NÃO PARE. NEM ESCUTE. NEM VEJA. NEM PENSE.
Os dias que seguem atrás dos dias dão ao tempo uma dimensão ancorada nesta divisão entra noite e a luz. Por aqui andamos e vivemos, embora não seja a mesma coisa, mas não é esta diferença que me traz aqui.
Nas linhas férreas que atravessavam os caminhos/estradas havia um sinal/aviso – Atenção aos Comboios.
Agora na humana linha de vida dos humanos, os sinais não são para parar, nem para escutar, nem para ver.
Tudo roda numa atafona — gosto desta palavra, um bocado alentejana, onde é mais usada — e no meio de um caldeirão de ruídos. A pressa tomou conta da vida. Até de ligar a televisão para afastar o silêncio.
Dizem que a televisão é a companhia; a humana anda longínqua. A verdade é que pouco se fala. Tecla-se. Às vezes ergue-se a voz para se ser ouvido. Habitamos o ruído.
Há quem diga que o silêncio é insuportável. Talvez a maioria das pessoas fosse obrigada a pensar no meio do silêncio. O ruído não é propriamente um incentivo para pensar, tem um certo poder anestesiante.
Nalguns media impõe-se a espetacularidade ruidosa. Há nas primeiras páginas ruídos dos disparos dos homicídios, os gritos das gargantas cortadas e desgraças estrondosas.
Nas televisões o que interessa é a captação da atenção, muitas vezes, através do primarismo a roçar a boçalidade.
São servidos, de manhã o à noite como iguarias, estrídulos programas de entretenimento, alguns criando zombies a reagir a uma ordem dos domadores de emoções de gente que arrebanham.
Nas casas onde impera um azedume, quando se pensa no futuro chegam as imagens das calamidades dos incêndios, das inundações, das tempestades, das grávidas a darem à luz nas ambulâncias ou algures nas ruas tristes deste país, da espera mortal pelo INEM e dos velhos emprateleirados no que se designa por Lar, um insulto aos deuses Lares e Penates dos romanos que eram chamados a proteger as casas.
Os humanos tendem a viver de hábitos. O silêncio é sentido como um estado aflitivo. Compreende-se – quando o eu fica só com o sujeito que é o seu invólucro, o silêncio é perturbador pela simples razão de o fazer pensar e o meio envolvente já não está programado para se pensar.
Quem entra numa carruagem do metro ou de um comboio ou de um autocarro se ainda tiver olhos que olhem os humanos vê como todos têm as costas curvadas e os olhares fixos no quadradinho que os traz hipnotizados. Já ninguém repara nos outros. Falta-nos o poeta José Gomes Ferreira que, em pensamento, sentava, a seu lado, nos elétricos, as mulheres bonitas que ia admirando.
A política, de acordo com o meio ambiente, abandonou a pedagogia cívica da organização da discussão dos problemas complexos da vida em sociedade. O espaço para a riqueza do debate e da fecundidade dos contrários foi abandonado pela gritaria e também, a título de exemplo. substituído por umas senhoras e uns senhores cheios de certezas, alguns deles, como juízes de opinião sobre a prestação de debates eleitorais que antes de começarem já acabaram.
Nos locais de trabalho a fala está a ser substituída por mensagens. Talvez, neste tipo de vida, já não haja muito a falar. Os cérebros neoliberais esperam alcançar esse nirvana tecnológico – seres não falantes porque quem perder a fala perde grande parte da mente.
A própria política vive dos e nos media. Há semanas, a Luís Montenegro bastou-lhe o Correio da Manhã dar notícia do contrato dos oito canais desportivos da Sportv em São Bento para de supetão mandar cortar seis, mostrando o seu ar «poupadinho» tão a gosto do Estado “magrinho” e bem gordinho para os muito ricos.
O cerco ao pensamento está em boa marcha. Talvez mais do que nunca pensar seja ainda mais subversivo. Há algures, no céu, um sinal que conecta com este mundo apressado – Atenção aos que pensam. Não os olhe. Não os oiça. Não os veja. Olhe apenas para o redil.