O centenário de nascimento de Mário Soares (MS) vem ocupando grande espaço mediático repleto de grandes encómios.
Na verdade, MS teve um trajeto que fez dele uma das maiores figuras do século XX. O seu posicionamento antifascista durante a ditadura granjeou-lhe uma posição de grande respeito entre os democratas portugueses.
A personagem permite puxar o lustro e estes dias sucedem-se elogios infindáveis. Até lhe chamam o pai da democracia, como se o regime democrático não tivesse sido obra coletiva dos democratas e do povo portugueses.
MS fundou na Alemanha em 1973 o PS cujo programa era claramente anticapitalista, tendo aderido à Internacional Socialista (IS). O PS apresentou-se como um partido claramente de esquerda. É também para esse lado que o foco tem de se virar porque a política tem a sua coerência, ou melhor, deveria ter.
MS, no fim dos anos sessenta, quis jogar com aquilo que na altura certos liberais portugueses chamavam a primavera marcelista. Marcelo Caetano acenou com algumas migalhas para tentar dar alento ao regime moribundo. Até mudou o nome à PIDE, mas ninguém foi na conversa. Nessa altura o regime repetia as eleições totalmente viciadas e os democratas portugueses através da CDE (Comissão Democrática Eleitoral englobando toda a oposição) denunciavam a fraude. MS em Lisboa e num ou outro distrito separou-se da CDE e criou a CEUD para ver se tinha ganhos por tentar uma certa proximidade à tal primavera que se revelou um inverno dos mais rigorosos. A cartada de MS não teve êxito. Em 1973 recuou e a CDE apresentou-se como única frente eleitoral que se recusou a ir a votos, tal era a fraude.
No período da revolução MS dirigiu o PS para o centro e para a direita, o que levou a um sangramento de muitos socialistas que não se reviram na sua política. Encabeçou a luta contra o PCP e a esquerda militar, justificando tal posição e alianças desde Spínola a Carlucci com a defesa da liberdade contra o alegado totalitarismo para onde resvalaria a revolução.
Enquanto primeiro-ministro depois das primeiras eleições legislativas levou para o governo o CDS e mais tarde criou o bloco central com o PPD, hoje PSD. Os seus governos foram um desastre. Congelou o socialismo do programa do PS e descongelou as portas dos donos disto tudo.
Desprezando a defesa do interesse nacional, quando Angola se declarou independente em 11 de novembro de 1975, MS à frente do governo, foi dos últimos governos a reconhecer a independência daquele país, muito depois de países como o Brasil e a Espanha.
Portador de uma ambição desmedida, sublevou-se contra o candidato do Partido Socialista a Presidente da República, um homem impoluto e seu amigo de décadas, Salgado Zenha. Dirão hoje e já o disseram ontem que só ele estava em condições de derrotar Freitas do Amaral. Trata-se de puras suposições impossíveis de demonstração.
Mais tarde, aquando das eleições presidenciais em que o candidato do PS era Manuel Alegre, seu amigo do coração, e tendo a direita Cavaco como candidato, MS de novo se rebelou contra o PS e o seu amigo, quando era necessário tudo fazer para levar Alegre à 2ª volta. Deu uma ajuda preciosa para colocar na Presidência uma personagem da estirpe de Cavaco que veio a recusar a indigitação de António Costa como primeiro-ministro.
Resolveu concorrer como cabeça de lista ao Parlamento Europeu, depois de tantas trapalhadas, na vã expectativa de poder vir a assumir algum cargo na UE que lhe continuasse a dar o destaque com que queria viver politicamente. Um verdadeiro desastre.
É curioso que um dos seus gestos mais nobres e valiosos foi seguramente a sua frontal oposição à invasão do Iraque, a qual raramente é referida nas exaltações de MS. Percebe-se, muitos dos que hoje o elogiam sentir-se-iam muito mal se o referissem. É que embarcaram e defenderam o monumental embuste da existência de armas de destruição massiva no Iraque e causaram a morte de meio milhão de iraquianos.
Os dirigentes do arco governativo encostam-se à figura de MS, invocando o seu europeísmo num momento em que a UE segue a rota dos EUA, sem dar sinais do mínimo de visão estratégica para a guerra na Ucrânia. Aceitam acefalamente as imposições dos euroburocratas ao serviço do neoliberalismo, com a impetuosa von der Leyen como cabeça de cartaz. Dá-lhes jeito a figura de Mário Soares. Vale a pena notar que tudo se passa entre as gentes do arco governativo. O que vem do europeísmo de Bruxelas são medidas de austeridade em contraste com a loucura dos lucros do setor financeiro. Nas ruas não há entusiasmo. Que diria MS à crise das democracias europeias?
Mais um excelente artigo com todos os elementos necessários para a compreensão da complexa figura que nalguns casos se podia afirmar serem de bajulação aos poderosos e de “traição ao povo. Um grande abraço do Rui R. que te deseja um bom ano de 2025 e muita e força na canets
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M.S. desempenhou um grande papel entre aspas com o seu Ministro Barreto e respectivo Secret. de Estado na destruição da Reforma Agrária. Foi um padrinho dos latifundários a quem deu muito terra, dinheiro, etc. Quase foi preciso ir buscar mais terra a Espanha para fartar a gula por terra dessa classe medieval parasitária..
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..muita terra, muita terra…aos latifundiários…
A terça, 31/12/2024, 05:23, Luciano Caetano da Rosa ljcdrpt@gmail.com escreveu:
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