique.

O mundo é muito melhor do que o de Atenas, Esparta, Roma ou o de todos os reinos medievais ou até o que levou à segunda guerra mundial.

A verdade é que no fundo da alma humana continua a tristeza, a alegria, a maldade, a ambição, a violência, a arrogância, a bondade e tantos outros sentimentos positivos e negativos. Parece que avançamos no maravilhoso mundo novo, mas depois chega a hora e salta de dentro de nós o invisível que vem de muito longe, talvez depois de que deixámos de andar a quatro.

O cristianismo resolveu este problema de um modo fantástico, no Juízo Final fazem-se as contas, portanto vê lá se te portas bem. Mesmo com o tal Juízo Final nem a própria Igreja tem escapado ao rosário de maldades ignominiosas e que são públicas.

Os comunistas defendiam que iam forjar sob a ditadura do proletariado o chamado homem novo e foi o desastre que se viu, até porque o homem é velhinho de mais para ser novo, o que não significa que o ideal não sobreviva reconfigurando-o.

Os neoliberais a começar por Fukuyama anunciaram o Fim da História, confundindo a derrota de um projeto desvirtuado de construção de sociedade com a derrota do ideal.

É, no entanto, verdade, que os humanos foram sistematizando alguns princípios que, não obstante, os milhares de anos decorridos, continuam válidos.

Hipócrates, considerado o pai da medicina (460 e 370 a.C.) foi, a convite do povo e do Senado da cidade de Abdera, chamado a dar consulta e cura a Demócrito, filósofo pré-socrático reconhecido entre os gregos.

Na sua resposta na carta de resposta Hipócrates escreve…”Felizes os povos que sabem que os homens honrados são as melhores armas defensivas e que confiam mais nos conselhos sábios dos homens sábios que nas torres e nas muralhas…” Do riso e da loucura, Padrões Culturais Editora.

Vivemos tempos que ofendem a honradez e os melhores valores da democracia, como se a liberdade servisse para os gananciosos abocanharem o que lhes não pertence até ficarem prisioneiros de tanta ganância.

São constantes as notícias dos escândalos de corrupção ligados sobretudo aos partidos do poder e sujeitos afins. Esta constância ao longo dos últimos anos revela que o recrutamento de quadros dirigentes do PS e PSD (e não só) traz na origem o pecado mortal da política atual que deixou de ser algo que tenha na opção uma vocação para servir o bem público para se tornar na escadaria do enriquecimento, salvas honrosas exceções.

 Revela ainda que o mal é muito mais profundo na medida em que é tolerado em boa medida pela própria sociedade. A não o ser, seguramente já havia motivos mais do que suficientes para mudar de voto para os partidos menos atingidos pela corrupção ou para manifestações de vária ordem de protesto, sem querer fazer dos partidos que não governaram entidades incorruptíveis.

A falta de coragem sobrepõe-se à dignidade. Os cidadãos exprimem entre si o seu desacordo designadamente à mesa do café e olhando para o lado para ver como são sentidas as suas palavras.

De certa forma a corrupção cresceu tanto que levou os cidadãos a pensarem que já não é possível viver sem ela, o que será a maior vitória da corrupção. Conseguiu anestesiar a sociedade. Aos anestesiados pode-se fazer o que se quiser.

 Os corruptos são os principais responsáveis, mas quem abana os ombros e neles vota à espera de algo tem a sua percentagem de responsabilidade.

No romance de Gogol “Almas mortas” Tchitchikov, a personagem principal, compra as almas mortas no esplendor da sua capacidade de enganar e corromper. Hoje estão anestesiadas, ao sabor dos sacerdotes do Santo Mercado.

Voltando ao velho Hipócrates, as mulheres e os homens honrados são sem dúvida as melhores defesas do regime democrático. Procure-se a coragem dentro de cada um e mude-se o caminho. Viver anestesiado não é viver, é renunciar à possibilidade de se ser dono do futuro coletivo e individual. Um anestesiado social é um ser a quem lhe arrancaram a alma, vagueia sem chama de vida.

https://www.publico.pt/2023/07/19/opiniao/opiniao/hipocrates-460370-ac-chamado-centrao-2057246

A doença francesa e não só

Num lampo o incêndio alastrou a um conjunto de bairros periféricos de Lille, Auxerre, Lyon, Marselha e Paris, como se um despertador acordasse uma camada significativa de jovens entre os treze e dezassete anos. Todos à uma a incendiar o que de certo modo representa poder central ou comunal.

As muitas e diversas análises têm um denominador comum, a morte do jovem Nahel M. de dezassete anos por um polícia que disparou à queima-roupa por não ter parado ao controlo de trânsito.

Comecemos pelo começo, deve a polícia atirar a matar numa simples operação de trânsito? Num país civilizado a polícia não atira a matar, algo está errado na França para aquele polícia atirar a matar. Algo muito profundo face ao número de disparos desta natureza.

O levantamento imediato dos bairros guetizados destas cidades mostra o peso insustentável da raiva e da ira destes jovens. O que sobressai é a revolta pura, sem que dela se retire qualquer reivindicação. Pura raiva cega.

Os ataques com morteiro de fogo de artificio são contra equipamentos sociais desde bibliotecas aos quarteis dos bombeiros passando por cantinas, pequenos comércios, viaturas de quem quer que sejam até transportes públicos. A raiva não distingue nada. Segue na esteira de outras raivas que arrasaram a França. Repete-se e amplia-se, num diagnóstico difícil. Para a debelar foram necessários mais de quarenta e cinco mil polícias bem armados, incluindo com blindados.

Não são imigrantes como proclamam as extremas direitas e algumas direitas coladas àquelas. São francesas e seus pais também, na origem magrebinos e alguns africanos. Dois grandes sindicatos da polícia chamam-lhe hordas de seres prejudiciais.

A polícia ganhou um poder acrescido no enfrentamento com o terrorismo, com os coletes amarelos e lutas sociais como as importantes manifestações contra o aumento da idade da reforma as quais se desenrolaram de modo pacífico. O poder deu-lhe autorização para atirar a matar e Nahel M. foi morto.

A França sofre há anos de uma insuportável arrogância do poder central e de uma ofensiva antissindical e antipopular para desmantelar o Estado Social e prosseguir o neoliberalismo da cartilha dogmática dos que creem nos humanos como inimigos entre si a quem tem de se reprimir para irem ao rego como os bois nos tempos da lavoura de meados do século passado.

Macron com o seu novo partido atirou o PS para a quase irrelevância. A extrema-direita medra no afundamento do Estado Social.

O poder logrando destruir as várias intermediações com as diferentes classes e camadas e grupos sociais apresenta a sua face violenta contra os que lutam contra esta marcha para o desastre coletivo de um país com a importância da França.

Se somos inimigos uns dos outros salta a extrema-direita fascizante a pedir ordem e mais ordem contra este conjunto de seres “nuisibles” , como os designam alguns sindicatos da Polícia.

Estas ações de verdadeiro vandalismo dão  pretextos aos chefes dessas correntes da extrema-direita que os utilizam para dar ainda mais poder à polícia e mais pobreza aos pobres. São templos muito complexos.

Os trabalhadores e o povo franceses não são ouvidos, mas castigados por defenderem ter uma vida decente e digna. As esquerdas francesas estão enfraquecidas apesar de algum avanço da França Insubmissa de Mélenchon a quem muitos acusam de radical, atribuindo à palavra radical um significado pejorativo com vistas a desqualificá-la imediatamente.

A extrema-direita medra bem neste pântano. O isolamento social e político dos jovens destes bairros pobres e sem perspetivas ao conduzi-los a ações deste tipo cava uma barreira com vastas camadas populares que defendem melhores condições de vida para estes cidadãos que vivem mal e se sentem humilhados por serem entre os pobres os que são mandados para as suas terras, como se não fossem franceses.

Avizinham-se tempos difíceis para a França, mas não só. As políticas neoliberais de esmagamento das forças populares vai dar força aos extremistas de direita como o provam o seu avanço na Espanha, Itália, Alemanha, Áustria, países do Leste europeu e Escandinavos.

A redução da influência dos verdadeiros ideais social-democratas e socialistas cria estes vazios que os populistas da extrema-direita ocupam. Se não houver coragem para mudar o eixo, a Europa vai passar maus tempos, aliás esse tempo já chegou a alguns países. A persistência no modelo neoliberal trará no seu bojo novas catástrofes sociais.

É mais do que tempo de construir um caminho para resgatar uma vida digna, decente e humana sem nos considerarmos todos inimigos uns dos outros. É a horas das esquerdas limparem os sectarismos e construírem alternativas mobilizadoras com vista para o mar largo das gentes trabalhadoras.

As transparências e as aparências de Cristina

A senhora da TVI foi, disse ela, foi, sem cuecas, a Itália. Na festa da TVI, que é algo que o país aguarda e segue com paixão e enlevo, levou um vestido transparente para se lhe ver o que os olhos veem. Tudo certo. E no Instagram escreveu ou mandar escrever que teve mais de três milhões de vistos, o que é obra. Dá que pensar. Mesmo que sejam só cinquenta por cento, mesmo vinte cinco por cento.
Na verdade, o mundo está a ficar cada vez mais um lugar de basbaques, o que preocupa muito mais que as transparências de uma senhora que para acordar precisa de se ver em mil e uma publicações, noblesse oblige.
O mundo vira a cara ao caído na rua, ao que luta por uma vida decente, aos mortos de uma guerra brutal, mas pelos vistos para as transparências há muitas centenas de milhares de olhos.
O fenómeno atinge muito mais gente em termos de basbaques. No mundo narcisista/individualista todos não passamos de cobradores de olhares a ”basbacar” . É pena.
Lembro-me sempre das mulheres que o José Gomes Ferreira via no Elétrico. Que lindo a gente ficar pendurado num olhar e ele ficar famoso apenas porque aquele olhar era o olhar que nos faltava. O Pessoa também ficava extasiado pelo seu rio que não era o grande Tejo, mas isso são coisas de poetas.
Agora os guinchos, o rabo ao léu e sem cuecas é que está a dar, pergunte-se ao senhor professor e PR Marcelo que lá foi ao beija-mão.
Os poetas estão em baixo. Por cima à custa dos lorpas que pagam quase vinte euros está a Cristina que esgota os pavilhões para lhes ensinar a que acreditem neles.
O tempo destes dias está a substituir a racionalidade de gente adulta por um certo grau de infantilização em que a mestra ensina e os incréus acreditam.
Podemo-nos rir, mas Zelenskii não passava de um ator de terceira categoria e fizeram dele o que se sabe.

Poseidon e os que se julgam da estirpe das divindades

No início do século XX distintas mulheres e homens da mais alta burguesia triunfante entravam a bordo do Titanic, o mais extraordinário navio até então construído.

O luxo, o glamour, ao acesso só de alguns humanos, deixaram as populações embasbacadas com aquela vida muito próxima do mais puro ideal burguês- ter e desfrutar a riqueza até ao mais alto pináculo do desejo.

Um século depois um grupo de multibilionários em busca do Titanic e de vestígios de uma riqueza carcomida pelo sal e encoberta de limos e lodo foi à procura de todas as glórias apenas ao alcance de um punhado de famosos-capazes-de-tudo. Vingar-se de certo modo do destino, o que não está ao alcance dos comuns mortais.

Na verdade, toda a atenção do mundo se centrou neles. Durante uma semana consumiram os media. Se já eram famosos devido à sua conta bancária que podia começar no fundo mar e subir ao Everest ficaram ainda mais famosos e talvez para todo o sempre, como o navio perto do qual Poseidon não lhes permitiu que pudessem assemelhar-se à estirpe das divindades.

Poseidon dos que se julgam da estirpe dos deuses

No início do século XX distintas mulheres e homens da mais alta burguesia triunfante entravam a bordo do Titanic, o mais extraordinário navio até então construído.

O luxo, o glamour, ao acesso só de alguns humanos, deixaram as populações embasbacadas com aquela vida muito próxima do mais puro ideal burguês- ter e desfrutar a riqueza até ao mais alto pináculo do desejo.

Um século depois um grupo de multibilionários em busca do Titanic e de vestígios de uma riqueza carcomida pelo sal e encoberta de limos e lodo foi à procura de todas as glórias apenas ao alcance de um punhado de famosos-capazes-de-tudo. Vingar-se de certo modo do destino, o que não está ao alcance dos comuns mortais.

Na verdade, toda a atenção do mundo se centrou neles. Durante uma semana consumiram os media. Se já eram famosos devido à sua conta bancária que podia começar no fundo mar e subir ao Everest ficaram ainda mais famosos e talvez para todo o sempre, como o navio perto do qual Poseidon não lhes permitiu que pudessem assemelhar-se à estirpe das divindades.

 UCRÂNIA – A TROCA DE SANGUE POR ARMAS

Olekseï Reznikov, Ministro da Defesa da Ucrânia, declarou numa entrevista ao programa de notícias TSN do canal 1+1 ucraniano, em 06/01/23, que … A principal ameaça para a Aliança é a Rússia. A Ucrânia faz hoje frente a essa ameaça. Cumprimos hoje a missão da NATO.  Eles não dão o sangue deles pela missão. Nós damos o nosso. Eis a razão pela qual nos devem fornecer armas”, in- https://twitter.com/aaronjmate/status/1613086637571080192?t=UGsvjOwOfOGSFVEYr4i31A&s=19.

Ao cabo destes meses de guerra e a fim de podermos encadear uma lógica subjacente às declarações de Reznikov vale recuar um pouco no tempo e ler as de Oleksiy Danilov, Secretário do Conselho de Segurança e de Defesa da Ucrânianum artigo de opinião publicado no jornal Ucrainska Pravda em 11/02/23 …” O Ocidente deve preparar-se para descolonizar a Rússia que vai desaparecer com as suas fronteiras atuais… Os processos que levaram ao colapso da URSS estão agora em curso na Rússia de hoje…”
https://www.pravda.com.ua/eng/columns/2023/02/11/7388917/

 Seguindo esta linha de raciocínio um dos mais destacados conselheiros de Zelenskï, Oleksï Arestovitch, declarou que a condição para a Ucrânia entrar na NATO era a destruição da Rússia.

O Público do dia 11 do corrente mês num texto de Catherine Belton e Francesca Ebel reportava que …”Um membro bem relacionado dos círculos diplomáticos  com funcionários governamentais afirmou que …a Ucrânia representa uma ameaça existencial à Rússia…”

O think-tank Rand Corporation criado pelo Pentágono no esboço da estratégia em 2019 Extanding Russia: Competition from Advantageous Ground e Overextending and Unbalancing Russia inclui claramente a ideia de desestabilizar a Rússia e levar ao seu enfraquecimento. O documento já entrava em linha de conta com uma invasão da Ucrânia e alertava…”  Poderia conduzir a perdas humanas e territoriais desproporcionadas e um fluxo de refugiados e até a uma paz desvantajosa…”

As revelações de Angela Merkel, François Hollande e Poroschenko que os Acordos de Minsk não passaram de um degrau para ganhar tempo e rearmar as Forças Armadas ucranianas batem certo com o que supra se transcreveu.

A estas somam-se as dos dirigentes ocidentais a dar como garantida a derrota militar russa quer pela incapacidade russa e o seu atraso e extrema desorganização, quer pela capacidade militar da Ucrânia, quer pelo dilúvio de sanções económicas que iriam desconectar a Rússia do mundo e conduzi-la ao colapso económico e social.

A sra. Ursula vestiu a pele de porta-voz da NATO ao declarar solenemente que a Rússia não escapava à derrota militar e que as sanções de mais de uma dezena de pacotes levaria ao fim do regime, logo seguida pelos srs Borrell, Costa, Michel e por um tal MNE que mandava prender Putin no Algarve se para lá fosse de férias.

 A Rússia vende hoje mais petróleo que antes da guerra. A inflação é inferior à da Europa e o PIB russo cresce mais que o da U.E.

As promessas enfáticas aos dirigentes ucranianos de lhes fornecerem todo o armamento necessário para derrotar militarmente a Rússia torna muito difícil assumir a realidade.  No entanto, pelo menos por ora mantêm em aberto a entrada da Ucrânia na NATO. Tal significaria que a NATO passaria a ter um novo centro no Leste, na Polónia, na chamada nova Europa, como assim foi designada por George W. Bush contra Chirac e Schröder aquando da invasão do Iraque.

O mundo vai mudar, não se sabe bem quais as consequências em todo o seu conjunto, mas vai. O eixo da mudança visa quebrar a hegemonia do país que tem mais prisões que universidades e que gasta no seu sistema penitenciário o astronómico montante de setenta e quatro mil milhões de dólares e é atingido por tiroteios constantes nas escolas, igrejas, supermercados e um pouco por todo o lado.

Na Ucrânia o sangue vertido pelos ucranianos será mais uma tragédia a juntar a tantas que os humanos têm vivido. As armas falam da morte e por isso levam a morte, sejam elas de quem forem, do Ocidente ou da Rússia.

A guerra um dia acabará. As negociações terão lugar e provarão que os que empurraram os ucranianos para a tal derrota militar da Rússia serão corresponsáveis pela tragédia, pois que o sangue vertido foi inútil e ao serviço de um projeto alheio aos interesses da própria Ucrânia. Quem estará nas negociações, Putin ou Zelenskï?

https://www.publico.pt/2023/06/14/opiniao/opiniao/ucrania-troca-sangue-armas-2053180

ESTE PAÍS VAI MAL

Os media marcam significativamente o tempo da política. O que não passa nas televisões e não sai nos jornais é como se não existisse. Os atores políticos falam para os cidadãos através dos media. O tempo da mediação direta é quase nulo.  Têm, por outro lado, um papel que, a ser bem cumprido, é essencial para o debate das ideias. Sem ideias diferentes ou até muito diferentes resta o situacionismo, aquilo a que a linguagem popular designa como “são todos iguais e o que querem é apanhar-se lá em cima, mas com o meu voto não”.  Aqui medra a extrema-direita e todos os que se servem da democracia para a amordaçar já confessadamente.

Portugal é, neste momento, um exemplo de como o situacionismo mina a alma popular e leva à descrença nas virtualidades únicas e imprescindíveis da vida democrática. O grande problema dos portugueses é o custo de vida, a falta de habitação, a desgraça da seca, a desertificação de país que vai encolhendo e encostando-se ao mar que se expande, a falta de infraestruturas, designadamente o aeroporto de lisboa, o Ensino, a Saúde, e a Justiça. O empobrecimento aumenta, um, em cada três portugueses, vive mal. Falta decência à nossa vida coletiva.

Não é aceitável que o Estado e as principais autarquias não construam habitação social; a iniciativa privada constrói se quiser, mas é inaceitável que os impostos recolhidos deem para pagar a loucura dos banqueiros (nesta desgraça anunciam lucros fabulosos, sem baixar as taxas de juro) e não dê para minimizar a desastrosa situação de quem quer viver debaixo de um teto e não de uma ponte.

A seca está aí com muita força e a pergunta tem de ser feita, o que se está a fazer para impedir que o Sado desapareça ou outros rios sigam o mesmo fim? E para impedir a desertificação do território que faz fronteira com Espanha?

 O computador do adjunto de Galamba deve ter alguma importância, mas gastar horas, dias, semanas a debater o assunto é uma bizantinice e uma incapacidade das elites dirigentes para acertar o rumo da governação.

Pode o PS, sob pena de suicídio, ignorar a corajosa e democrática luta dos professores pelo Ensino e pelo futuro do país?

Pode o PS continuar a fechar serviços no SNS que vão abrir no setor privado e fazer de conta que as pessoas não se revoltam primeiro por dentro e depois nas urnas e nas ruas contra quem os despreza?

Pode o PS continuar este ciclo inenarrável de ver como a Justiça se degrada, apodrece desde o tempo até às prescrições e à vida sem vida dos funcionários judiciais?

O governo descarrilou, há ministros que pura e simplesmente não existem; há uma que a propósito da seca anunciou a grande medida- pedir a Bruxelas que declare a seca. Onde está a cabeça desta gente, cá ou lá?

E a oposição? Corre atrás de computadores, dos aviões, dos palcos caros, das ruas em obras para aumentar a rede do metro. Resta a senhora Jonet com um banco para os pobrezinhos, falta como na década de cinquenta do século passado cada família ter um pobrezinho. Azeitonas, pão e um copinho de vinho, pobretes, mas alegretes. Há oitenta anos.

 Corre ainda atrás dos Leopardos para a Ucrânia e questiona grosseiramente um Presidente de um país amigo com uma proposta de paz para a Ucrânia. Há mais interesse em mostrar a Washington que é preciso derrotar militarmente a Rússia e até prender Putin do que ouvir, estudar e responder a essa proposta.

Os media puxam pelos casos até à exaustão tentando agarrar os cidadãos pela barulheira em torno deles, parecendo que realmente o país é uma escadaria de casos sem fim à vista, criando a ilusão de que entre os partidos políticos tudo é a mesma coisa, matando esperanças de mudanças. A superficialidade virar-se-á contra os próprios media e correrão o risco de se nivelar no tamanho dos títulos.

Este país vai mal. Tem uma oposição de direita, o PSD, que quase nada de diferente tem a propor. Pois bem, se qualquer um dos partidos serve, os franceses, por exemplo, trocaram num abrir e fechar de olhos Hollande pelo seu Ministro da Economia, o liberal centrista Macron. Et par cause… Se, por outro lado, as esquerdas do PS continuarem a ver qual é a melhor e de costas voltadas, a orientação política continuará a vir de Bruxelas e Washington onde a música é cada vez mais a mesma.  

https://www.publico.pt/2023/05/18/opiniao/opiniao/pais-vai-mal-2050094