O supremo prazer das coisas simples

Quando acordei chovia. Passou a chuva. O céu abriu um pouco. Resolvi ir à horta sem as botas de borracha por causa da preguiça de tirar as calçadas e enfiar as de borracha.

Na horta está aquilo que os editores apelidam de obra, ou seja, a criação. A minha esperança estava nas ervilhas tortas e nos grelos de couve naba. Semeara as ervilhas lá longe, em novembro, plantara as couves em dezembro.

A obra estava quase acabada e regalei-me de volta das ervilhas a tirar-lhe a literatura toda que os tutores haviam protegido do maligno vento espanhol. Por debaixo dos pés das ervilhas as vagens escondidas e as mais longilíneas. Prestando homenagem ao avô do meu Pedro irei fritá-las em banha e um nico de azeite com rodelas de salpicão e fatias de pão de milho.

Os pés ficaram tão encharcadas quanto o meu nariz de ar puro da manhã. Com os pés assim, o destino marcou o rumo – apanhar espargos que esta longa chuva os fez saltar da terra onde se escondiam. Tudo se passou num silêncio gótico e vegetal. Os pés ao cheirarem as rodelas de salpicão secaram. Tão simples.

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