As eleições autárquicas, as esquerdas e o exemplo francês

Público – Edição Lisboa

  • 9 Jul 2024
  • Domingos Lopes Advogado

Portugal tem 308 municípios dos quais 122 com menos de dez mil habitantes, 65 entre dez e vinte mil, 32 entre vinte e trinta mil e 33 entre trinta e cinquenta mil. 6.924.159 portugueses moram em 56,18% de todos os municípios, segundo dados da Wikipedia. Entre o 25 de Abril de 1974 e meados da década de 80, o PCP tinha uma política autárquica de grande amplitude política, para além da esquerda ou direita.

Exceção feita aos grandes municípios, onde os interesses financeiros e imobiliários se faziam sentir, a orientação era a de que a política autárquica passava pela defesa das populações na concretização do saneamento básico, infraestruturas de caráter social, desportivo e cultural. O poder local é uma das maiores obras de Abril.

O PCP deu cartas e chegou a dirigir 50 municípios, nomeadamente nas eleições de 1979. Não ganhou certas câmaras por uma unha negra ou diferenças mínimas — Cascais, Sintra, Peniche entre outras. Mais de 60% dos candidatos eram independentes.

Entretanto, o país foi-se “litoralizando” e tornando o interior um enorme espaço com crescente perda populacional. As políticas seguidas configuram um verdadeiro desastre nacional, deixando ao abandono mais de metade do território nacional. Sem o poder local o abandono seria maior.

Não deixa, entretanto, de ser válida a ideia de que na larga maioria das autarquias os confrontos políticos não têm a dimensão dos confrontos dos maiores municípios, onde se situam os grandes interesses económicos, financeiros, imobiliários que abrem o modelo de cidade a alternativas de direita ou de esquerda. Basta atentar no gravíssimo problema da habitação para se compreender que não se pode deixar apenas à iniciativa privada a sua resolução. Ou na política de privatizações de bens essenciais, como a água.

Em relação à capital, o PCP sempre tentou uma política de alianças, designadamente com o PS, o que nunca resultou, enquanto o PCP ficava à frente do PS. A coligação eleitoral do PCP chegou a obter 27,50% dos votos em 1985, em Lisboa; o PS, tendo recusado qualquer aliança, ficou pelos 17,98%.

Mais tarde, graças à aliança do PCP e do PS, foi possível eleger Jorge Sampaio como presidente da Câmara de Lisboa, com base num programa negociado entre os dois partidos e que muito contribuiu para fazer avançar a cidade, como é ainda hoje reconhecido.

O PCP era então um partido duro a negociar, sem medo das dificuldades de uma negociação. Trata-se de um verdadeiro erro político, consentâneo com a fraqueza política dos dirigentes do PCP, antes de qualquer negociação entre as esquerdas e o PS, recusá-la à partida com o argumento de que não se está disponível para entregar câmaras ao PS.

Era e é perfeitamente possível ao PCP ouvir propostas, levar as suas, analisar até que ponto o conjunto de acordos constituiria um património de compromissos mínimos, para ir para a frente ou para esclarecer em concreto os motivos de uma recusa.

A ideia de que as alianças do PCP com outras forças de esquerda ou de centro-esquerda são responsáveis pelas suas quebras está por confirmar, estando, sim, reconfirmada, em eleições sucessivas, que as perdas constantes e significativas do PCP não se devem a alianças políticas com outros partidos de esquerda e centro-esquerda, dado que estão ausentes.

A coragem política da direção comunista ou é reavivada, e entra na sua orientação política, ou a irrelevância será o seu futuro, incluindo no plano autárquico. Imaginemos que as esquerdas e o centro-esquerda não elegem o presidente do município de Lisboa, porque o PCP faltou à chamada e os seus votos eram suficientes… Ou, que elegem, e que os votos do PCP não foram sequer precisos!

Lisboa precisa de um presidente da câmara mais comprometido com as aspirações da população. O contributo do PCP pode ser importante, se a direção quiser parar o plano inclinado da irrelevância em que se afunda. Que o exemplo de França ilumine as mentes da direção comunista.

O HOMO BELICUS VERSUS  A MARAVILHOSA AVENTURA DA VIDA

Há muitas razões para desconfiar de Putin, Zelenski, Biden, Ursula e de outros dirigentes. O primeiro invadiu a Ucrânia. Os segundos transformaram os Acordos de Minsk num biombo para a Ucrânia se rearmar, como confessaram. Tentaram, sabendo da total oposição russa, levar a cabo a integração daquele país na NATO com as consequências conhecidas para a Ucrânia.

A integração se se concretizasse significaria que a Rússia passaria a ter a sua fronteira de 2.245,80 quilómetros com a Ucrânia (Wikipedia) e com os 31 países da NATO.

Recorda-se que Cuba não faz fronteira com os EUA, mas quando a URSS instalou misseis com ogivas nucleares naquele país, o mundo esteve muitíssimo perto de uma guerra nuclear.  

A guerra é na Europa e para desgraça dos europeus. A narrativa dominante não compactua com os poucos que não enfileiram no caminho da guerra. A continuar assim brevemente será entronado o homo belicus com a Sra. Ursula na sua apresentação e coadjuvada por Josep Borrel.

Alega-se que esta corrida aos armamentos é para defender a “democracia liberal” e os “nossos valores”. O Ocidente dos “nossos valores” à sua conta tem um lastro de vários milhões de mortos nas guerras da Argélia, Vietnam, Laos, Camboja e Iraque, entre muitas outras. Eram democracias os invasores e ocupantes. Os “nossos valores liberais” ainda sangram em Hiroshima e Nagasaki às mãos da democracia USA.

Repare-se como a democracia liberal de Israel ocupa e mata a sangue-frio nos territórios palestinianos ocupados.  Por que não há sanções contra Israel, antes apoio de todo o tipo?

 A maioria da Câmara dos Representantes nos EUA acaba de aprovar uma proposta de sanções a aplicar aos juízes do TPI e seus familiares, caso decidam emitir um mandado de captura contra Netanyahu pedido pelo procurador junto do tribunal, que fez idêntico pedido contra responsáveis de Israel e do Hamas.

 Por que não há solidariedade com a luta contra a ocupação israelita? Por causa do Hamas? Mas o batalhão Azov dos seguidores do nazi Stepan Banderas não impede o Ocidente de enviar cada vez mais armamento para a Ucrânia. Veja-se a excelente reportagem deste jornal Como a Ucrânia se tornou no maior viveiro de neonazis do mundo | Extrema-direita | PÚBLICO (publico.pt)

O Ocidente não tem uma abordagem séria destes conflitos. Muitos milhares de milhões em ajuda aos ocupantes israelitas, nem uma fisga para os palestinianos combaterem o ocupante. Sanções nunca vistas contra a Rússia- Choque e pavor- nem meia sanção contra Israel.

Os que se atrevem a defender soluções negociadas para a esta guerra são apelidados de putinistas, mesmo quando estão nas antípodas do regime vigente no Kremlin.

 A narrativa oficial alega que está em causa o nosso modo de vida, mas nós somos da NATO desde o regime salazarista/fascista. Conviveram bem até 25 de Abril de 1974.

A insensatez das elites e das opiniões públicas é gritante. A força da gravidade do poder faz com que a maioria se sujeite a essa força. Todos caminham como se na Europa não houvesse uma guerra, que a continuar, pode alastrar a todo o continente e entrar noutro patamar terrível, o do braseiro nuclear. Dizem que é preciso perder o medo, mas o medo da guerra ou o medo da paz? Coragem é não ter medo da paz. E há, apesar de tudo, quem resista. Aí reside a esperança, na força dos que se não vergam às narrativas belicistas.

Tudo se pode resolver, mesmo os problemas mais graves entre Estados, desde as armas não liquidem as condições de vida para negociar. É confrangedor não surgir na opinião pública europeia um despertar que leve à criação de um movimento que não se renda ao peso do poder dos governantes belicistas que cortam despesas na Escola Pública, no SNS, na habitação pública, nas creches e infantários para empregarem esses fundos na compra de armas.

É necessário que os dirigentes europeus pressionados pelas opiniões públicas obriguem os dirigentes russos, ocidentais e ucranianos a fazerem cedências. A paz é a palavra mais subversiva na atualidade. Na Europa a extrema-direita cresce, como se viu nas recentes eleições europeias. Quanto maior for este sufoco belicista, mais crescerá.

Podemos estar a caminhar para uma guerra europeia. É preciso vencer o peso da inércia e levantarmo-nos do chão para inverter o atual sentido do conflito. O braseiro nuclear faz-nos tão humanos que acabam as diferenças sociais, ideológicas e religiosas. Saibamos ser racionais e inteligentes e defender a paz, a condição que nos permite continuar a nossa maravilhosa aventura de vida.

https://www.publico.pt/2024/06/11/opiniao/opiniao/homo-belicus-versus-maravilhosa-aventura-vida-2093664

As Buscas na Saúde – quem ia fugir? Tinha de ser antes do dia 9.

As buscas por causa das gêmeas aconteceram exatamente agora por mero acaso. Ninguém no MP sabe que vai haver eleições no próximo domingo. Ou então o MP sabe de algo do qual informarão o país com um parágrafo apenas e que impediria a recolha de provas. Tinha de ser agora. Como já fora naquele dia com António Costa no ano passado. Para onde vais Portugal? Quem te anestesiou? Abre os olhos!

Caramba, qual é a admiração face ao Nuno Melo normal?

Nuno Melo declarou hoje que qualquer pessoa normal compreende que os ucranianos possam bombardear o território russo com as armas entregues pelos países ocidentais.

 O Sr. Nuno é por enquanto Sua Excelência, o Ministro da Defesa de Portugal. Acreditem.

Vale a pena refletir sobre a normalidade porque o assunto é muito importante para todos nós. Falou o Sr. Ministro.

Em 1973 aquando das negociações para terminar a invasão do Vietnam perpetrada pelo nosso mui estimado aliado da NATO, os EUA, um representante deste país perguntou à representante da Frente de Libertação Nacional do Sul, a Sra Nguyen Thi Binh, o que davam em troca, se os EUA saíssem do Vietnam.

A resposta ficou marcada a letras de oiro para todo o sempre: Nunca nos passou pela cabeça bombardear os EUA e continuamos a pensar do mesmo modo.

A Rússia invadiu a Ucrânia. A NATO/U.E./EUA prometeram todo o apoio para rasgar os Acordos de Minsk II. Anunciaram o derrota estratégica da Rússia. Um coro que ia de Costa a Von der Leyen passando pelo inenarrável Boris Johnson que (não)tinha consciência que as suas festas nos jardins da Downing Street com dezenas de convidados violavam a lei que interditava qualquer ajuntamento devido ao COVID. Garantiram todo o apoio à Ucrânia as long as it takes … Nunca em momento algum falaram de algo diferente que não fosse a derrota estratégica da Rússia.  

A palavra negociações está proibida no léxico ocidental, menos para o Papa Francisco. Quem defender que o conflito deve ser resolvido por via negocial é pró russo, mesmo que não tenha a menor simpatia por Putin e o seu regime. Cotrim defendeu num debate para as eleições europeias que há que cortar no SNS, na Escola, nos transportes, nos serviços públicos e aumentar o orçamento militar para derrotar a Rússia, sem que ele e os que pensam como ele expliquem como se derrota uma potência nuclear.

Há muito que o regime ucraniano tinha sucumbido se não fosse o monumental apoio à Ucrânia, não sobrando sequer uma fisga para os palestinianos ocupados há mais de cinquenta e cinco anos em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste. Nem pedras. Nem alimentos para quem está a morrer de fome.

São tantas, tantas as sanções contra a Rússia que não sobrou uma única contra Israel, apenas os biliões de dólares em armamento de todo o Ocidente para Netanyahu. Cerca de quarenta mil mortos em Gaza não chegam para acordar a consciência ocidental. Já fora assim no Iraque com as centenas de milhar de mortos.

Desenhado a traços largos o quadro pergunta-se, pode o Ministro da Defesa de Portugal defender que as armas ocidentais, incluindo portuguesas, devam atacar a Rússia no seu território, pois tal declaração em caso de alargamento do conflito significará colocar Portugal na mira da potência nuclear? É normal Dr. Luís Montenegro? Está de acordo?

 Uma coisa é a Ucrânia defender o seu território com o que tem e o que venha a ter e não é pouco, outra é um país fornecer à Ucrânia armas para atacar territórios na Rússia.

A sra. Nguyen Thi Binh explicou aos representantes dos EUA o que o Sr Nuno nunca perceberá de tão preocupado andar com a incorporação nas FFAA de pequenos delinquentes.

As armas que a Frente de Libertação Nacional do Sul recebeu da URSS e de outros países nunca foram para atacar território dos EUA.

John Fritzgerald Kennedy nunca aceitou que Cuba tivesse instalado misseis da URSS, mas para Biden a Ucrânia, ainda mais perto da Rússia que Cuba dos EUA, pode entrar para a NATO. Tudo certo…Tudo normal. É a tal democracia liberal a funcionar as usually. Em nome desses “valores” os democratas ocidentais levaram a morte a milhões e milhões de vietnamitas, laocianos, cambojanos, iraquianos, argelinos, líbios… dentro da normalidade. Caramba, qual é a nossa admiração face ao normal Nuno Melo?

E SE UM RATO ROER UMA HÓSTIA, COMUNGOU?

André Ventura é um caso típico de um político de extrema-direita cujo programa é afrontar as instituições democráticas, tal como elas existem.

Para tanto, faz confundir as dificuldades da vida dos portugueses como sendo resultado das instituições de forma a miná-las, desprestigiá-las e, mais tarde, se conseguisse, abatê-las.

É um verbalista totalmente destemperado que vive mirando-se ao espelho para descobrir cada dia que passa o que há de dizer do modo mais chocante o que lhe vai na alma. Habituado ao lado mais primário do futebol chuta para o lado que estiver virado, que é sempre o mesmo.

O seu programa é primordialmente o insulto contra os mais desfavorecidos para abrir ainda mais o Reino das benesses aos todo poderosos. É um ilusionista. Tenta fazer crer que o mal de Portugal reside nas minorias desfavorecidas. Presta um grande serviço aos poderosos do dinheiro.

Graças a esta técnica enche a peitaça e desta vez atirou-se, imagine-se, aos turcos preguiçosos.

Acontece que a A.R. faz recordar a tomada de Constantinopla pelos turcos Seljúcidas em 29 de maio de 1453 pelo sultão otomano Maomé II. Discutiam, então, os bispos católicos, se um rato que tinha roído uma hóstia comungara. Assim continuaram até serem esmagados.

Por acaso, foi no mês de maio. Por acaso, como é bem sabido, os grandes problemas do país giram seguramente acerca da natureza empreendedora ou não dos turcos.  

Por acaso, o André é um grande rato. Distraiam-se e vão ver. Se por acaso.

À ESPERA DE QUEM E DE QUÊ?

O MNE português e o Presidente da República esclareceram que Portugal iria esperar para decidir quando reconheceria o Estado da Palestina. Segundo MRS iria ter em atenção outras tomadas de posição.

O artigo 7 nº1 da CRP estabelece os princípios que devem nortear as relações internacionais…Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade…

Ademais, a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU considera ilegal a ocupação da Faixa de Gaz, da Cisjordânia e de Jerusalém Leste.

Este é o quadro nacional e internacional que deve determinar a conduta dos órgãos de soberania da República portuguesa.

Não cabe, pois, a menor das dúvidas que Portugal tem o dever de reconhecer o Estado da Palestina, como forma de resolver o conflito no Médio-Oriente que resulta da ocupação ilegal daqueles territórios palestinianos e onde há de assentar o futuro Estado palestiniano. Dois povos, dois Estados. Simples.

Então de que está à espera Portugal? De quem? Da decisão dos EUA cuja Administração considera escandaloso o mandado de detenção de Netanyahu? Portugal é ou independentes na formulação da nossa política externa?

Se não é de quem, é de quê? Quanto menor apoio tiver o governo de Netanyahu maiores serão as probabilidades de parar os massacres, e de ser encontrada uma solução pacífica; sendo assim está à espera de quê?

Quando os EUA invadiram o Iraque o governo do PSD correu célere a descobrir o que não existia, as tais armas de destruição massiva. Agora que há todos os segundos uma ocupação e mortes a rodos, este governo espera o quê? A solução final para os palestinianos?

O quem e o quê envergonham Portugal. A Palestina será um dia um Estado independente e Portugal aparecerá do pior lado da História.

TPI

BIDEN E NETANYAHU

O Presidente Biden considerou escandalosa a decisão do Procurador-Geral do TPI de emitir um mandado de detenção de Benjamin Netanyahu. Acrescentou que os EUA se manteriam ao lado de Israel.

Na verdade, o líder do Ocidente alargado, com esta tomada de posição esclareceu o mundo que os EUA, em relação ao apoio total a Netanyahu, não depende de nenhum outro critério que vá para além da defesa dos interesses dos EUA, pondo de parte toda e qualquer pressuposto da defesa dos direitos humanos e da legalidade internacional.

Biden colocou-se escandalosamente ao lado do autor do político responsável pelo desencadeamento de uma guerra alegadamente contra o Hamas, mas realmente contra civis causando a morte de 36.000 palestinianos, um terço dos quais crianças, idosos e mulheres.

Compreende-se agora melhor a rebelião dos estudantes nos EUA e a feroz repressão contra esse movimento.  A posição da Administração até nos EUA causa indignação.

Biden tornou ainda mais clara a conceção da sua ordem internacional com regras, cujo articulado de princípio ao fim se resume à norma que estatui que a única regra é a seguinte: defesa, em qualquer circunstância, dos interesses dos EUA, fórmula idêntica à de uma linha que se pode torcer e retorcer de acordo com os interesses dos United States of America, the ocidental ruler.     

Gouveia e Melo e as portas trancadas sob o gelo da Gronelândia

O Senhor almirante resolveu falar ao DN e concedeu uma longa entrevista ao DN de 15 deste mês de maio.

Quem ler a entrevista chega ao fim (se chegar)e perguntar-se-á qual foi o motivo daquelas considerações. Como se o Senhor Almirante tivesse agora descoberto a extensão do mar português,  a disciplina, a ciência, a inteligência artificial, as portas na calote da Terra por onde passam os submarinos russos e finalmente as maldades da Federação russa no que concerne ao cinzentismo das águas marítimas.

Há claramente um problema no senhor almirante, a fixação nas suas tremendas capacidades que o levam a considerar que há mais de dez anos já tinha previsto o que outros cá e na NATO ainda não tinham previsto. O próprio Pentágono já o reconheceu. Mais nada.

Estamos a imaginar os nossos submarinos comprados pelo conhecidíssimo ministro, hoje comentador como quase todos os ex, a segurar as portas por baixo do gelo e os opositores coitadinhos à rasquinha sem poderem passar. Segundo o senhor almirante podem contar connosco para o impedir a sério.

Tudo operacional, tudo programado, inclusive para ir socorrer a Europa, pois a nossa pátria agora é a Europa, onde manda quem manda.

O que o senhor almirante se esqueceu foi esclarecer se estamos dependentes de quem manda na Europa ou de quem manda em Portugal, salvo se já deu de barato que quem cá manda, não são os governantes portugueses. E se os tais da NATO estão organizados para defender os interesses portugueses ou os da potência dominante, como não pode deixar de ser, ou seja, branco é, galinha o põe.

O mar de Portugal é do tamanho da Europa diz Gouveia e Melo. É preciso defender esta enorme riqueza. Sabe o senhor almirante quem o cobiça? Não estará dentro da NATO?

Gouveia e Melo falou de política e de geopolítica de um leque de questões atuais. Pelos vistos a Marinha está pronto para o que der e vier. Só que não tem gente, como bem refere. Mas tem um comandante que não brinca e foi ver as portas debaixo da Gronelândia por onde passarão os submarinos opositores se não forem trancadas pelos nossos. Sim senhor. Grande malha.  Nem o nosso querido Martim Moniz. Até pode ser que Gouveia e Melo pense exatamente como o que disse, pois não houve emendas.

Se perguntarem aos portugueses ninguém acredita nessa possibilidade. Esse é o problema. Ele precisa que acreditem nele, mas, ao que consta, não é por causa da Marinha.

O serviçal Rangel, MNE do PSD e o metediço MRS

São Tomé e Príncipe decidiu celebrar um protocolo militar com a Rússia, tal como outros países o fizeram ou fazem. É um assunto que diz respeito aos dois países, como é bom de ver.

A Rússia tem acordos desta natureza com outros países africanos e até hoje o governo português não se manifestou, como seria de esperar.

O PR também comentou o acordo e disse que o queria conhecer, ou seja, sem se interessar de saber se aqueles dois países o querem revelar.

Rangel, o europeu perplexo e apreensivo, serviçal exemplar dos poderes ocidentais, para “justificar” o seu estado de alma referiu a agressão da Rússia à Ucrânia.

E se é verdade que há uma invasão da Ucrânia pela Rússia, a ocupação dos territórios palestinianos e a mortandade de Gaza não lhe causa a menor perplexidade ou apreensão, nem a ocupação do Iraque a que seu partido está para todo o sempre ligado devido à monumental mentira com que Durão Barroso justificou a Cimeira dos Açores para dar luz verde à pérfida encenação.

Rangel podia até abominar o tal acordo da Rússia com São Tomé. É de admitir que ficasse maldisposto e com um ataque de nervos. Tudo normal.

O que não é normal é, por um lado, pedir esclarecimentos, como aquele país fosse uma autarquia portuguesa.

Por outro lado, o PR afirmar publicamente querer conhecer algo que diz apenas respeito aos dois países.

Ser de direita no exercício de um cargo institucional/governamental acontece por todo o mundo. Ser de direita, porém, não isenta o profissionalismo e o respeito pela soberania de outro Estado, pois a nenhum Presidente ou MNE lhe passa pela cabeça classificar publicamente acordos entre Estados e muito menos querer conhecê-los, sem que os Estados em causa os divulguem.

Rangel no palácio das Necessidades é vesgo. Vê o mundo como se estivesse na sede do PSD. Por muito perplexo e apreensivo que fique e por muito que bata com o pé no encerado da sua sala de trabalho, se lá estiver muito mais tempo, vai ter de se habituar a respeitar as relações entre Estados soberanos, o que lhe custa como se vê em Gaza, onde não revelou qualquer contacto com o governo de guerra de Netanyahu para pedir esclarecimentos acerca de 35.000 mortos em sete meses às mão do carniceiro de Telavive.

Marcelo já teve melhores dias. O que diz, conta pouco. Mas sobre África e as ex-colónias devia ser mais prudente, dado o seu passado, mas isso ele é incapaz.

Este governo e este PR não têm o menor sentido de Estado. Parecem principiantes perdidos na sua vã glória resultante dos cargos que ocupam. Há gente de direita com outro sentido de Estado. Fica registado o triste episódio de querer ser duro para com os fracos e serviçal para com os fortes. É triste.

AUSÊNCIA DE TRAÇOS RURAIS, SENDO ACENTUADOS OS SUPERFICIAIS

O título Influencer atribuído à operação que levou à queda do governo liderado por António Costa, até no domínio da psicologia, diz tudo. “Já então a raposa era o caçador”, como escreveu Herta Müller.

A operação desmoronou-se com o Acórdão prolatado pelo Tribunal da Relação de Lisboa. Não passou de uma coisa mal-amanhada que se abateu sobre duas das mais importantes instituições do país como um terramoto de grau máximo.

Ao invadir os domínios que invadiu, durante o tempo que entendeu, não descobriu nada de substancial e, apesar disso, a mais alta figura do Estado entendeu que aquelas não coisas envolviam Costa.

Prevaleceu o sentido mais oportunista da politiquice, criando as condições para mudar a agulha política à governação, alimentando na sociedade portuguesa, já de si descrente nos governantes e nos candidatos a governantes, mais descrédito de que a extrema-direita se aproveita, como se viu nos últimos resultados eleitorais.

Convém lembrar que uns tempos antes o homem confessou, a caminho de Viseu, conduzindo uma jornalista, que tinha um sonho e quando um homem sonha a obra aparece, não é? Tudo se liga.

Numa investigação um sinal não passa de um sinal, como bem sabe qualquer principiante. Bastou, porém, um sinal arrancado nos confins da imaginação para o MP achar virginalmente que “aquelas coisas” eram o que visivelmente não eram…

Com um sorriso entre o patético e o apanhado em flagrante, o homem que demitiu Costa disse que não comentava, mas comentou e concluiu que Portugal ia ter alguém no Conselho Europeu (algo hipotético, dependente dos resultados eleitorais) o que demonstra a sua propensão para as desculpas de má consciência e de dizer o que lhe sai por impulso primário.

A sua expressão facial era demonstrativa do incómodo de um homem à deriva e apanhado na ratoeira de um parágrafo que envergonhará os seu(s) autor(es) para todo o sempre.

Este é o homem que diz o que diz sobre si, o filho, a PGR, Costa, Montenegro e tudo o que tiver à mão como se o vértice do Estado servisse para se exibir superficial e mundano.

O homem que disse ter um sonho e já só tinha pesadelos, pois todos os dias tinha de adiar o tal sonho de ver a direita no governo, correu a tocar a campainha da Assembleia da República, fechando-a.

Em Portugal não há eleições para Primeiro-Ministro. Costa foi candidato à AR nas listas do PS. Foi o PS que teve uma maioria absoluta. Neste homem, que tocava à campainha de outro político, tudo não passa de uma conveniência.

O homem que comenta hora sim, hora sim, não queria ir da abalada sem o sonho concretizado. Expiando culpas, uma espécie de arrependimento judaico-cristão pela maldade praticada, apontou Costa para Bruxelas.

Já não é apenas a crónica incontinência verbal. Precisa de atear fogueiras para as apagar com novas achas. As classificações de caráter de Costa e Montenegro baseadas nas origens de cada um revela um “novo” traço da personalidade do homem. Até onde irá MRS ou já entramos num outro domínio?

Correndo o país a beijocar, alargando o raio de ação até às velhinhas ucranianas, o homem parece estar cada vez mais fechado em si, acompanhado de uma terrível solidão. No palácio onde continua a congeminar, a solidão persegui-lo-á. Por este andar só os disparates lhe farão companhia.

https://www.publico.pt/2024/05/07/opiniao/opiniao/ausencia-tracos-rurais-acentuados-superficiais-2089507?