Noruz na Gulbenkian
O concerto acabou, mas a música continua dentro de mim. V. Truba, pintor checo, pintou um quadro em que se vê a porta do concerto do concerto fechar, porém, notas de música saem através dela. Continuamos a sentir a música e, no caso do quadro, a imaginar como teria sido.
No concerto de ontem na Gulbenkian, nas Músicas do Mundo, para celebrar o Noruz, a primavera nos países do Cáucaso e outros da Ásia Ocidental, Azerbaijão, Afeganistão, Irão e Paquistão, a música foi de tal modo vibrante e melodiosa que dei comigo a pensar acerca de o que os humanos «inventaram» primeiro, se a música, se as palavras.
A razão de ser é que este agrupamento, nomeadamente a arte da rubab de Homayoun Sakhi, nascido em Cabul, fugido dos talibans que não deixam ouvir música, embala-nos de tal modo nas vibrações da rubab e da tabla de Siar Hashimi, que me ficou (talvez também durante o sono) a pergunta, será que os sentimentos humanos de alegria ou tristeza nasceram primeiro na música e só depois as palavras os lavraram numa reflexão posterior?
Explico a minha dúvida – ouvindo as melodias da rubab de Sakhi ou as suas arrancadas telúricas que me deixaram sem fôlego, como se a mão direita do músico fosse possuída por uma força magnética de alguma divindade que vivesse debaixo da terra, pois as divindades que habitam os céus não possuem tal ritmo.
É a música uma corrente imparável na aproximação dos humanos. É um rio que vem de longe e para longe vai. Um rio de sorrisos, dores, alegrias e ritmo. Onde todos somos iguais.
A Ásia Ocidental sofre a violência de uma civilização que já só tem armas para conquistar corações, o que nunca sucederá, mesmo quando temporariamente pode parecer que sucede.
A força da música de Sahhi e a voz sublime de Aqnazar Navo, cantor das montanhas de Badakhshan, continuam dentro de mim, talvez para sempre, mesmo quando já não nos lembramos do concerto. Como as notas do quadro do pintor.
A arte não dorme dentro de cada um. Está numa penumbra à espera da chegada de algo que sempre chega.
Esperemos, pois, a chegada de o que parece adormecido e acordará como nos diz este caminho de tantos séculos. A primavera que sempre chega também o confirma.