QUEM ANDA A REBOQUE DE QUEM-ISRAEL OU EUA?

Nesta guerra entre os EUA/Israel e o Irão o que está em causa é a existência de Israel, enquanto entidade sionista, e não o Irão, país com mais de dois mil e setecentos anos e portador de uma civilização única e extraordinária que rivalizou com Atenas, Esparta e a Macedónia de Alexandre.

Israel foi artificialmente criado e, desde o início, se fundou na expropriação violenta dos palestinianos que foram escorraçados para os países vizinhos, designadamente Síria, Líbano e Jordânia.

Israel nunca aceitou as Resoluções do Conselho de Segurança da ONU que exigiam o fim da ocupação de Gaza, da Cisjordânia, Jerusalém Leste e dos Montes Golã anexados à Síria.

A superfície de Israel e a sua configuração são um problema para a ideologia sionista de alargar constantemente as fronteiras para absorver mais população de todas as partes do mundo e contribuir para assegurar o futuro. Têm consciência da sua limitação e daí todos os governos concentrarem os seus esforços na criação de uma poderosa máquina de guerra com base na da ideia de que estão rodeados de inimigos selvagens.

A configuração de Israel torna-o muito vulnerável aos ataques de mísseis balísticos do Irão e como se viu o «fantástico» sistema de defesa não é assim tão eficiente, o que coloca a Israel acrescidos problemas de segurança. E como precisa de alargar as fronteiras para diminuir estas fragilidades, a política de todos os sionistas é atacar o único país que neste momento o pode vulnenabilizar em profundidade e acabar com o mito da invencibilidade israelita, como já ficou evidenciado na guerra dos 12 dias.

O terrorismo de Estado de Israel é a política da sua natureza enquanto Estado usurpador de territórios de outros povos e países. Desde o início. A sua estirpe é intimidar, agredir e de cima da sua máquina de guerra arrasar o que puder. Para tanto, invoca o ser uma democracia liberal, como se a as democracias liberais não tivessem levado a guerra a todo o lado.

Israel viveu sempre em guerra com os seus vizinhos e para o conseguir teve o apoio dos EUA e do Ocidente.

Tudo porque o Ocidente depende dos combustíveis que se localizam naquela região. Israel é, pois, um posto avançado ocidental. E à medida que a Europa foi perdendo peso na região devido ao poderio estadunidense, os EUA colocaram-se com toda a força ao lado de Israel, mesmo tendo consciência que o faziam contra a tal ordem internacional com regras que por si definidas na construção da ordem mundial saída da 2ª guerra mundial.

E é aqui que bate o ponto. O imperialismo estadunidense já não consegue impor-se com base no direito internacional por si criado, na medida em que o seu poder económico e tecnológico está em declínio face à ascensão da China. A máscara liberal democrática cede lugar à máscara da força bruta envelopada em papel celofane com uns tantos Salmos tirados ao acaso para invocar em vão o nome de Deus. As equipas de Netanyahu e Trump estão unidas por essa visão apocalíptica.

Adiante, voltando à guerra, os EUA estão a tentar, por um lado, assegurar o domínio que têm na região com as suas dezenas de bases e milhares de militares e, por outro lado, bloquear o abastecimento de combustíveis à China, tentando-a conter no seu crescimento e desenvolvimento.

Ora, o poder militar de Israel é fundamental nesta estratégia dos EUA porque nenhum outro país na região tem esse poder.  Portanto, pode afirmar-se que os dois poderes se amparam um ao outro e por isso estão tão interligados.

Há, porém, importantes diferenças. Enquanto Israel atua para se afirmar a potência dominante no Médio-Oriente, os EUA têm outras ambições globais, o que pode acarretar contradições e divergências entre estes velhos amigos e aliados.

Na verdade, a base religiosa de apoio de Trump tem algo de comum com a visão messiânica de Israel e ambas se movem num universo de grande hostilidade primária ao islão, o que os faz perder de vista a amplitude civilizacional da velha Pérsia e de que o Irão é herdeiro.

Além disso, tal objetivo une os sionistas, mesmo em torno de uma figura tão desprestigiada como Netanyahu porque há a consciência que neste momento aquele é o único país que pode enfrentar realisticamente Israel.

Ademais, os interesses globais dos EUA movem-se num vasto mundo cada vez mais multipolar e que os EUA tentam travar para assegurar a sua hegemonia, o que significa em relação à região as consequências da guerra, designadamente o brutal aumento dos preços dos combustíveis ou a insegurança em todo o Golfo ou o seu relacionamento com a China , Rússia e até com a UE podem colocar problemas à potência hegemónica que se não colocam a Israel, dado o seu único interesse ser o de destruir o Irão independentemente de tudo o mais, o que não quer dizer que os EUA não o pretendam, mas estão enredados, como vimos, noutras situações .

Assim, o que para os EUA seriam objetivos realizáveis e desejáveis – mudança de regime ou estabelecimento de um outro regime mais conforme à vontade do novo Rei de Washington – pode no caso de não ser atingido devido aos elevadíssimos custos, ser diferentemente sentido por Israel que tem como objetivo principal arrasar o Irão de modo que tão cedo não se erga dessa desgraça.

Com efeito, os EUA e Israel tinham à partida condições militares para desferir golpes muito duros no regime, o que fizeram. Porém, não tendo sido eficazes o suficiente quanto à Fúria Épica, por desvalorização do Irão, ao manter-se o regime, passada que está uma semana e com as consequências mundiais do conflito, parece que os EUA ou partem com botas para o terreno ou a sua ação não só não derrubou até agora o regime como em boa medida o veio legitimar na luta pela defesa do país ameaçado existencialmente, o que nunca os ignorante dos EUA e de Israel são capazes de entender dada a cegueira que lhes causa a desmedida ambição e o poderio militar.

Bem podem atacar o Irão, destruir grande parte do que querem destruir, mas podem vir a perder a guerra por não alcançarem qualquer dos objetivos e terem contribuído para a «legitimação» do regime dos aiatolas. Ou seja, ganharam superioridade em quase todas as operações, mas foram incapazes de derrotar o inimigo porque o preço que pagariam para obter a vitória seria incomportável à luz dos critérios dominantes nos EUA e no Ocidente.

Portanto, concluindo, arrastaram-se um ao outro sob o comando do imperialismo dominante. Mas a potência hegemónica é os EUA. Israel depende dos EUA, este não depende daquele apesar dos desmiolados que acreditam que a segunda Jerusalém irromperá nos EUA.

Deixe um comentário