Há uma voz, melhor, vozes. Femininas. Vozes de algodão em rama. Sem arestas. Uma que me adormecia, a de minha mãe.
Outra que me acordou. Foi há muitos anos. Uma voz que vinha do tear que minha mãe tinha em casa e com ele fazia tapetes. Era a voz de minha tia.
Eu não sabia explicar o bem-estar que sentia ao ouvi-las. Era como se fosse um afago. Eram vozes magorreiras. Vozes de um amparo.
Como um sopro de ternura a pairar no ar. Às vezes encontrei vozes assim quando amava. E tudo não passava de um sonho de ternura ao rés da vida.
No mistério das vozes búlgaras voltei ao espanto das vozes que ouvia quando era menino e as mulheres cantavam em casa e nos campos. Raramente eram masculinas, as vozes de encantamento.
As vozes búlgaras que ouvi na Gulbenkian deixaram-me dúvidas acerca de se nasceram de ouvirem os pássaros cantarem ou se deram origem aos pássaros que cantam.
Se eu fechar os olhos e entrar na mente escura oiço aquelas vozes e não sei se já as tinha ouvido ou se adormeci e pairo no céu que, se existisse, podia ser de vozes de mulheres búlgaras ou de minha mãe e de minha tia.
A voz é a última réstia do que fica do amor.

Grande poeta. É a primeira vez que tomo conhecimento das vozes búlgaras e do seu encantamento. Abraços do Rui Ramos. Um dia destes dou-te uma apitadela para irmos almoçar.
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Felizardo por te ter sido dado tanto amor enquanto criança
Fica para sempre
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