Al-Andaluz

No banquete de Platão os convivas apresentaram-se para comer, beber e discutir o que é o amor.

Em volta de uma mesa, um banquete entre amigos, deu o chão onde eruditos patrícios de Atenas se entretiveram a trocar argumentos sobre a importância do corpo e do espírito no amor.

Sócrates ergueu-se acima de todos os outros. Diotima (segundo vários autores, trata-se de Aspásia, a heitara – espécie de amante – de Péricles), atinge no simpósio uma elevada reputação pela sua explicação do que entende ser o mais importante no amor. 

O nosso cirurgião António Damásio explica-nos, salvo erro, a propósito do sistema nervoso entérico, a importância das vísceras na formação do sentimento de bem-estar.

Ora tudo isto para falar de uma taberna e de um mundo de afetos. Quem passar por Reguengos de Monsaraz tem a possibilidade de se sentar à mesa e desfrutar de uma boa comida servido pelo conductor da orquestra, o engenheiro José Morgado.

Platão menosprezava os sentidos. Ignorava o corpo enquanto realidade material e perseguia a alma, o tal espírito.

Na taberna El-Andaluz José Morgado realizou a síntese entre a boa mesa e o afeto que dedica aos convivas e que gera novos afetos entre os convivas.

Adivinha-se, quando a comida chega, o gosto na sua confeção; os que cozinham sabem o quanto lhes vai na alma quando oferecem aquela espécie de amor. Os que a recebem também veem nos olhos do anfitrião essa incandescente partilha dos alimentos e a satisfação pela partilha.

À mesa da taberna tudo é simples porque tudo é inventado ou reinventado a partir do que melhor tem a cozinha alentejana ou andaluz onde José Morgado mergulha.

 Os canapés de anchova são alimento de entes divinos, talvez arte aprendida na costa andaluza. Depois tudo o que no Alentejo é digno de se servir a preparar o prato maior: queijos, enchidos, pezinhos de porco, e outros inesperados esmeros que mais vale saboreá-los que nomeá-los como diria o nosso enorme Luís Vaz de Camões de quem agora se comemora os 500 de nascimento, sem que as autoridades se preocupem muito.

A tradição é a maior valência: galo do campo estufado, rabo de touro de lide estufado, sopa da panela, sopa de tomate, cozido de grão, e o mais que se encomende.

As sobremesas vêm do mesmo solo alentejano e em parte algarvio devido a uma costela de Dom José.

Lembrem, porém, que comer não é apenas mastigar, é muito mais. Comer numa mesa de amigos com o afeto do cozinheiro tanto na confeção como no entabular da conversa que só a comida, a amizade e o amor concedem aos que merecem.

Uma taberna de um tempo antigo atualizado no presente, onde a boa mesa e o bom convívio não nos elevam na nossa condição de humanos.

Talvez José Morgado um dia organize um simpósio para entre as gulodices de sua mestria se discuta o amor em todas as suas dimensões.

Aos ascetas fica o convite para se converterem à boa mesa e aos melhores afetos.

PS- Um clamorosos lapso obriga-me a vir substituir o rabo de porco por rabo de touro de lide, sem que tenha explicação para tal disparate.

El-Andaluz – a taberna da boa vida

No banquete de Platão os convivas apresentaram-se para comer, beber e discutir o que é o amor.

Em volta de uma mesa, um banquete entre amigos, deu o chão onde eruditos patrícios de Atenas se entretiveram a trocar argumentos sobre a importância do corpo e do espírito no amor.

Sócrates ergueu-se acima de todos os outros. Diotima (segundo vários autores, trata-se de Aspásia, a heitara – espécie de amante – de Péricles), atinge no simpósio uma elevada reputação pela sua explicação do que entende ser o mais importante no amor.  

O nosso cirurgião António Damásio explica-nos, salvo erro, a propósito do sistema nervoso entérico, a importância das vísceras na formação do sentimento de bem-estar.

Ora tudo isto para falar de uma taberna e de um mundo de afetos. Quem passar por Reguengos de Monsaraz tem a possibilidade de se sentar à mesa e desfrutar de uma boa comida servido pelo conductor da orquestra, o engenheiro José Morgado.

Platão menosprezava os sentidos. Ignorava o corpo enquanto realidade material e perseguia a alma, o tal espírito.

Na taberna El-Andaluz José Morgado realizou a síntese entre a boa mesa e o afeto que dedica aos convivas e que gera novos afetos entre os convivas.

Adivinha-se, quando a comida chega, o gosto na sua confeção; os que cozinham sabem o quanto lhes vai na alma quando oferecem aquela espécie de amor. Os que a recebem também veem nos olhos do anfitrião essa incandescente partilha dos alimentos e a satisfação pela partilha.

À mesa da taberna tudo é simples porque tudo é inventado ou reinventado a partir do que melhor tem a cozinha alentejana ou andaluz onde José Morgado mergulha.

 Os canapés de anchova são alimento de entes divinos, talvez arte aprendida na costa andaluza. Depois tudo o que no Alentejo é digno de se servir a preparar o prato maior: queijos, enchidos, pezinhos de porco, e outros inesperados esmeros que mais vale saboreá-los que nomeá-los como diria o nosso enorme Luís Vaz de Camões de quem agora se comemora os 500 de nascimento, sem que as autoridades se preocupem muito.

A tradição é a maior valência: galo do campo estufado, rabo de porco estufado, sopa da panela, sopa de tomate, cozido de grão, e o mais que se encomende.

As sobremesas vêm do mesmo solo alentejano e em parte algarvio devido a uma costela de Dom José.

Lembrem, porém, que comer não é apenas mastigar, é muito mais. Comer numa mesa de amigos com o afeto do cozinheiro tanto na confeção como no entabular da conversa que só a comida, a amizade e o amor concedem aos que merecem.

Uma taberna de um tempo antigo atualizado no presente, onde a boa mesa e o bom convívio não nos elevam na nossa condição de humanos.

Talvez José Morgado um dia organize um simpósio para entre as gulodices de sua mestria se discuta o amor em todas as suas dimensões.

Aos ascetas fica o convite para se converterem à boa mesa e aos melhores afetos.

NAS ASAS DO SONHO, CARÍSSIMA CARMO AFONSO

Há um sonho que nos move. Vem do primeiro sentimento humano. Talvez no exato momento que um humano se aproximou de outro para o ajudar.

Foram tantos os humanos sonhos que não caberiam nas páginas deste jornal. Vivemos sonhando. Imaginemos o sonho de Espártaco de libertar os escravos que fez tremer Roma e séculos mais tarde abolir a escravatura. Há sempre um princípio. O sonho dos servos da gleba. O sonho de ter trabalho e um salário. O das mulheres sufragistas. O de ter um país livre. E o de viver numa sociedade onde os direitos individuais e os sociais/culturais/ambientais caminhem sem se enfrentarem, o que ainda não aconteceu.

Tenho plena consciência do falhanço de um modelo totalitário que acabou conspurcando o ideal socialista. Mas atenção, todo o caminhar humano é imperfeito. Até o da Igreja, onde estariam os mais “puros”.

O grande erro foi congeminar que bastaria a vontade para que as coisas se passassem como estavam na cabeça de uns tantos dirigentes. Se repararmos somos feitos de muitas imperfeições. Felizmente.

O empedernido sonhador não vai deixar de sonhar enquanto caminhar nesta Terra. A sua pequenez no Universo não o impede de voar pelo próprio Espaço. Lá está, é o sonho.

Vem tudo isto a propósito de um texto da Carmo Afonso que admiro e leio o que escreve com grande lucidez e sabedoria.

E então qual é o propósito do a propósito? Simples – os comunistas não são uma espécie de espécie em vias de extinção, mesmo que as sondagens se confirmem em relação ao PCP, o que não se espera.

É que os comunistas não fazem só falta pela oposição aos aspetos mais negativos do capitalismo. Percebo-o para os que se afeiçoaram ao que A.C. designa como social-democracia europeia. Mas não me fico nesse apeadeiro. O sonho é mais longo.

O projeto dos comunistas (ou outro nome que venham a ter) afirma-se sobretudo pela positiva e não cabe apenas num partido, nem sobretudo num partido que a si próprio se atribui a representação quase exclusiva desse ideal.

O ideal socialista de que os comunistas também são defensores deverá consubstanciar mais direitos individuais e coletivos que os existentes no capitalismo, cada vez mais afastado da social-democracia, plasmado num modelo neoliberal (único) já sem o sonho de um mundo de paz como recentemente vimos no corrupio de dirigentes social-democratas para apoiar o carniceiro de Israel. Que é feito do sonho/legado de Olof Palm?

A vaga neoliberal que é a expressão do capitalismo atual, onde jaz a social-democracia, tem como objetivo restringir e, nalguns casos, liquidar direitos e liberdades, sobretudo os que constituíram alavancas para melhorar as condições de vida materiais e espirituais, e, na sua essência, empobrecer os assalariados e fazer das classes médias classes assalariadas, reduzindo-as substancialmente, ficando uma minoria de um por cento com a riqueza de mais de cinquenta por cento de toda a população mundial, como acontece.

É preciso alterar esta realidade, ganhando para um projeto político a imensa maioria dos que vivem do seu trabalho e as empresas produtivas. Numa perspetiva hegemónica gramsciana, as cabeças deverão ficar direitinhas nos pescoços de quem as tem, pois, como já vimos, não deu certo e a repetição seria ainda mais trágica.

Impõe-se, quase como dever kantiano, um outro mundo onde se possa ser mais humano, onde cada um não é o lobo que se abate sobre o seu companheiro de espécie, onde a meritocracia altamente duvidosa nos põe em guerra de todos contra todos.

Apenas uma simples pergunta (in)comodativa (?!): era mais fácil admitir na Antiguidade que um dia se viveria sem escravatura ou hoje que os seres humanos poderão optar por um regime de verdadeira igualdade social, onde todos não serão semáforos porque diferentes, mas iguais? Sempre que um homem sonha…

https://www.publico.pt/2024/01/06/opiniao/opiniao/asas-sonho-carissima-carmo-afonso-2075904

Jeová, Abraão, Isaque, Marcelo Rebelo de Sousa e o Génesis

E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isac, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi (Gênesis 22:2)

Se lermos com toda a atenção este ponto da Bíblia, não é pedido a Abraão que ele sacrifique qualquer Secretário de Estado, apenas seu filho a fim de provar quanto ele exigia a quem quisesse assegurar que O adorava.

Numa hermenêutica das declarações complexas de Marcelas, no Barreiro, ele deixou claro que, tal como Abraão, ele também sacrificava seu filho.

Mas fazia mais – sacrificava o filho e para agradar ainda mais ao Juiz Supremo que o elegeu, entregava a cabeça do Dr. Lacerda para que não houvesse dúvidas acerca da sua capacidade de denunciar os que servem para marcar consultas nas costa do Povo.

Veio, muito recentemente, envergonhado por ter de falar aos media, dizer que, apesar de tudo o que se passou, ele ainda gozava do apoio de sessenta e cinco por cento dos portugueses, isto porque a sondagem não incluiu Kiev, onde todas as velhinhas o adoram sem limites, faça o que fizer.

Tendo em conta os milhares de anos entre o episódio do Génesis e este agora na Capela das Ginjas no Barreiro, a conclusão é óbvia – vale a pena o sacrifício pelo Juiz Supremo. Talvez valha voltar à Cristina quando ela acertar contas com a SIC.

A grande descoberta enquanto bebia a ginjinha

Marcelo Rebelo de Sousa foi beber uma ginjinha ao Barreiro que é uma terra pela qual desde pequenino tem uma grande paixão. Sempre que havia greves no Barreiro ele rejubilava. Antes de ser eleito passou a ir às ginjinhas porque lhe pediram tanto, tanto que não pôde recusar. Claro que os malvados das más intenções disseram que era por outros motivos. Incrível.

No Barreiro fez uma revelação digna de registo e que revela a sua integridade moral, cívica e política – não foi ele que ligou para o Hospital Santa Maria; o filho reuniu com Lacerda Sales porque sabia que pela via do pai não conseguia o que conseguiu.

Ficou por esclarecer se Lacerda Sales sabia que o filho era filho do pai, pois no caso a mãe não conta. E ainda se ele admitiria que Sua Excelência o Sr. Presidente da República rapava do telefone e como quem bebe uma ginjinha toca de falar da preocupação do filho com o Sr. Diretor do hospital. Nem pensar, ele não um desses…ali fia mais fininho. Isso, pelos vistos, é para o Dr. Lacerdas que tem uma porta que é feita para abrir e a dele só se fecha, ficando no ar a ideia de que ele sai pela janela para ninguém o ver naqueles passeios noturnos…”tenho muita pena de não ter sabido há quatro anos e tal…retiro as conclusões de não ter sido dito o que permitiria intervir para não tivesse acontecido o que aconteceu…” Esqueceu-se que tinha dito anteriormente “…o meu filho enviou-me um email em que dizia que um grupo de amigos da família das gémeas estava a tentar que fossem tratadas em Portugal…”Ai se ele tivesse lido o mail do filho para o pai. Não se lembrou porque isso não era para ele, era para o outro, o tal que abre…

Isto cá para nós, se o Sr. Dr. Lacerda Sales fosses daqueles que se sentem depositava na casaca do bebedor de ginjas aquilo que se imagina com toda a propriedade. E na face um daqueles beijões bem repimpados.

Biden e Netanyahu

As long as it takes

O Presidente dos EUA, o supremo protetor de Netanyahu, vetou o cessar-fogo proposto no Conselho de Segurança da ONU.

Veio agora informar que manteve uma conversa telefónica com o primeiro-ministro de Israel a quem lhe pediu para poupar os civis.

Uma de duas: ou Netanyahu mata podendo poupar vidas ou os bombardeamentos são exatamente para aterrorizar e matar a população e obrigá-la a fugir de Gaza para entrarem mais tarde os colonos judeus.

Biden conhece o que Israel está a fazer e sabe que o que pediu apenas vale como postal de hipocrisia em época de Natal.

Os princípios cristãos ocidentais são todos os segundos e minutos enterrados nas bombas israelitas em Gaza.

O Ocidente perdeu a vergonha. As dezenas de milhares de mortos palestinianos vão persegui-los para todo o sempre. Os direitos humanos de Biden, Macron, Scholz, Ursula von der Leyen são apenas um biombo para esconder os seus propósitos de domínio do mundo. Estão a ser desmascarados as long as it takes.

O sublime destino de Marcelo

Marcelo corre de volta da mesa para ver se é capaz de se apanhar a si próprio. Ele sabe que não é, mas o impulso da irrealidade não o admite. Nem um passeio em redor do palácio o tempera.

Viveu sempre de olhos postos nos cumes; em sua volta voava-se e poisava-se nos altos edifícios do Estado Novo.

Talvez tivesse medo de que não olhassem para ele, apesar do brilho. Talvez quisesse vingar o passado. Só ele o saberá.

Esbarrou quase sempre nos propósitos de que se alimentava. Nem o banho no Tejo lhe refrescou a propensão para o desmedido, a ânsia ansiosa.

Até ao dia em que se sentou a comentar num país que vive da e para a televisão.

Depois veio um homem incontido, incapaz de se olhar ao espelho e para quem lá se refletia. Aquele não era o homem que lá estava. Não percebeu que no espelho não estão refletidos o cérebro e o coração. António Damásio ainda não teve tempo para falar com ele sobre o sentimento de si. Não adiantaria, mas…

Marcelo tinha razão, as ginjinhas que bebia apareciam na contagem dos votos, mas não apareciam no espelho; nem na condecoração que não foi entregue a Zelenski, nem no abrigo da guerra, nem no beijo de uma velha ucraniana que quer guardar o bocado da pele como relíquia, nem a viagem para Viseu a fazer de motorista de uma jornalista. Nem, nem. O certo é que o país das televisões aceita tudo desde que lho deem de borla e a horas de ser visto.

Pela primeira vez no dia que foi a Alcoitão quando acordou e se viu ao espelho não era a sua fulgurante imagem que lá se encontrava. Quem lhe sorria era António Costa, o primeiro-ministro. Nos diversos espelhos a imagem dele desaparecera e fora substituída pela de António Costa.

A metamorfose Kafkiana ali estava. Para enganar o feitiço disse o que se conhece, Costa é o político mais capaz da Europa. Está dito.

Há quem auspicie um fim sublime a Marcelo Rebelo de Sousa – estudar os motivos que impediram Ícaro de levantar voo.

AGORA É AGORA, DEPOIS NÃO SE SABE

Desde sempre (salvo raros momentos) que há uma doença que mina a esquerda e da qual custa a libertar-se. Devido à aura que a busca de uma justiça social mais autêntica e igualitária lhe confere, perde muitas vezes a noção da acumulação de forças para lograr as transformações a que se propõe. Referimo-nos naturalmente às esquerdas que se posicionam à esquerda da social-democracia.

No atual contexto mundial há uma acentuada viragem à direita com resultados relevantes para a extrema-direita fascizante que vai do Sul ao Centro e ao Norte da Europa e um pouco por todo o mundo, como recentemente aconteceu na Argentina.

Em Portugal, há um sério perigo da direita se coligar com as forças de extrema-direita, podendo obter uma maioria, sendo uma prioridade democrática forjar condições políticas para que PS, PCP, BE e Livre alcancem uma maioria parlamentar. E não é preciso ir muito longe para averiguar como uma política unitária e reformadora gera maiorias, basta atravessar a fronteira.

É assim uma necessidade que os partidos à esquerda do PS cujos ação política demonstra terem um conjunto interessante de denominadores comuns programáticos façam desses pontos uma batalha contra a direita e a extrema-direita.

 Nesse sentido impunha-se encontrarem-se e apostarem nos denominadores comuns em que convergem e apresentarem assim uma alternativa credível, em vez de ser cada um a puxar para seu lado.

Tal proposta encontraria certamente apoio em todo o povo de esquerda que compreenderia a importância de se mobilizar para derrotar a possibilidade de formação de um governo do PSD com a extrema-direita, precisamente no 50º aniversário da revolução de Abril.

O PS (em campanha eleitoral interna) que em 2015 fez acordos de incidência parlamentar com o PCP e com o BE, e de tal experiência ganhou apoio popular e parlamentar, ao contrário das vezes que se meteu pelo centrão onde não há propriamente distinção entre PS e PSD, como reza a História da nossa democracia.  

Pelo que se vai vendo, nem o real perigo de a extrema-direita chegar ao governo cria no PS um estado de alarme, pretendendo que sozinho está em condições de vencer o desafio, o que não é verosímil e se tem visto pela ação governativa.

Mas à esquerda do PS o panorama é deveras incompreensível, nomeadamente no que concerne à postura do PCP, do BE e do Livre.  

Sabendo da importância de somar votos para condicionar o PS (o PSOE também não se deixava condicionar) em vez de fazer força no que os une e que só o voto naqueles partidos é garantia da defesa de serviços públicos modernos, da Escola Pública, do SNS e do reforço democrático das instituições, enveredam pelo acentuar das diferenças de que é exemplo a entrevista de Mariana Mortágua à CMTV. Já antes Paulo Raimundo por lá tinha passado todo contente com o seu PCP imutável e incapaz de assumir a extraordinária tradição unitária que durante décadas foi marca do partido.

O Livre por muito que o PS lhe pisque o os olhinhos não é como muleta do PS que se a afirmará no panorama partidário de esquerda.

Vivemos um período de sérios riscos quanto ao futuro da democracia em Portugal, tal como ela se consolidou saída da revolução de Abril. Talvez um grande número de portugueses não se tenha ainda dado conta. Não é tarefa para apenas um ou dois atores partidários. Pelos erros praticados por sucessivos governos é trabalho para todos os democratas de Abril.

Não importa a diferença ali ou acolá no plano externo, na eutanásia ou noutras áreas, que não são tão decisivas como os alicerces do regime, onde aí sim tudo se poderá discutir e as diferenças justificarem a existência de cada partido.

As esquerdas têm de abrir as janelas e não olharem apenas para as diferenças ou talvez ainda mais perversamente as acentuar para um ou outro obter mais uns tantos votos. Cada formação de esquerda reflete o universo onde se move e por mais voltas que se deem, qualquer partido de esquerda devia ter como missão, neste momento tão peculiar e perigoso, contribuir para impedir uma maioria de direita e de extrema-direita.

Aos poucos, as democracias liberais vão deslizando para abraçarem liberalmente formações de extrema-direita e forças fascizantes catapultando-as para os diversos governos. Os sinais são claros e múltiplos. Os cegos que o são realmente não são os mais cegos, os que não querem ver são muito mais.

https://www.publico.pt/2023/12/07/opiniao/opiniao/nao-sabe-2072863

Gaza e a idade tribal de Netanyahu

Os seres humanos criaram os adjetivos para conferir características aos substantivos, para fazer luz acerca do que pretendem transmitir desde o horror ao belo. Quer no amor, quer na beleza, quer no horror acontece, como escrevia o poeta Eugénio de Andrade, que se gastaram as palavras de tanto as usarmos para determinadas situações ou estados. Outro poeta, Paulo Sucena, escreveu um livro de poesia com o título “Amor em adjetivo”.

Na verdade, as palavras não passam de palavras, mas as palavras não deixam de ser o grande meio de comunicação que os humanos se servem para expressarem os sentimentos, os saberes, as interrogações, entre tantos outros problemas e satisfações, que os moldam.

Quando olhamos o que se está a passar em Gaza com a brutalidade dos bombardeamentos israelitas sobre a população totalmente indefesa os nossos sentimentos não encontram palavras que possam descrever, em pleno século XXI, o horror e a malvadez dos homens e das mulheres que ordenam semelhante atrocidade. É como se recuássemos milhares de anos, varrêssemos os progressos civilizacionais e da caverna dos mais poderosos e selváticos ouvíssemos o grito de matar tudo o que aparecer e que não seja do respetivo clan. Como se os outros fossem coisas para destruir e não seres vivos, como se a racionalidade andasse de mãos dadas com a selvajaria. Como se os outros humanos não o fossem.

A equipa dirigente israelita atingiu o grau da pura esquizofrenia ao colocar toda a sua inteligência e capacidade na destruição de um outro povo que nasceu e viveu séculos no mesmo solo. Netanyahu vive na idade das tribos. O seu espírito não evoluiu, cada homem tem dentro si o progresso e as trevas; ele fechou-se na escuridão tribal.

Pois bem, é a este homem que Biden, von Der Leyen, Scholz, Borrel e Cravinho vão prestar solidariedade. O mundo entrou num redemoinho de loucura que nos deixa a todos desamparados, caso não façamos o que temos de fazer.

A Humanidade não pode deixar matar os palestinianos como caça de cerco despejando sobre eles milhares e milhares de explosivos por metro quadrado matando em primeiro lugar crianças, mulheres e idosos. É a própria Humanidade que morre na morte do povo palestiniano.

Os dirigentes ocidentais ao permitirem esta barbárie deixaram de nos representar. Eles não foram eleitos para permitir semelhante brutalidade. Nunca nos disseram que iriam dar o seu acordo à solução final dos palestinianos matando-os ou fazendo-os espantar como o gado para outros países ou para o mar.

As palavras estão gastas, mas os sentimentos não. Não podemos morrer em Gaza. A morte é a morte e precisamos de vida. Levantemos toda a nossa indignação e sejamos solidários com o povo palestiniano.

UM MP/PGR SEM RUMO

O regime democrático português, assente na Constituição da República, enfrenta problemas de grande envergadura, tendo em conta o ponto onde nos encontramos.

Temos de concordar que, em paralelo com as gravíssimas dificuldades mais de um terço dos portugueses enfrenta, há todo um universo composto por empresários e dirigentes políticos que navegam em águas atoladiças de onde extraem avultadíssimos proveitos, sem que até hoje a justiça tenha sido capaz de estabelecer com a comunidade uma relação de confiança quanto a este tão imperioso combate. Parece que a Justiça se contenta em substituir os media pelos tribunais, com gravíssimos prejuízos em todos os azimutes.

À justiça não basta anunciar detenções de altos dirigentes governamentais, municipais ou empresariais. Se se quedar por este arremesso e deixar o tempo corromper e afundar o estardalhaço comunicacional, afunda-se na sociedade a confiança no sistema. 

Não é totalmente verdadeira a frase de António Costa quando José Sócrates foi detido – À justiça o que é da justiça, à política o que é da política – na medida em que a justiça é produto da política governamental, ou seja, a independência dos juízes e a autonomia do MP são pedras basilares do edifício da Justiça, mas a justiça não é só “isso”. A Justiça é o resultado de opções políticas que visam estruturar um sistema de relações económicas, comerciais, criminais, familiares, sociais e outras que asseguram a paz social onde os cidadãos vivam. Sendo humana será sempre imperfeita, mas nunca separadas das condições em que se insere e atua.

Quando um governo é derrubado porque um comunicado da PGR refere num último parágrafo que Costa é referenciado em escutas telefónicas e quando o PR, ilustre professor de Direito Constitucional, o aceita com olímpica naturalidade, estamos perante uma monstruosa aberração jurídica e política.

Independentemente do valor probatório de escutas em que os escutados se referem a terceiros invocando proximidades e decisões à la carte, exigem um escrutínio rigoroso sempre e muito mais quando se está perante um primeiro-ministro. Só por  requintada leviandade ou pura perversão se incluiria um parágrafo daquela matriz num comunicado como o da PGR, pois, como se viu, abriu-se uma crise política cujos efeitos são para já desconhecidos e cujas consequências podem ser devastadoras para o regime democrático precisamente muito perto do seu cinquentenário.

Uma investigação criminal nunca pode ser cega e não deve parar diante de quem quer que seja, mas tendo em conta o impacto político, económico e social quando há terceiros que se referem ao primeiro-ministro é imperioso prosseguir e simultaneamente pesar até que ponto o descoberto é suficiente para ser revelado, tendo a consciência de que um passo deste calibre pode ter consequências catastróficas para toda a comunidade e até internacionais.

As meras referências a António Costa ao serem tornadas públicas não podiam deixar de ter um efeito de uma bomba atómica, pois tornaram a ação política do mesmo inviável, quer se demitisse, quer o não fizesse.

Ao assumir o parágrafo assassino a PGR/MP decretou a morte do governo de António Costa suportado por uma maioria absoluta.

O MP não pode ignorar que ao revelar o que noticiou atirou para o limbo político um político que é primeiro-ministro e que, pelo andamento do processo no STJ em conexão com o outro processo dos outros arguidos, passarão anos e anos para se poder saber exatamente se as suspeitas eram fundadas.

Qualquer justificação em falta de meios não faz sentido, pois os Digníssimos Procuradores bem conhecem os meios e, portanto, apesar disso deram o passo para a falta de meios… para o abismo democrático.

Não há independência de qualquer procurador que justifique este grau de irresponsabilidade, pois isto é tudo menos independência, esta exige um elevado grau de responsabilidade na medida em que independência impõe responsabilidade. Trata-se de mero desaforo. Só uma corporação sem rei, nem roque pode atrever-se a semelhante despautério.

E só um Presidente da República norteado por um espírito vingativo e com o tal sonho, que tornou público, de ver um governo de centro/direita, como lhe chamou, pode justificar esta loucura jurídica, bem sabendo todos os que a perfilharam que António Costa e o governo ficavam sem chão e que não tinham como se defender dada a natureza e a envolvência temporal da suspeição.

No meio de santa pobreza intelectual há anos que o PR inventou um novo regime no país, subvertendo o que resulta da CRP. As eleições em Portugal não têm como finalidade escolher um primeiro-ministro, mas sim eleger deputados, que por sua vez estabelecem uma maioria que irá dentro de si escolher o primeiro-ministro independentemente de cada partido em campanha eleitoral indicar, quem do seu partido eleito deputado, poderá ser o primeiro-ministro. Na Europa ocidental muitas aconteceu o primeiro-ministro não ser o do partido mais votado.

Marcelo Rebelo de Sousa com desplante decidiu (em substituição do parlamento) derrubar o governo e convocar eleições, cumprindo um passo do seu sonho.

Não está em causa a investigação, mas o facto de levar à irresponsabilidade de atribuir publicamente a suspeição do primeiro-ministro, sem ter cuidado de investigar se essa suspeita estava ancorada em factos que de modo substancial a tornavam mais ou menos sólida.

 Ao fazê-lo afundou ainda mais a confiança na Justiça, pois seja qual for o resultado da investigação, ela carrega o fardo de ter derrubado um governo com maioria parlamentar absoluta, antes de serem seguros os elementos dessa suspeição.

Ao fazê-lo, deste modo, para uma parte bem significativa da população portuguesa, interveio politicamente para afastar o governo de A.C.

Ao fazê-lo mostrou que, em vez de se conduzir num processo desta envergadura não usou a prudência e bom senso institucionais e enveredou por uma lógica de escandalizar o país ateando-o de chamas bem altas o alarme social.

O futuro que vier a ser escrito ficará para sempre contaminado por esta irresponsabilidade, sem possibilidade de António Costa se defender.