AS DEMOCRACIAS LIBERAIS E A(S) GUERRA(S)

Na Antiguidade, em Atenas, houve largos períodos de vida democrática entre os cidadãos, isto é, os ricos. Os metecos, as mulheres, os escravos e eupátridas estavam excluídos da participação da vida social.

A democrática aristocracia governante passava a vida em guerras a rapinar os povos vizinhos ou longínquos para aumentar a sua força e riqueza.

Sintetizando, desde então, até ao advento do liberalismo as guerras dominaram o panorama mundial.

A democracia liberal não veio espalhar a paz na Europa e no mundo. As burguesias europeias emergentes da revolução liberal, muitas vezes, entraram em guerras entre si e para subjugar os povos das colónias.

Quando no Ocidente se pretende fazer passar a ideia de que a ordem liberal se funda na difusão de valores e da paz, estamos diante de uma enorme manipulação da História.

O exemplo dos mais paradigmáticos desta manipulação grosseira é a dos Estados Unidos da América que se fundaram com imigrantes europeus forçados ou fugitivos (alguns condenados, outros perseguidos) que liquidaram praticamente os povos autóctones.

A classe dirigente dos EUA é de origem europeia. Dominou o país à custa de uma espécie de genocídio dos nativos dos territórios que hoje integram os EUA. E ainda da guerra de anexação de grande parte do México.

Os EUA invadiram o Vietname, o Laos e o Camboja. São mais de 5 milhões de mortos e o início da guerra química com o agente laranja lançado pelo exército estadunidense nas florestas tropicais daqueles países com todos os horrores subsequentes na Natureza e nas populações. Deve acrescentar-se ainda os bombardeamentos atómicos da Hiroshima e Nagasaki no Japão. As intervenções estadunidenses ultrapassam as três dezenas, nomeadamente são trinta e cinco até este dia.

 Foi a democracia francesa com o General De Gaulle como Presidente que tentou manter a Argélia como colónia francesa e durante oito anos (1954 a 1962) anos a guerra colonial na Argélia causou cerca de um milhão de mortos argelinos e vinte e sete mil e quinhentos soldados franceses.

A não menos democrática Inglaterra tentou sufocar a luta libertadora dos povos da Índia, Birmânia, Afeganistão, Chipre, Quénia e Tanzânia com a guerra e o cortejo de horrores e mortos.

Em geral as democracias da NATO não se incomodaram muito com as guerras coloniais portuguesas na Guiné-Bissau, em Moçambique e em Angola.

O Ocidente tentou e tenta ainda passar a ideia de que o colonialismo foi um bem para os povos do Sul e que as guerras que desencadeou foram para os civilizar e até para lhes dar um Deus que se não o aceitassem acabavam nas fogueiras da Inquisição.

Os regimes liberais deram seguimento, nas relações internacionais, ao velho princípio de impor regras a partir das posições dos mais fortes. As burguesias triunfantes do século XIX não abriram no plano mundial uma nova era de paz e de cooperação, antes substituíram no comando das nações as velhas aristocracias imperiais, mantendo o domínio dos povos.  

Em 2003, a invasão do Iraque pelos EUA com o apoio da NATO e particularmente de Tony Blair, de Aznar e de Durão Barroso demonstra à saciedade a manipulação de que as democracias fazem guerras limpas e justas.

A narrativa ocidental continuou a mesma linha manipuladora e rapace não hesitando com base num monumental embuste provocar por via da guerra a morte de cerca de meio milhão de iraquianos e lançar todo o Médio-Oriente num caos do qual não saiu até hoje, tendo-se agravado com o apoio ao Estado mais fora da lei do mundo e ao seu dirigente com laivos de carniceiro, Netanyahu.

Ao apontar o dedo ao imperialismo ocidental, não deixamos de ter presente a doutrina da URSS que considerava que na sua área de influência se fosse preciso para defender o “socialismo” mandavam os tanques, espezinhando de modo cruel o ideal libertador dos povos que deveria ser o apanágio do socialismo.

É preciso pensar e não encarneirar. Pensar é ver as coisas como elas são na realidade. Na verdade, basta olhar como o Ocidente encara a guerra resultante da invasão da Ucrânia com a guerra de ocupação de Gaza para se compreender a terrível duplicidade de critérios.

A Europa enfrenta o perigo de uma guerra no seu território e tal sucede porque na UE a política de submissão aos EUA (independentemente de quem administra) é de tal ordem que a torna cega, descurando que este confronto com a Rússia, se levado até às últimas consequências, se travará em solo europeu num braseiro nuclear em que os sobreviventes provavelmente invejarão a sorte dos mortos. Do outro lado do Atlântico, os EUA seguirão bem longe a loucura europeia, esfregando as mãos por se desfazer dos europeus míopes.

Os valores que os povos, os países e as nações prezam – paz e cooperação não encontram eco na milionária burocracia europeia. Ali campeia a defesa dos privilégios. Os seus valores estão na defesa dos valores da alta finança.

O liberalismo trouxe muito de positivo face ao feudalismo, mas no seu bojo já trazia a exploração dos povos. A sua audácia revolucionária claudicou para não perder os privilégios da nova classe emergente, a burguesia. Os valores são os mercantis, aliás por todo o lugar do planeta se erguem altares ao novo Deus, o mercado, o bem supremo do liberalismo agora com a roupagem de neoliberalismo. O resto é treta.

Deixe um comentário