Trump e Netanyahu, ao atacarem conjuntamente o Irão, talvez tenham selado uma irmandade quanto ao seu destino para além da guerra.
Ambos estão a braços com problemas internos poderosos e Trump terá em breve eleições intercalares.
A reconfiguração do Médio-Oriente para os EUA e para Israel no sentido de tornar Israel a potência dominante na região acabando com o problema palestiniano, ocupando ad eternum os territórios palestinianos, sem de momento haver quem ousasse enfrentar Netanyahu e Cª. Nesse cenário idílico Trump e Netanyahu percorreriam triunfantes a nova Riviera em solo palestiniano, frente ao Mediterrâneo.
Por outro lado, retirariam à China o grande fornecedor de hidrocarbonetos depois do sucesso da operação Maduro que atingiu o fornecimento do petróleo venezuelano a Pequim.
A China representa para os EUA o competidor a abater na disputa entre um mundo multipolar e a manutenção da atual hegemonia dos EUA.
O ataque ao Irão abriria sempre a possibilidade de ataques iranianos aos países que abrigam tropas estadunidenses; todos o sabiam.
Este facto vai de momento enfraquecer os BRICS na medida em que países da mesma organização se encontram em campos militares opostos nesta guerra.
Tendo em conta a superfície do Irão, as suas Forças Armadas, a sua riqueza, o desencadeamento da guerra encerra riscos múltiplos que dirigentes militares estadunidenses fizeram ver a Trump.
O sucesso parcial do ataque de Israel contra o Irão, o ano passado, assassinando centenas de dirigentes iranianos talvez tenha feito perder a lucidez aos dois estadistas e ao círculo de seus conselheiros.
É de admitir que receassem um rearmamento do Irão com base no fornecimento da mais fina tecnologia chinesa e russa e daí terem lançado o ataque.
Uma vez mais com esta conduta os EUA substituíram as velhas potências europeias (a UE) por Israel. Com a anulação do Acordo desenhado pela UE, Rússia e EUA por parte de Trump no seu primeiro mandato, a UE deixou de contar e passou na região a ser um apoiante de o que Israel e os EUA executam.
Von der Leyen e Costa chegam à suprema hipocrisia de apelar ao respeito pelo direito internacional, precisamente quando aqueles dois países violam da forma mais grosseira um país soberano.
A posição do governo português em ceder a base das Lages como e para o que Trump quiser é um atestado de subserviência que cobrirá Portugal de vergonha durante muito tempo. E justificar a agressão, concluindo pela condenação do ataque às bases militares do país agressor do Irão é próprio de um país que perdeu a voz e fala pela do dono.
Além disso, falar da possibilidade do Irão vir a ter armas nucleares quando Israel o país mais condenado na ONU, mesmo neste direito internacional com regras, não passa de uma tentativa de justificar o injustificável.
Quanto menos países tiverem armas nucleares, melhor será o mundo e, por isso, foi elaborado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares que Israel não assinou e os EUA na prática abandonaram. Nesta matéria o único país que utilizou as armas nucleares tem capital em Washington.
Todos os países que por sua decisão soberana saírem da órbita dos EUA foram ameaçados, agredidos ou invadidos. Deve ser a razão que leva alguns a ter armas nucleares. Não querem ser invadidos. Que o diga Muhamar Kadafi que acreditou na história da carochinha ocidental e foi assassinado da forma mais cruel e covarde.
Daquilo que se vê, ou seja, claramente ao alcance dos olhos, é um contra-ataque brutal do Irão em toda a região do Médio-Oriente.
É cedo para tirar conclusões, mas os cálculos de dois dirigentes fechados na sua bolha e nos seus problemas com a justiça podem ter levado ao desencadeamento de uma guerra com consequências imprevisíveis. Talvez os dois líderes percam a arrogância que os caracterizam. Duvidamos que aprendam porque não é de sua natureza.