A primeira volta da eleição presidencial evidenciou algumas características dominantes na vida política nacional.
A primeira é a crise profunda das instituições do regime. Se num exercício de memória nos quisermos lembrar de temas discutidos e que fossem próprios das funções do PR é quase certo que ninguém se lembrará de nenhum.
As discussões foram sobre a espuma mediática que ora corria da Ucrânia para a Gronelândia, ora do SNS para a imigração, ora da habitação para o pacote laboral para cumprir com os mandamentos eleitorais.
Para ainda adocicar mais esta vertente Mendes era o experiente; Gouveia e Melo o Portugal; Cotrim uma espécie de gentleman de garras neoliberais; Ventura o agitador que não concorre a PR; Seguro pouco disse, mas fez um desenho para os eleitores não porem os ovos no mesmo saco do PSD; António Filipe à espera de Godot; Catarina Martins a dar vida ao BE; Jorge Silva quando se apercebeu do erro já era tarde.
Montenegro congeminou que os portugueses estavam mais propensos a aceitar o desígnio triste da AD do que a ter vontade de respirar melhores ares. Enganou-se. Marques Mendes que, nesta visão estava já ungido da função, face ao espalhanço do Sr. Almirante, fica com a “experiência” de não bastar andar anos e anos a debater com a ressonância da caixa de correio da SIC.
Os debates não saíram das televisões. Nas ruas e nos locais de trabalho pouco se discutiu. Os cidadãos desaprenderam a discutir. Refugiam-se nas suas in(certezas) e fogem da disputa. A República vive solitariamente.
Quer a esquerda, quer a direita, desvalorizaram a eleição, pensando erradamente que não haveria muito a fazer e só faltava saber aguardar os resultados para Montenegro ter em Belém um camarada ou aparentado.
A direita mais para ali ou mais para acolá fragmentou-se e só Ventura segurou uma boa parte do seu eleitorado, mas com perdas importantes.
A derrota de Montenegro foi tremenda. A sua intervenção na noite eleitoral foi a de um dirigente sem rumo, aparecendo equidistante entre Seguro e Ventura, o que correspondeu a outro novo erro de avaliação se, entretanto, não mudar o rumo.
Gouveia e Melo e os seus conselheiros esqueceram-se que um bom diretor de recursos, mesmo fardado de Almirante, não basta para ser PR.
A figura cavalheiresca de Cotrim, todo cheio de juventude, apesar da idade, mesmo com o descalabro do PSD, ficou-se pelos 16% que é um bom resultado, mas perdeu uma grande oportunidade …
No lado do PS, Seguro tinha a aura de indeciso e titubeante, teve a coragem de avançar e colher os frutos dessa coragem por se posicionar numa postura centrista. Talvez a lógica de reequilibrar os poderes tenha dado ao socialista mais mole a vitória.
No lado das esquerdas do PS a situação começa a ser verdadeiramente dramática, pois nestas eleições valem umas décimas a mais de 4%…um resultado catastrófico.
António Filipe, sendo o único que revelou conhecimento das funções presidenciais, foi o primeiro a declarar ser candidato, e tal levou a que o PCP visse nessa atitude justificação para o tornar o candidato destas áreas, o que se revelou uma ideia sem sustento, contribuindo para impossibilitar uma candidatura abrangente destes espaços.
A candidatura do BE não trouxe, em termos de apoio, nada de novo ao próprio partido e ganhou a António Filipe umas décimas a mais de votos.
A prova de vida dos dois partidos não os tirou dos cuidados intermédios com prognósticos reservados.
O candidato do Livre não se livrou de um enorme susto e levou o partido a um resultado jamais imaginado nas melhores cabeças do partido.
A crise que afasta os cidadãos da política agrava-se com a crise dos partidos que têm na generosidade uma das suas linhas principais de ação. Sem esquerdas fortes, o país avançará pelo rumo do empobrecimento, como se vê por todo o lado.
A luta pela sobrevivência de cada um só muitíssimo remotamente interessa ao chamado povo de esquerda. Ou ampliam o campo de ação unitária e de renovação, abandonando a obstinada política de afirmação sectária que atinge o paradoxo dos paradoxos — quanto mais reduzida é a sua influência, mais se fecham sobre si mesmos — ou novos sujeitos nesta área virão a terreiro.
Entretanto a crise vai continuar, imagine-se o que seria com Ventura em Belém, com três Salazares. UF… do que precisamos de nos livrar.