Quatro anos de guerra – Recapitulemos

O golpe de Estado da Praça Maidan na Ucrânia que levou ao derrube de um governo eleito com base no sufrágio universal significou a tentativa de alargar a NATO para a fronteira ocidental da Rússia.

Está escrito no Think-tank Rand Corporation do Pentágono o plano «Extending Russia Competing from Advantageous Ground» para “descolonizar a Rússia”.

A perseguição à minoria russa no Donbass e a proibição da língua russa fizeram parte da rota.

Os EUA/NATO/UE ao tomarem a decisão de integração da Ucrânia na NATO sabiam que desencadeariam a guerra com a Rússia ou a sua capitulação.  A Rússia, face à mais que previsível decisão do triunvirato, preparou-se para a guerra. A Ucrânia, imaginando a derrota russa alimentou a cobiça com base na partilha que se seguiria e no suposto papel que viria a ter na Europa.

Estas frases, uma de Olenskiy Danilov, então Secretário de Segurança e Defesa da Ucrânia…« o Ocidente deve preparar-para descolonizar a Rússia que vai desaparecer com as atuais fronteiras; outra de Oleksei Reznikov Ministro da Defesa…«a NATO dá as armas, nós o sangue…» fazem toda a luz sobre o papel assumido da Ucrânia na futura guerra.

A invasão da Ucrânia pela Rússia nunca visou conquistar o país, mas sim obter a garantia que não entraria na NATO.

Era o tempo de os dirigentes ocidentais em uníssono garantirem que a Ucrânia tinha todo o direito a integrar a NATO, mas já não tinha a Venezuela a fazer acordos militares com outros países latino-americanos e a Rússia.

Era o tempo em que os europeus, incluindo os portugueses, e os estadunidenses garantiam a pés juntos que com a Rússia nunca haveria negociações, apenas derrota estratégica porque o apoio à Ucrânia duraria o tempo que fosse preciso.

Nestes quatro anos quem mudou? Quem clama todos os dias por negociações? Quem impediu o Acordo de Istambul? Quem se lembra de Boris Johnson e de Olof Scholz? Quem se vai lembrar de Starmer, Macron, Merz e Cª? Que fizeram à Europa? O que nos disseram e garantiram acerca da vitória sobre a Rússia? Quem diariamente nos quer fazer esquecer que esta política deu origem a uma recessão na Alemanha e continuou a aprofundar a crise económica da França, Reino Unido, Itália e outros devido ao boicote suicida aos combustíveis russos quatro ou cinco vezes mais baratos que os dos EUA de que passamos a depender?

Que pequenez tomou conta das principais capitais europeias que ainda não compreenderam que a enorme Rússia até aos Urais é parte da Europa, o que por exemplo não acontece com Israel que fica no Médio-Oriente…A cegueira é tão grande que por serem compinchas dos sionistas israelitas pensam que podem mudar a geografia como Trump tentou com o Golfo do México.

A UE padece da insolente arrogância de apoiar o genocídio dos palestinianos e conviverem na UEFA, na FIFA e no Festival Europeu da Canção com Israel, geograficamente no Médio-Oriente, o país com mais condenações na ONU por ocupar ilegalmente a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste.

O pseudo imperador de Washington a quem estes dirigentes prestam vassalagem em toda a linha seja no sequestro ilegal de Maduro, seja no Conselho da Paz de Gaza sem palestinianos (os habitantes do território) para atacar a ONU, seja nas ameaças militares ao Irão por poder vir a ter armas nucleares quando o Estado do mundo mais fora da lei as tem, trata-os abaixo de capachos a pontos de um tal Mark Rutte, seu ordenança, abanar a cauda chamando-lhe paizinho…

Independentemente do destino do fecho da guerra não é possível deixar de ter em conta o rolo compressor de defesa da guerra à espera que Trump seja substituído nos EUA por algum Biden mais novo e acreditar que os interesses daquela potência passariam a estarem alinhados com a UE e para tanto recorrem aos recursos financeiros destinados a possibilitarem uma vida decente aos cidadãos da UE e canalizam-nos para a Ucrânia à espera do tal Dom Sebastião que nunca chegará pela simples razão de que a UE se tornou irrelevante para os EUA por se ter transformado num entreposto daquele país a quem compram armas para manter o complexo militar estadunidense e continuar a matança de europeus, mesmo quando na UE se queixam de Trump por não apoiar a Ucrânia.

 Sem o apoio militar dos EUA a Ucrânia não aguentaria um mês, mas von Der Leyen, Costa, Kallas e Cª precisam deste discurso para se aguentarem no comando de uma instituição corroída também devido aos que mandam e aos que não acham graça obedecerem por enquanto…

A guerra nunca devia ter começado. A sua continuação enfraquece a Europa e fortalece os EUA que ganham em todos os azimutes. Agora descobriram que os dirigentes da UE aceitam o que lhes ditar seja onde for, talvez até na Gronelândia.

Alguns dirigentes europeus da UE foram terça-feira a Kiev e o que se viu foi Zelenski com cara de poucos amigos a proclamar a continuação da guerra por mais três anos, e o dueto Costa – Ursula a fazer de conta que são o que não são pela simples razão de que ambos não têm qualquer exército às suas ordens, pois as Forças Armadas dos países da UE dependem dos governos nacionais, o que não querem interiorizar para darem ares de terem poderes que não têm. A Alemanha apesar de Ursula e Merz ainda não dá ordens aos exércitos nacionais.

Os que garantiram a derrota estratégica da Rússia, recusando toda a negociação, rejeitando os três pontos principais apresentados pela Rússia:  não entrada na NATO, reconhecimento da Crimeia como russa, a língua russa como segunda língua do país, exortam agora os russos a negociar, como se desde abril de 2022 até 2026 os russos não tivessem conquistado quase todo o Donbass.

O ponto é este e bate aqui: ou conseguem derrotar a Rússia e saem vitoriosos ou o que agora não aceitam será, na hipótese de derrota, muito mais pesada para a parte ucraniana. É simples.  Ou a Rússia não aguenta o esforço de guerra e perde ou aguente ganha em toda a linha.

Ou ainda outra hipótese, o de este conflito dá origem a uma guerra mundial. Então é inexoravelmente a Europa a maior derrotada, pois não tem defesa para fugir ao braseiro nuclear dada a sua concentração populacional.

Os países como a Rússia, os EUA, a China, o Irão ou até o Canadá poderão pela sua extensão aguentar choques brutais, mas apesar das baixas terríveis aguentar. Na Europa a sua concentração populacional levará ao desaparecimento por muito tempo em condições de vida aceitáveis.

Como é possível neste quadro continuar a ladainha da guerra? Dizem que se a Rússia não for derrotada, irá invadir a Europa… mas se em quatro anos apenas conquistou vinte por cento da Ucrânia, quantos anos serão precisos para conquistar a Europa…

As ambições czaristas da Rússia não são aceitáveis em nenhumas circunstâncias, mas de certeza que os EUA nunca iriam permitir que no México houvesse forças armadas russas. Nem sequer aceitaram mísseis em Cuba, quanto mais tropas russas…

Portanto, em vez de esperar por um desfecho de mais três que agravará para ambos os lados a situação de cada um, vale a pena negociar com cedências de parte a parte e com garantias de que a Europa sairá mais segura e cooperante. Se foi possível com regimes opostos (capitalistas e socialistas alegadamente), agora com o capitalismo dominante em todo o continente por que motivo não o é? Talvez o mal esteja no pecado mortal do regime.

O regime conservador e autoritário russo tem no povo russo o agente da mudança, tal como o regime absolutista/medieval saudita tem também no seu povo o artífice da mudança, embora para o Ocidente os regimes subservientes podem ser o mais retrógrados possível, desde que sejam exatamente subservientes estão perdoados e nalguns casos apoiados.

Há uma narrativa disruptiva que não se encaixa na realidade, mas dá para as elites europeias prosseguirem a sua política de empobrecimento das populações e de corrida às armas. Como tudo, até um dia. Aquilo que não aceitaram em Istambul podem vir ter de engolir com cedências muito mais graves. Ou vangloriar-se da derrota da Rússia. Ou a derrota de toda a Humanidade. Como dizia ontem na CNN o major general Agostinho Costa para já é Kiev que está às escuras.

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