GIVE A PEACE CHANCE, como cantava John Lennon

Há quase quatro anos que o Ocidente (EUA/NATO/UE) decretou que a Rússia teria de ser derrotada na Ucrânia, demorasse o tempo que demorasse o apoio a Zelenski.

Legiões de figuras de todo o tipo diariamente contavam maravilhas acerca das capacidades ocidentais e das miseráveis condições dos russos. Salvo meia dúzia de honrosas exceções todos afinavam pelo mesmo livro de pensamento único – a Rússia vai perder a guerra.

Há sentimentos na vida que cegam como o da arrogância que tomou conta desta tríade ocidental. Relembre-se o caso de Ursula von der Leyen que no seu destemperado ódio à Rússia chegou a afirmar que a Rússia, com as sanções, nem de frigoríficos iria dispor porque precisava dos chipes para armamento. Jornalistas houve que noticiaram que as espingardas da Rússia eram da 1ª Guerra Mundial e que os soldados nem ração tinham, e os cancros de Putin eram a rodos…

Houve até um Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Dr. João Cravinho, que anunciou que Putin se fosse de férias ao Algarve seria preso. Stoltenberg, o então Secretário-Geral da NATO, ficou famoso por anunciar que apoiaria a Ucrânia o tempo que fosse preciso. O novo, capacho de Trump, ainda andará a agradecer ao imperador de Largo-a-Mar na Florida o apoio à Ucrânia que se está a ver nos famosos 28 pontos.

Zelenski, o Churchil ucraniano, rodeado de corruptos por todos os lados, o homem que mais armamento pediu (percebe-se melhor agora o seu papel com tantos ministros fugidos) já manifestou a sua vontade de negociar com os EUA o tal plano de Anchorage entre UEA e Rússia.

Do lado europeu anda tudo com a cabeça à roda. Os principais dirigentes da UE entraram em choque com a realidade circundante, designadamente a Leste, e entre si.

A decisão política face à invasão da Rússia da Ucrânia de apresentar ao mundo a impossibilidade da Rússia vencer, contando para tanto com o apoio dos EUA, revelou uma vez mais a total insignificância de pensamento político-estratégico. Os EUA querem “largar” a Ucrânia porque estão bem dentro do conflito, são eles que que comandam a Ucrânia e perceberam que não têm como travar militarmente a Rússia. Aqui bate o ponto. Em vez de uma humilhante derrota tentam sair por cima, se for possível.

Deve ter-se presente o plano dos EUA já mil vezes divulgado a partir da Rand Corporation, think-tank do Pentágono, de fragmentar a Rússia a partir do conflito militar da Ucrânia, assim definido pelo conselheiro de Segurança da Ucrânia Oleksei Resnikov em 06/01/2023 no TSN Canal 1+1…A OTAN dá as armas e nós o sangue…

Creio que esta afirmação de uma personalidade como Reznikov diz tudo quanto à envolvência dos EUA e à ideia da derrota militar da Rússia. O Ocidente subvalorizou o poderio militar e económico da Rússia e a sua arrogância impediu-o de ver que o mundo mudou e o Sul Global, mesmo que ainda incipiente, é uma realidade, sem falar dos BRICS.

Por outro lado, o “nosso” aliado aplicou-nos um golpe de mestre ao cortar a ligação da UE com a Rússia designadamente a nível de energia, onde assentava o crescimento industrial da Alemanha. Os europeus, se quiserem, têm de comprar a energia aos EUA, muito mais cara, ficando na dependência de alguém cuja coerência é assinalável…

Com este eventual fiasco da UE devemos ter presente o que se está a passar na frente dos nossos olhos.

Os dirigentes da UE sem qualquer mandato para tal e contra a filosofia fundadora da UE cavalgam uma corrida armamentista que gela o sangue. A Alemanha quer avançar para a guerra com a Rússia, na França um chefe militar diz que os franceses têm de assumir a coragem de ir morrer contra a Rússia…mas, há sempre um mas.

A França olha para o rearmamento da Alemanha desconfiada e a Polónia estremece, enquanto na própria UE há quem não esteja pelos ajustes.

A corrida aos armamentos pode ser a tentativa do neoliberalismo reinante na UE de justificar o empobrecimento e a limitação dos valores democráticos fundadores. Ou seja, face à impossibilidade de sair das políticas recessivas onde mergulharam os países, tentam erguer uma cortina de fumo para esconder a política de empobrecimento que vem a caminho com a famigerada ideia de garantir fundos para a guerra, cortando na política social, cultural e ambiental da UE.

Claro que uma política dessa estirpe irá não só a nível interno criar enormes tensões, como a nível dos Estados membros choques entre vários países que não querem ser atrelados ao carro da pobreza, pois esta política provocará ainda maior desigualdade entre eles. A campanha da guerra visa esconder exatamente esta perfídia.

Tenha-se presente que um fulano como Durão Barroso, que devia responder num Tribunal Internacional pelos crimes de guerra contra a Humanidade resultante da monstruosa mentira de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, salta agora para os media proclamando que a Rússia vai invadir a Europa, bem sabendo que uma tal afirmação é uma mentira do tamanho de toda a Europa. O homem que perdeu toda a sua credibilidade como líder político, tenta agora na posição de neobanqueiro guindar-se no plano político, jogando com a perda de memória de um dos maiores crimes cometidos contra o direito internacional.

Os principais dirigentes da UE estão metidos num beco aparentemente sem saída. Estão unidos no empobrecimento dos povos, divididos quanto ao modo como fazer, dadas as contradições entre os Estados.

Como a UE é um conjunto de Estados com diferentes políticas de defesa é evidente que os grandes gostariam de unificar forças militares para serem eficazes, mas o problema real é: ao serviço de quem e de quê ?  

A política neoliberal é muito previsivelmente incapaz de conseguir tal desígnio porque ela funda-se na hierarquia do país mais forte que é a Alemanha, o que não é aceite nem pela França, Polónia e até Reino Unido, de fora da UE.

Resta levar à prática uma outra política de paz, desarmamento e cooperação. É preciso desarmar e não de armar. A mais firme e eficaz política de segurança europeia é partir para o desarmamento pan-europeu com a Rússia e os EUA. A Rússia faz parte da Europa e nunca irá sair do continente; os EUA não são europeus, mas pelo seu peso no mundo e face à NATO é benéfica a sua participação numa tal política.

Não há que ter medo – o desafio é desarmar e nunca armar. É preciso diminuir o armamento na Europa conjuntamente com a Rússia, criar um clima normal entre gente normal que quer viver dignamente onde que que viva no continente cuja História exige outra responsabilidade.

A Ucrânia não poderá ser uma ferida a sangrar no continente. Após o conflito é necessário abrir canais de cooperação para reestabelecer medidas de confiança entre os povos envolvidos no conflito. Talvez, porque não, uma Conferência Europeia para a Paz e a Cooperação entre todas as nações. Este é o caminho. Se a guerra terminar é preciso que nunca mais se reacenda, como aconteceu já também acontecera na Jugoslávia.

Creio com todas as forças, que quando os figurões do armamento pedem mais dinheiro para a indústria da morte, é preciso que os povos toquem os sinos a rebate para acordarem as consciências da paz. Em pleno século XXI só a paz é a nossa humanidade e a guerra a nossa bestialidade. A Europa não precisa de mais pilhas de cadáveres, antes necessita de conhecimento, sabedoria, cooperação e sempre as pombas da paz nas mãos dos nossos filhos e netos que da Rússia à Península ibérica, da Escandinávia aos Balcãs, para que se cumpra o sonho de dar uma chance à paz, como cantava John Lennon.

O mistério das vozes búlgaras, de minha mãe e de minha tia

Há uma voz, melhor, vozes. Femininas. Vozes de algodão em rama. Sem arestas. Uma que me adormecia, a de minha mãe.

Outra que me acordou.  Foi há muitos anos. Uma voz que vinha do tear que minha mãe tinha em casa e com ele fazia tapetes. Era a voz de minha tia. 

Eu não sabia explicar o bem-estar que sentia ao ouvi-las. Era como se fosse um afago. Eram vozes magorreiras. Vozes de um amparo. 

Como um sopro de ternura a pairar no ar. Às vezes encontrei vozes assim quando amava. E tudo não passava de um sonho de ternura ao rés da vida.

No mistério das vozes búlgaras voltei ao espanto das vozes que ouvia quando era menino e as mulheres cantavam em casa e nos campos. Raramente eram masculinas, as vozes de encantamento. 

As vozes búlgaras que ouvi na Gulbenkian deixaram-me dúvidas acerca de se nasceram de ouvirem os pássaros cantarem ou se deram origem aos pássaros que cantam.

Se eu fechar os olhos e entrar na mente escura oiço aquelas vozes e não sei se já as tinha ouvido ou se adormeci e pairo no céu que, se existisse, podia ser de vozes de mulheres búlgaras ou de minha mãe e de minha tia.

A voz é a última réstia do que fica do amor. 

É tudo uma questão de coco ou de cócó

A seleção de Roberto Martinez jogou em Dublin enredada num enorme nevoeiro estratégico.

Martinez, vá lá saber-se porquê, deixou que se alimentasse o foco de o multibilionário CR7 atingir mil golos e todos os media compraram a proeza acompanhada em doses industriais da beautiful life de Ronado/Gio e Cª.

Num país dominado por um serventuário basbaquismo e uma assumida incapacidade de crença coletiva é fácil transferir o rol de frustrações e desesperanças para o herói nascido em tosco casebre e que o mundo apresenta ao lado dos mais ricos ou poderosos, ultimamente ao lado do Príncipe herdeiro MBS, o que ordenou, em 2 de outubro de 2018, o assassinato e desaparecimento do jornalista do Washington Post, Jamal Khashoggi.

Até o “nosso” Costa se lembrou, numa ida aos EUA, de entregar ao imperador Trump uma camisola de CR7…assim vai a Lusitânia.

Voltando ao jogo de Dublin, logo se assinalou por tudo quanto era sítio que seria mais uma ocasião para a aproximação aos tais mil. CR7 falou e disse que seria perfeito se o alcançasse até ao fim do mundial.

Repare-se que não há nenhuma competição para ver quem atinge mil golos; sendo exclusivamente para o apuramento do Mundial. Nada mais, não sei se já repararam…

Provavelmente, o distraído Martinez tenha ficado a saber que a competição era para o Mundial quando CR7 foi expulso e de seguida de cima da sua arrogância se pôs a fazer caretas em vez de pedir desculpas ao irlandês.

A confirmação do desnorte e da falta de coco veio de Martinez na conferência de imprensa no final do jogo defendendo Ronaldo e atacando o defesa irlandês.

Ronaldo no dia anterior ao do jogo autoelogiou o seu coco e a sua adaptabilidade, apesar dos 40 anos. Insistiu na ideia de que o seu mérito era o de saber usar o coco. E foi mais longe, se estivesse na Liga inglesa já tinha marcado muito mais golos porque na Arábia Saudita é mais difícil. Talqualmente. Claro que ele, com o coco, tem marcado golos bonitos.  Sabe-se que nesta matéria é bom de tola. Mas para gabarolices também usa o coco.

O que se não sabia é que Martinez viria defender CR7 depois da falta de coco a perder por dois golos e responder aos defesas daquele modo. Afinal a falta de coco é de ambos, dois sem coco, juntinhos…

Há, no entanto, uma coisa boa no meio deste nevoeiro: no Dragão CR7 não jogará; pode ser que libertos da meta dos mil, a seleção marque golos e se apure. É esse o desafio. Mas só se tiver coco, porque para cócó já chega o de Dublin com C7R de soltura.

As facadas no bengalês Mohamed Shamim

A cidade para eles é como uma mina. Vestem de escuro e têm estreitos corredores entre carros e autocarros, apenas trânsito onde mergulham como mineiros.

 Chegam à superfície quando tocam à campainha para entregar a refeição. Não têm de falar, apenas to deliver

A sua vida é a sua bicicleta. É nela que trabalham a fazer o que ninguém quer fazer e fazem-no por meia dúzia de euros.

Shamim tinha outro emprego para além de serpentear nas ruas de Lisboa entre carros e, às vezes, palavrões, procurando a sorte por ter nascido num país que não é de sorte.

Há sessenta anos eram os portugueses a procurá-la onde quer que ela estivesse, mão-de-obra barata para construir prédios na região de Paris e em toda a França. Os nossos de então viviam em bidões…Os que agora chegam vivem às carradas em quartos ou casas clandestinas à espera da sorte e que não as derrubem.

Shamim não teve sorte. Alguém lhe quis roubar o sustento e ele agarrou a bicicleta para perseguir a sorte e entregar muitas refeições a quem as encomendava. Um homem esfaqueou-o até à morte. Morto, ficou oito horas à espera de que os serviços de emergência o viessem buscar.

Dizem as notícias que o assassino não logrou retirar-lhe a bicicleta. Nada mais dizem acerca do autor do crime. Dão conta que o bengalês que trabalhava como servente num restaurante e entregava refeições deixa a viúva e dois filhos pequenos.

Shamim, o bengalês que fazia em Portugal o que os portugueses não querem fazer, era um escravo dos novos tempos das democracias liberais.

Deixam-nos vir trabalhar para fazer o que ninguém que fazer. Mas depois soltam-lhes os cães amestrados                                                        (alguns no auge da carreira política à sua custa) para os mandar para a sua terra.

Ganham de duas maneiras, nos salários de miséria que pagam e na divisão entre os que estão um pouco acima do ponto de vista social e os novos desgraçados da Terra, vivendo quase como o proletariado do século XIX.

Shamim era um ser humano. E estes às vezes amam e são solidários. Outras vezes matam. Quanto mais rebaixarem todos os Shamim do mundo, mais serão assassinados. Quanto mais forem respeitados como seres humanos, menos serão assassinados.

A cidade quase nem deu pelas facadas. Ninguém sabe quem ele é. E, no entanto, os que aguardam a confeção da comida sem os Shamim não poderiam esperar pelas refeições.

Ele esperou oito longas horas noturnas à beira da rua para o virem buscar. Que triste sorte a de Mohamed Shamim.

Talvez quando todos sentirmos as facadas de Shamim a cidade se torne mais acolhedora e como escreveu Paulo de Tarso, mais conhecido entre os cristãos como São Paulo, na Epístola aos Galatos…Não há judeus, nem gregos, nem escravos, nem homens, nem mulheres; porque vós sois todos apenas um em Cristo…

Mohamed Shamim pelo nome seria crente de Alá. Era um homem. É essa humanidade que nos une. Que importa que seja muçulmano ou hinduísta ou o que quer que seja… Eu, sem fé nos deuses, e com pouca fé nos homens, confesso-me crente na bondade, na benevolência, na solidariedade, na amizade, no amor, na ajuda recíproca e na empatia. Essa é a estrada dos humanos. A outra é a das feras.

O cartaz do abandono

Olhei para este cartaz e dentro de mim senti um incómodo; não  pela mensagem que apoio.
Em Portugal há quase dois milhões  de pessoas pobres; alguns milhares abandonadas debaixo de aquedutos, outras nas entradas das portas, outras ainda vagueando sem direito a cama de papelão.
E, no entanto, não  há um único  cartaz a pedir que não  as abandonem. Um único.
Então  pensei no seguinte: não  abandonar um animal é um ato muito  individual; abandonar uma pessoa é abandonar a nossa humanidade; o nosso destino comunitário.
Se houvesse tal cartaz ele incomodar- nos- ia de modo muito diferente.
Um animal de guarda depende de quem o guarda e se o não guardar, os serviços camarários eventualmente o levarão.
E um homem ou uma mulher abandonados quem os leva? Ninguém.
Então aquilo que diz respeito a todos, à comunidade, o que incomoda, é para esconder.
Não é para ser lembrado porque se o fosse tínhamos que arregaçar  as mangas e encontrar soluções. 
Neste individualismo/ egoísmo o melhor é ninguém  lembrar os nossos deveres de humanos.
Um abandonado é uma pedra no nosso sapato da consciência.
Um cão é um cão.  Não  incomoda tanto.
O Papa Francisco incomodava- se e pelos vistos incomodava: agora foi apenas uma circunstância. Quem se lembra daquele sorriso?
Talvez alguém ou muitos alguém  devessem sair da comodidade e afixar cartazes com o rosto dos abandonados a clamar que os não  abandonem. É apenas um incómodo. 

Olhei para este cartaz e dentro de mim senti um incómodo; não  pela mensagem que apoio.Em Portugal há quase dois milhões  de pessoas pobres; alguns milhares abandonadas debaixo de aquedutos, outras nas entradas das portas, outras ainda vagueando sem direito a cama de papelão.E, no entanto, não  há um único  cartaz a pedir que não  as abandonem. Um único.Então  pensei no seguinte: não  abandonar um animal é um ato muito  individual; abandonar uma pessoa é abandonar a nossa humanidade; o nosso destino comunitário.Se houvesse tal cartaz ele incomodar- nos- ia de modo muito diferente.Um animal de guarda depende de quem o guarda e se o nao guardar, os serviços camarários eventualmenre o levarão.E um homem ou uma mulher abandonados quem os leva? Ninguém.Então aquilo que diz respeito a todos, à comunidade, o que incomoda, é para esconder.Não é para ser lembrado porque se o fosse tínhamos que arregaçar  as mangas e encontrar soluções. Neste individualismo/ egoismo o melhor é ninguém  lembrar os nossos deveres de humanos.Um abandonado é uma pedra no nosso sapato da consciência.Um cão é um cão.  Não  incomoda tanto.O Papa Francisco incomodava- se e pelos vistos incomodava: agora foi apenas uma circunstância. Quem se lembra daquele sorriso?Talvez alguém ou muitos alguém  devessem sair da comodidade e afixar cartazes com o rosto dos abandonados a clamar que os não  abandonem. É apenas um incómodo. 

O ADULTISMO, NOVA FORMA DE INFANTILISMO

Anda por aí uma nova doença. Ela está bem presente em certos partidos, na comunicação social e nas redes sociais. Falam-me amigos, que há muito conheço, que ela também aparece nas esplanadas e até nas esquinas onde, às vezes, ainda há quem pare para conversar.

Os sintomas desta nova doença consistem em passar para outros os problemas próprios e acrescentar a este viés outro, o de que aqueles problemas existem por causa de outrem.

Normalmente os psicólogos falam de que há certos adultos relativamente mais esclarecidos, ou supondo-se mais esclarecidos, que responsabilizam os outros pelos seus falhanços. Como não têm relva para justificar o falhanço do pontapé, nem árbitro, atiram-se a outros, responsabilizando-os.

Vladimir Ilich Ulianov, o tal da perinha e do boné à bolchevista, descobriu que havia dirigentes do movimento revolucionário que eram tão puros que descartavam alianças e compromissos com outras forças. Sofriam de infantilismo escreveu ele.

Pois bem, tendo em conta o movimento das coisas, e passados mais de cem anos, surgiu um novo infantilismo a que darei o nome de adultismo na medida em que os seus defensores se recusam a olhar para o que fizeram e atiram-se a outros que não fizeram o que eles queriam que fizessem, responsabilizando-o pelo seu próprio insucesso. Julgam-se mais adultos que os outros, incapazes de admitir que outra coisa não se pode fazer fora do quadro por si determinado.

Em Lisboa o PS, o BE, o Livre e o Pan decidiram propor para Lisboa uma coligação com Alexandra Leitão à cabeça. É um direito que lhes assiste. A coligação apareceu como irá desaparecer e correspondia a um projeto político de dar a Câmara ao PS que durante o consulado de Moedas ninguém o viu ou ouviu, talvez, viemos a saber pela voz de J.L. Carneiro por não ter chegado. Até ele concorda que não se sabe por onde andava, mas adiante.

Ora bem, a coligação teve menos votos que há quatro anos. Mas isso não interessa para o caso, o que conta foi o PCP seguir o seu caminho, concorrer e até aumentar o número de votos porque tinha um candidato bem preparado e capaz.

Vejam lá o despautério, até lhe ofereciam a Vice-Presidência…assim, talqualmente.

O PS por andar perdido nestes quatro anos, Carneiro dixit, achav\1a e pelos vistos muito gente, que o PCP devia encontrar o novo paradeiro do PS, conduzindo-o à Praça do Município, se possível com fanfarra. Entretanto, o mesmo PS aqui ao lado em Loures tinha como candidato uma nova versão do Tamerlão e em Santiago de Cacém não concorria porque o PS, mais o PSD, a IL e o CDS concorriam apertadinhos para varrer os comunistas do Município.

Ou seja, os adultos do PS, mais os dos seus aliados, mais os dos seus simpatizantes na comunicação social de cima do seu estatuto de adultos altamente conscientes e zeladores do combate à direita entenderam que o PCP, se fosse o que eles queriam que fosse, devia juntar-se a eles e garantir ao PS Lisboa.

Este texto visa o que visa e seguramente não visa desculpar, nem branquear o desnorte autárquico do PCP que a não ser corrigido levará (já está a levar) à sua insignificância autárquica.

Mas é preciso dizer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é este infantilismo de fazer passar um tique de superioridade de adultos encartados de esquerda para justificar o seu próprio falhanço. Jamais. Aguardemos o que vai fazer quem agora chegou.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O CESSAR-FOGO EM GAZA

Tudo o que parece, nem sempre é.

Para se compreender o acordo é necessário ter uma perspetiva do embate entre o Hamas e Israel e a envolvência regional e até internacional.

Os acontecimentos de 7 de outubro há dois anos impediram a celebração dos acordos de Abraão patrocinados pelos EUA, o que significava a oficialização de Israel como parceiro no mundo árabe, deixando cair a pressão de isolamento de Israel na região. E mostraram a força do Hamas.

Israel que alegou ter sido surpreendido (com os melhores serviços secretos do mundo) desencadeou uma ofensiva brutal para capturar os reféns, expulsar os habitantes de Gaza, liquidar o Hamas e o eixo da resistência à ocupação. Trump juntou-se a Natanyahu e projetou construir em Gaza uma instância balnear, uma Riviera trumpiana e Cª.

Para levar a cabo a sua política Netanyahu bombardeou durante dois anos uma faixa de terreno exígua com a sua poderosa aviação e arrasou Gaza. Pela fome tentou matar os palestinianos. O saldo são cerca de 67 00 mortos e centenas de milhar de feridos e malnutridos, ao rés do perigo de vida. Tem sido considerado por organismos da ONU um genocídio.  

Não conseguiu derrotar o Hamas, nem libertar um único refém.

Recorda-se que o Hamas foi criado em dezembro de 1987quando teve lugar a Intifada iniciada a 09/12/1987. Teve o apoio dos Irmão Muçulmanos e da então Conferência Popular arabo-islâmica com movimentos reconhecidos pela Organização Internacional dos Irmãos Muçulmanos, in “Com Alá ou com Satã”, páginas 145,6 de Domingos Lopes e Luís Sá, Editora Campo das Letra.

Quanto ao eixo da resistência, Israel tentou mudar o regime iraniano. Bateu num paredão e retirou, pois, os mísseis iranianos mostraram (mesmo sem imprensa, interdita pela democracia israelita) as fragilidades do escudo de aço. Em certos momentos parecia uma peneira. A correr pararam a guerra. Tanto quanto se sabe o programa nuclear prossegue.

As sucessivas invasões do Líbano atingiram duramente o Hezbollah, mas longe, bem longe de o aniquilar.

Em relação ao Iémen Israel assassinou vários dirigentes do topo da hierarquia, mas nunca conseguiu impedir que fosse atacado por mísseis.

Na opinião pública mundial, o isolamento de Israel nunca foi tão grande a ponto de aliados seus na Europa, sob a pressão das opiniões públicas, terem sido obrigados a reconhecer o Estado palestiniano, como forma de aliviar e esvaziar essa pressão que se tornava cada vez mais forte.

Deve referir-se que o apoio da UE a Israel atingiu tal significado que foi publicada legislação a reprimir o direito de manifestação de solidariedade, tentando utilizar certas manifestações radicalistas para as tentar fazer confundir com o imenso rio humano de apoio à causa palestiniana.

Acrescente-se que nos regimes árabes vizinhos nem uma manifestação teve lugar. O que diz bem da sua postura nesta guerra. Se estivessem com a Palestina, Israel não teria chegado onde chegou.

De facto, Israel e outros países árabes e muçulmanos conseguiram derrotar Assad e entregar a Síria a um islamista, ex-dirigente da Al Qaeda, que com os seus donos estão a esmagar outras comunidades sírias – druzos, aluitas, cristãos maronitas, curdos – e rendeu-se a Israel.

A Cimeira de Charm-el-Sheik visa retomar este interregno de dois anos e avançar para o estabelecimento de relações entre Israel e o mundo árabe sob o alto patrocínio dos EUA e pelos vistos dos líderes europeus… a vassalagem é para cumprir.

Na mente dos EUA o projeto visa enfraquecer as relações da Rússia e da China na região e fazer enfraquecer os BRIC na região dado que a Arábia Saudita e os Emiratos fazem parte, bem como o Irão.

A ir por diante significaria uma divisão de peso nos BRIC e um isolamento do Irão em termos regionais.

 O desafio para Trump é isolar o Irão e atingir deste modo a Rússia e a China.

Quem resistiu a este inferno de metralha e fogo provavelmente poderá resistir a novas provas. São precisas pausas em todas as lutas. A marcha para a independência da Palestina está em curso. Vai haver quem a queira impedir, muitos dos que estão em Charm-el-Sheik. Outros que lá não estão vão continuar a apoiar a causa palestiniana. Vai ser difícil.

A provação dos palestinianos está a ser muitíssimo dura. Se estivessem unidos tudo seria mais fácil, mas todo o mundo árabe e muçulmano tem lá os seus instrumentos a fim de poderem jogar a sua influência própria, mais do que pela independência. Não é só Israel que teme a Palestina. Uma Palestina laica, democrática é também temida pelos países árabes e muçulmanos. O povo palestiniano é dos mais instruídos e combativos, nunca esquecer. Com a solidariedade internacional acabará por vencer.

Tudo o que parece ser, nem sempre é.