Circula como verdade suprema a ideia nascida e desenvolvida no Ocidente de que as democracias são contra as guerras, as quais, por sua vez, são apanágio dos regimes autocráticos.
É necessário desfazer este enorme embuste que não resiste à menor investigação. Na verdade, regimes democráticos liberais desencadearam guerras brutais para defender os seus interesses de potências coloniais ou neocoloniais.
Na Indochina a França colonial deixou as horrendas marcas da guerra colonial contra o Vietname entre 1946 e 1954 com 500.000 vítimas.
Com De Gaule como Presidente da República travou uma guerra para manter a Argélia como colónia francesa (entre 1954 e 1962), sem a qual não sobreviveria, segundo o governo francês. O balanço da guerra foram 300.000 argelinos e 27.500 franceses mortos.
Quantos milhares de mortos causou a democrática Inglaterra na India, Birmânia, Quénia, Rodésia, Chipre para impedir a independência destes países?
No século XX os EUA quantas guerras de invasão levaram a cabo com milhões de mortos, designadamente no Vietname? E a invasão do Iraque com cerca de 500.000 mortos?
Israel, com eleições de quatro em quatro anos, ocupa militarmente contra Resoluções do Conselho de Segurança da ONU territórios da Palestina, os Monte Golan da Síria, prossegue a ferro e fogo a expulsão dos palestinianos das suas propriedades e tem seis mil presos políticos nas prisões.
A democracia israelita permite aos seus militares assassinarem a sangue-frio mais de três mil crianças, indefesas, desde 7 de outubro na Faixa de Gaza.
A toda a hora as televisões fazem passar este horror e do que mais será preciso Israel fazer ainda para que no interior de cada um de nós, na nossa humanidade, nos faça dar a mão às vítimas desta barbárie?
Os ataques cruéis do Hamas contra civis que nada tinham e têm a ver com a ocupação israelita merecem igualmente a frontal condenação. A luta de resistência contra o ocupante não pode ser cega e não justifica ações terroristas contra inocentes.
Mas (há um mas) a raiz de todos os males reside na ocupação de território. O direito internacional é, a cada segundo, violado por Israel cuja segurança a que tem direito não pode assentar na total insegurança dos palestinianos e dos países vizinhos.
As proclamações de vingança por parte dos dirigentes israelitas transportam-nos ao mundo da linguagem própria da Antiguidade. Entre as proclamações dos fanáticos islamistas e as dos fanáticos sionistas onde está a diferença? A exortação da morte e da violência gratuitas faz os fundamentalismos dos dois lados aproximarem-se e darem a mão contra o humanismo e o respeito por todos os seres humanos e contra a existência de dois Estados, Israel e Palestina, tal como decorre do direito internacional. Talvez este fanatismo explique o assassinato de Isac Rabin às mãos de um judeu fanático.
Como se pode apresentar ao mundo um povo cercado a céu aberto a sofrer bombardeamentos brutais como sendo uma punição coletiva como um direito de defesa coimo fez Biden, Von Leyen, Scolz, Macron, Sunak e outros? Como?
Como pode o Ocidente achar que Israel pode fazer o que está a fazer, confundindo esta barbárie como sendo o Bem contra o Mal?
Netanyahu, o homem que quer escolher os juízes para o julgar e absolver dos crimes de corrupção, aponta a solução para o problema palestiniano que Hitler apontou para os judeus, o extermínio. O ódio aos palestinianos está-lhe impresso em todos os gestos.
Israel pode reduzir Gaza a escombros se deixarem. Quantas mais mortes inocentes Israel provocar para espezinhar a vontade palestiniana de ter o seu Estado independente nos territórios ocupados, maior será o seu próprio sofrimento futuro. Pode parecer ao mundo ocidental que ter bombas nucleares e exércitos poderosos é suficiente para seguir dominando, mas não é.
As democracias liberais derrotadas nas guerras coloniais foram derrotadas em momentos bem mais difíceis para os povos da Indochina e de África.
As barbaridades dos ataques a Gaza farão acordar os adormecidos e os anestesiados. Os seres humanos ainda não estão dominados por forças ou mecanismos que lhe retirem a sua humanidade e os sentimentos de justiça e de equidade.
É inaceitável que em nome de uma guerra de ocupação se entenda a passadeira da democracia para os militaristas a atravessarem como se fossem inocentes. As democracias têm nas suas entranhas crimes violentos, como algumas delas apoiarem o regime brutal do apartheid que manteve Mandela mais de vinte anos preso.
A referência à qualidade do regime não é por si suficiente para o isentar de julgamento e eventual condenação em muitas guerras levadas a cabo por países onde tinham lugar eleições, basta ter em atenção que de um lado e outro das barricadas na primeira guerra mundial estavam países onde havia eleições.
O facto de em Israel terem lugar eleições não apaga de modo nenhum a ocupação que leva a cabo nos territórios palestinianos ocupados depois da guerra de 1967.
Os povos colonizados que lutavam pelos seus direitos nacionais, segundo esta peregrina ideia, nunca poderiam resistir à ocupação porque do outro lado estava um país onde se realizavam eleições. Este absurdo jaz algures no caixote do lixo da História, malgrado os defensores do colonialismo de Israel o ressuscitem. E, em seu nome, ressuscitem proibições das liberdades essenciais como a de cada se poder manifestar de acordo com os seus valores e consciência. É preciso que a coragem dos corajosos volte a fazer valer a força da razão contra a linguagem da violência e da morte, pois a paz é o caminho de toda a esperança.