Pandemia- Por um tempo novo

 

Já não nos bastavam os mortos queridos que carregamos. Agora a todos os minutos pesam-nos os mortos que em todo o mundo sucumbem à Covid-19.

De repente, o mundo do glamour de jovens apolíneos e cheios de saúde dá lugar a outro mundo esquizofrénico de desassossego constante acerca das mortes nos lares, nas casas de saúde e nos hospitais.

A globalização do individualismo narcísico está a dar o passo ao espetáculo da morte dos infetados.

O que ficava escondido nos reposteiros das camas dos lares e hospitais até ao derradeiro telefonema escancara-se agora ad nauseam.

Num ápice em vez do altar do individualismo cheio de brilho e de estrelas cintilantes, sempre renovadas porque o show must go on, surge um mundo em que os indivíduos para se salvarem têm de defender a comunidade e a própria Humanidade.

O mundo dos epicuristas exacerbados dá lugar ao dos estoicos.

Agora já não valem muitos os likes. É a vez de dar valor aos epidemiologistas, virologistas, matemáticos, médicos, físicos, cientistas, enfermeiros, os que sabem devido ao seu esforço. Os tais heróis que amanhã, se não aprendermos, voltarão à sua categoria de meros “empregados”, quiçá alguns precários.

De repente, eis o que o tempo, desde que não se sabe quando até aos seus confins, nos mostra a fragilidade de que são feitos os humanos.

Afinal não somos Deuses; mas apenas uma maquinaria tão bem afinada que, apesar disso, espera-nos inexoravelmente a finitude. Talvez, por essa razão, dizem os que pensam e sabem.

Eis, nestas semanas de chumbo, o valor do esforço dos que arregaçaram as mangas, enquanto as Bolsas de Valores oscilam, mostrando a sua verdadeira face. Uma crise é sempre uma oportunidade para quem souber jogar. O mal é para os não podem ir a jogo…

Os charlatães continuam a discorrer sobre tudo o que a sua ignorância não os envergonha. Em verdade esta não é a sua hora, mesmo que se chamem Bolsonaro ou Trump. O ridículo cobriu-os com o vestuário adequado aos personagens que são.

Já alguém tinha escrito com toda a verdade – não se pode enganar toda a gente todo o tempo.

Este é um tempo que nos obriga a pensar, tal como o fazem os prisioneiros, ou os confinados em defesa de todos. Um outro tempo sem ser a fazer de conta, uma espécie de carneiros ou Marias que vão umas com ou outras ou Maneis.

Dizendo-se, a nossa Europa católica/cristã, a esmagadora maioria está-se borrifando para o exemplo do judeu da Nazaré que aos 33 anos foi martirizado na cruz para salvação do mundo, segundo os que acreditam ou fazem de conta.

Todos estes mortos que nos batem às janelas da alma impõem que reflitamos sobre a nossa condição humana, devendo ser mais íntegros, mais solidários e que ultrapassemos o império do dinheiro, das desigualdades e da hipocrisia.

Há caminhos por fazer. Um tempo novo, com a consciência que no íntimo de cada um pouco se mudou desde Tales de Mileto, Einstein até aos nossos dias. Bom seria que se reflita mais sobre a nossa essência e se projete um tempo novo.

https://www.publico.pt/2020/03/29/sociedade/opiniao/pandemia-mortos-tempo-novo-1909972

 

 

 

A PANDEMIA, O ESTADO E A GARGANTA SEM VOZ DOS NEOLIBERAIS

 

É natural que aos ideólogos do neoliberalismo lhes falte a voz nesta altura em que o SNS constitui a defesa dos portugueses face à pandemia.

Os médicos e restantes trabalhadores da saúde do SNS são a primeira linha do combate o vírus assassino; não porque não haja nos que trabalham no setor privado gente solidária e competente, mas porque é o Estado o único capaz de o fazer. O setor privado não compareceu. Ou compareceu para ganhar mais uns “tostões” com os testes.

Não se trata de qualquer obsessão pelo Estado, mas é evidente que a sua centralidade num Estado de Direito democrático e Social se revela decisiva.

Portugal neste tempo de pandemia depende do SNS. Afirmá-lo em voz alta é tão natural como oxigénio que se respira.

Quem faz melhor quando o desafio tem esta envergadura? Que fez o sistema de saúde privado?

O SNS abandonado para salvar os bancos da ganância não é nenhuma maravilha, nem sequer adequado à missão, mas nesta luta titânica é ele que nos está a salvar.

Ao afirmá-lo não se quer dizer, ao contrário do que por aí se escreve, que os liberais não querem Estado. Querem, querem, ai se querem… A questão é – para quê? E a resposta é simples – para que do alto da sua maquinaria administrativa, securitária e militar assegure que o essencial da estrutura das sociedades dominadas pelo neoliberalismo se mantenha, isto é, que assegure que a riqueza produzida seja distribuída de modo a que o setor financeiro se locuplete à fartazana, que os multibilionários engordem à custa dos baixos salários ou dos despedimentos selvagens. Sem Estado os liberais não conseguiam esta “façanha”.

Sem o Estado a proteger a saúde dos cidadãos seria a corrida às armas, como acontece nos EUA. Nesta conceção de modo de viver os homens são os lobos (sem desprimor para esta espécie) do próprio homem. Veja-se o tipo de Estado e de sociedade com Trump ao comando. O importante é ter armas para se defenderem dos seus compatriotas, não é a saúde pública; cada um que trate de si e para tal armas na mão.

É o Estado através das suas funções na Saúde, Ensino, Segurança Social, Administração Interna quem pode deitar a mão aos portugueses, mesmo quando há tantas insuficiências e falhas. Essa é que é essa.

Não são gritos, nem gritinhos como alguém escreveu; são clamores de evidência de quem é capaz de tratar da saúde das portuguesas e dos portugueses.

Em 2008 pagamos a crise provocada pela gula do sistema financeira que recuperou à custa do empobrecimento geral e depois se instalou também na Saúde para fazer grandes negócios.

Apesar do empobrecimento que impôs o desinvestimento no SNS os ideólogos de direita engolem em seco, não gritam porque já muitos mais cidadãos estão a ver que o rei vai nu. Calam-se a ver se passa a pandemia e de novo se atirarem à Saúde à procura do lucro e quiçá capturando o Estado fazer do SNS um lugar impróprio e, em paralelo, fazerem reluzir a Saúde nos privados em belas parcerias pagas pelos impostos dos contribuintes.

Claro que os privados têm todo direito de terem negócios na saúde, mas que façam à custa exclusiva das suas capacidades e competências. Querem que o Estado que dizem abominar lhes assegure lucros fabulosos e limpos. Sem riscos. A crise pandémica tornou esta evidência mais clara. Por isso ficaram sem voz. Não gritam por parcerias para tratar os doentes Covid-19. Assobiam. E acenam com uns tantos ventiladores. E pouco mais. De todos os modos o que vier, se vier, fará falta. Que venha.

https://www.publico.pt/2020/03/24/sociedade/opiniao/pandemia-estado-garganta-voz-neoliberais-1909176

Não despedir. Apelos urgentes

O tempo que vivemos é de exceção e de emergência. Ninguém sozinho, nenhuma família, nenhuma empresa, nenhuma organização está por si só em condições de responder aos desafios com que se depara.

A resposta tem de vir da ação solidária de todos os cidadãos e de todas as organizações. As medidas que agora se adotam têm de responder às premências e prioridades de hoje e salvaguardarem condições para se reconstruir a normalidade.

Hoje preocupamo-nos em primeiro lugar com a proteção reforçada dos mais velhos, com a proteção na doença a todos, com o abastecimento de bens e serviços indispensáveis, com o melhor funcionamento possível da economia. Entretanto a pandemia está a gerar mudanças múltiplas, outros tipos de “vírus” e novas fragilidades que nos poderão tolher o futuro se, agora, não adotarmos precauções.

Temos a obrigação de tudo fazer para que a crise pandémica não se transforme numa crise social sem precedente. Urge combater o “vírus” da permissividade perante o despedimento, da complacência com o desemprego e as precariedades, da tolerância face ao não pagamento dos salários e à perda de rendimento dos trabalhadores “independentes”. A generalidade das empresas não se aguenta entregue às regras do mercado. Será uma violência contra quem trabalha e contra o desenvolvimento da sociedade, o trabalho e o emprego ficarem entregues às regras vigentes do “mercado de trabalho” e a decisões discricionárias de empregadores.

São acertadas as medidas que procuram evitar uma escalada de falências. Os milhares de milhões de euros em linhas de crédito às empresas de alguns setores, em benefícios fiscais e em garantias diversas é significativo mas, por certo, vão ter de ser feitos esforços financeiros ainda maiores: o país deve recorrer a tudo o que for possível para manter as empresas vivas ao longo da quarentena, por forma a que estas consigam regressar à atividade com pujança, quando os impactos da Covid-19 o permitirem. Mas os apoios públicos – dinheiro de todos – não devem ser concedidos sem a contrapartida de salvaguarda dos postos de trabalho.

A situação que a maioria dos empresários portugueses experimenta é, sem dúvida, extraordinariamente difícil e complexa. Muitos deles, se assumirem a solidariedade que a situação impõe, poderão ter de recorrer a ganhos amealhados ou até ao seu património. Contudo, há que pensar que grande parte dos que perdem o emprego ficam despidos em absoluto de rendimentos e até de dignidade. E a recuperação das empresas e do normal funcionamento da sociedade vai precisar de trabalhadores saudáveis e motivados. É imperioso um apelo a todos os empregadores, desde os grandes grupos económicos até aos empregadores domésticos: resistam à tentação de despedir aqueles de que momentaneamente não precisam.

O Governo tem de adotar os mesmos compromissos na Administração Pública, de garantir uma proteção social a todos e de dar mais atenção a debilidades existentes nas relações de trabalho. O crédito não pode substituir a proteção social. E as medidas adotadas na proteção social jamais substituem a responsabilidade de pagamento de salários e de salvaguarda do emprego.

Investigador e professor universitário

Esperança em tempos de chumbo

Por entre as cidades, vilas e aldeias paira sobre as nossas cabeças um ar pesado de chumbo.

Das nossas janelas, às vezes, vemos os nossos vizinhos por detrás dos vidros. E nem sempre acenamos.

No rosto a angústia dos primeiros passos de um caminho a desbravar a catanadas de ansiedade. Somos frágeis, muito frágeis. Mas não é menos verdade que essa fragilidade não nos impede de poder ser portadores de sentimentos humanistas que nos diferenciam de todas as outras espécies.

Não seguimos o instinto; nós descobrimos instrumentos que nos permitem intervir e até mudar a natureza que também é cruel. Que se iludam os que a imaginam boazinha. É o que é – linda, astuta, fantástica, brutal, traiçoeira.

Temos a possibilidade de agir sobre a própria natureza das coisas, até inventamos as casas que hoje nos defendem. Não são grutas naturais, são obras de arquitetura ou de engenharia humana. Descobrimos os vírus e isso é muitíssimo mais que um instinto. É conhecimento.

Não somos só predadores. Somo animais sociáveis. Precisamos dos outros. A nossa sensibilidade e inteligência aproximam-nos mais uns dos outros, sobretudo em tempos de chumbo.

Temos o dever de contribuir para que os nossos comportamentos elevem a nossa humanidade a um patamar que nos diferencie de todas as outras espécies.

Não precisamos de xerifes pejados de armas para imporem o poder e a lei do mais forte. Do que se trata é de defender a vida da e na comunidade, sem pistoleiros, com amor e solidariedade.

Correr a comprar armas é uma outra doença provocada por outro vírus – o da brutalidade e o da desagregação social. O homem de negócios que ocupa a Casa Branca não tem estrutura humana para decifrar o humanismo e os melhores sentimentos humanos. Pobre criatura. Viveu sempre a ofender.

O vírus não distingue ninguém. Não é chinês, nem italiano. É um perigo para todos. Só dando as mãos dos cientistas e trabalhadores da saúde aliado a comportamentos responsáveis nos vai permitir seguir em frente.

A vacina será para todos e não para o negociante de Washington porque dela todos dependemos. Não é a América great again que ele quer, o que ele quer é o big Money always.

Por entre as cidades, vilas e aldeias apesar dos tempos de chumbo há lugar para a Esperança. Sem armas e o Leviatan para que o tirano nos diga o que podemos fazer. Precisamos de convocar todo o humanismo que é o melhor que tem a Humanidade.

Na Itália afundada em dor há que vá à varanda e cante. Aplaudem os vizinhos que escutam em tempos de chumbo. Esse canto e essa solidariedade é a nossa melhor arma.

Somos frágeis, mas somos igualmente fortes. Nós sabemos o que é este vírus e ele não sabe quem somos. É cego. E se dermos as mãos vamos vencer exatamente porque não somos cegos, mas lúcidos, solidários e humanos humanistas.

https://www.publico.pt/2020/03/20/opiniao/opiniao/esperanca-morra-tempos-1908572

 

 

 

 

A incompreensão do líder do CDS face ao corona vírus

 

Segundo a Wikipedia a compreensão é uma das habilidades do domínio cognitivo que solicitam a interpretação de um contexto, isto é, a capacidade para se alcançar um dado significado.

Ora esta habilidade em geral está ao alcance de qualquer mortal tendo em vista que o objeto da compreensão em apreço são os comportamentos de risco face ao Covid-19.

Porém, Francisco Rodrigues dos Santos admitiu ter algumas dificuldades em seguir os conselhos da Senhora Ministra da Saúde”…“Confesso que, se calhar, como muitos portugueses, estamos com alguma dificuldade em perceber que comportamentos [de risco] são. Tem havido um défice de comunicação, atabalhoada e altamente deficiente que impede que grande maioria dos portugueses percebam quais são os comportamentos avisados e responsáveis e previdentes que devem adoptar nesta fase…”in Público online de 04/04/2020.

Voltando ao núcleo da incompreensão do líder do CDS ele não o enunciou e não o fazendo talvez aí comece a sua própria dificuldade. Ele apenas arenga a tal dificuldade sem a especificar. Será que ele percebeu a mensagem transmitida e tendo percebido não é capaz de agir em conformidade ou não compreendeu devido ao “desenho” estar mal feito?

Devia Marta Temido ter-se socorrido de uma quadro negro e de um giz branco para que o Sr. Dr. Francisco compreendesse e não pensasse que os portugueses não perceberam?

Quando se é capaz de enunciar a dificuldade/incompreensão estar-se-á mais próximo de alcançar a compreensão.

Ora se o líder do CDS não enuncia a dificuldade há deveras um problema…só que já não tem a ver com Marta Temido, mas provavelmente com ele.

Um líder de um partido que nas eleições legislativas queria alcançar o cargo de Primeiro-Ministro tem o dever de conhecer quais são os riscos que existem de poder ser atingido pelo coronavírus, mesmo que a Senhora Ministra não tivesse explicado bem.

Como chegou o líder do CDS à compreensão que António Costa teve de explicar aos portugueses o que Marta Temido não soube ou não foi capaz? Ou é mais um palpite para agradar e ganhar outro estatuto junto do PSD?

Será ainda de admitir que afinal ele acha que Marta Temido não tem grande simpatia pelas Parcerias Público/Privadas e quis sacar um coelho da cartola armando-se em chicão esperto?

Estará ele com falta de compreensão por não ter sido Marcelo, verde de raiva, por não ser ele a chegar primeiro ao quarto de pressão negativa onde está o infetado?

Será que as explicações de Marcelo sobre o Covid-19 são mais percetíveis, dada a formação médica do PR?

Na opinião de Francisco Santos deve o Presidente da República de cima dos seus poderes de rainha inglesa  ir a correr visitar e dar beijos e beijinhos cheiinhos de afetos aos suspeitos e aos infetados pelo coronavírus, é isso o que o preocupa? Dito de outro modo – acha o Dr. Francisco que há falta de coordenação entre Marcelo e Costa para saber quem deve ter o microfone em primeiro lugar?

Há, no entanto, algo que de imediato se compreende – a arte do CDS agora com Chicão de fazer da política uma politiquice e inventar o que Marta Temido explicou a todos os portugueses sem qualquer desenho.

Esperava-se do jovem novo líder do CDS que não fizesse o que se aprimorou a fazer a Senhora Doutora Assunção Cristas, face aos resultados alcançados, tanto mais que foi  graças a esses resultados, que ele se encarrapitou no posto que tem, ou ainda ninguém lhe explicou?

https://www.publico.pt/2020/03/06/politica/opiniao/incompreensao-lider-cds-caso-coronavirus-1906597

 

Currículo partidário serve para entrar no T. Constitucional?

Para se ser conselheiro do Tribunal Constitucional é seguramente necessário ter um passado enquanto jurista que não suscite a menor dúvida quanto às suas competências.

E também é certamente, no plano da cidadania, ser alguém cujo perfil não deixe margens para dúvidas quanto à sua isenção, isto é, alguém que não se tenha empenhado a fundo (e por esse facto seja conhecido) em questões sociais, políticas e económicas, aparecendo demasiado colado a essas opções tomadas em torno dessas questões.

Será como conselheiro membro de um Tribunal que é a última porta a que se pode bater para proteger a legalidade dos próprios órgãos do poder e aferir da constitucionalidade das leis. E ainda muitas outras elevadíssimas funções que são os pilares do controle da legalidade do funcionamento dos órgãos de soberania.

O Tribunal Constitucional não é um órgão para o qual quem quer que seja se prepare para o lugar ao cabo de quarenta anos e muito menos ainda quando o currículo que se invoca ao longo desses anos não passe de atividade partidária no mais estrito sentido da palavra partidária.

O Tribunal Constitucional tem a prorrogativa de fiscalizar as várias decisões dos Tribunais e de todos os restantes órgãos de soberania e das normas que deles emanam.

Quando alguém foi durante quinze anos porta-voz do PS, tal facto coloca um candidato com esse currículo ligado a um cargo por excelência partidário, o homem (neste caso) que apareceu sempre a defender o seu partido. Isto para ser conselheiro do Tribunal Constitucional se contar é negativamente.

A estirpe dos conselheiros, não deixando de ser a de alguém que enquanto cidadão tem opções políticas e partidárias, deve fundar-se noutros critérios e em obra que esteja para além de ter sido um bom executante partidário.

Pede-se muito mais a um conselheiro do Tribunal Constitucional. Exige-se para o cargo alguém que tenha um passado de uma grande isenção nos grandes conflitos sociais e não quem apareça num dos lados da barricada, como por exemplo, na pomposa Provedoria da Ética Empresarial e do Trabalhador Precário.

Não se deve poder dizer de um conselheiro do Tribunal Constitucional o seguinte: ali vai o Senhor Doutor Juiz Conselheiro que pautou toda a sua vida por ser um quadro/dirigente partidário e ter defendido sempre o seu partido e o seu posto.

Tal currículo pode dar para ser Ministro ou Secretário de Estado, mas para conselheiro do T.C. é pouco. É apoucar o tribunal Constitucional. Haverá alguém que pensasse que ao cabo de 40 anos seria conselheiro do Tribunal Constitucional? E se há, como parece haver, o que fez o Dr. Vitalino para pensar assim há 40 anos, tanto mais que o Tribunal Constitucional foi criado em 1982, apenas há 38 anos?

 

https://www.publico.pt/2020/02/28/politica/opiniao/curriculo-partidario-tribunal-constitucional-1905688

Passos voltou com o vento suão, novos passos

Passos voltou em força. Acompanharam-no todos os pesos pesados dos seus quatro anos de empobrecimento dos portugueses. Faltou Portas. Cristas não.

Era suposto que apresentasse o livro de Carlos Moedas. O convite assim o dizia. Porém, chegado ao palco, Passos quis de modo claro e inequívoco afirmar-se como o líder da oposição. O “Vento suão” de Moedas parecia uma brisa doce, quietinha, serena face à tempestade desencadeada por Passos. Atacou Costa em toda a linha.

Ter-se-á esquecido que ia apresentar o livro do seu amigo Moedas ou, no seguimento do que já dissera sobre a eutanásia, veio marcar terreno e congregar as forças presentes do PSD e do CDS para os combates que se avizinham?

Passos trouxe consigo os passistas do PSD, mais alguns do CDS, a começar por Cristas, no momento em que no cenário político se agravam as contradições entre PS e os partidos da esquerda, nomeadamente PCP e BE.

O modo como os desenvolvimentos políticos acontecem vai trazendo para cima da mesa um deslizar do PS para o centro, onde Rui Rio proclama que é o seu lugar.

É evidente que PS e PSD podem guerrear pelo tal centro, mas bem vistas as coisas, sendo ao centro, o que contará é saber o peso de cada um para se entenderem ou não.

Por isso, Passos decidiu aparecer com toda a artilharia pesada dos quatro anos de austeridade e apresentar armas.

Não deve ser por acaso que dentro do grupo parlamentar do PSD um conjunto de deputados faça coro com Passos e Cavaco pelo referendo e contra a eutanásia.

Começa a ficar claro, mesmo sem detergente, que nas sombras as movimentações por um novo ciclo se desenham.

Claro que cada um dos atores principais irá em termos de retorica ater-se ao guião, mas é bem visível que se aproxima outra fase.

Entretanto o PS saudou a abertura do CDS ao diálogo, sendo certo que Paulo Portas não esteve no lançamento da tempestade de Passos Coelho. O novo líder  diz-se mais próximo de Paulo Portas.

E registe-se no Congresso do PSD a aproximação do CDS com o PSD, aparecendo os dois líderes sorridentes a prometerem entendimento. Ou seja, PSD e CDS remam em sentido contrário ao do vento suão.

Por outro lado Marcelo vai a votos e quer o apoio do PS, pois é uma grande faixa do seu eleitorado. Quer uma votação maior que a anterior para aquilo que se sabe, pois será o seu último mandato com ou sem beijos e selfies.

O jogo de cintura de Marcelo que é reconhecido obriga-o a moderar ímpetos, tanto mais quanto dirigentes e quadros do PS falam numa candidatura do PS, o que a ser alguém com força e carisma ameaçará o passeio triunfal e apoteótico do mais espalhafatoso Presidente de Portugal.

Passos Coelho após ser derrotado e passar à oposição, como todos se lembrarão, ameaçou de quinze em quinze dias a vinda do diabo para estrangular a economia portuguesa. Até hoje o diabo escondeu-se, mas sabe quem o chama. E gosta de pregar partidas, mesmo aos que vivem debaixo do mesmo teto partidário. Passos parece ter decidido convidar o diabo para infernizar a vida de Rui Rio. Que o diga a tempestade do vento suão.

https://www.publico.pt/2020/02/21/politica/opiniao/passos-voltou-vento-suao-passos-perfilam-1905023

 

MAREGA CAMPEÃO

 

Quem tem animais de criação sabe que não pode juntar galináceos ou suínos a outros animais da mesma raça porque os donos do território (galinheiro ou pocilga) os matam.

Há, dizem os mais velhos e sabidos do assunto, que untar o porco com creolina ou juntar os galináceos durante a noite, sem que deles deem conta.

Os seres humanos quando se juntam e atuam segundo os princípios tribais ou de horda não são muito diferentes.

Nos humanos a justificação para humilhar, prender, torturar, escravizar e aniquilar pode ser a cor da pele.

Milhões de africanos foram arrancados dos seus lares, embarcados e enjaulados , tendo -se chegado a discutir no seio da própria Igreja (que tinha tantos escravos como os outros esclavagistas) se tinham alma.

Esta é uma chaga do passado da Humanidade. É revoltante e chocante que, depois de séculos de escravatura, de novo salte para a luz dos dias as trevas mais negras nas relações entre os humanos, mulheres e homens providos de cérebro.

Sem o contributo de jogadores negros o futebol não era o que hoje é. Sem o Rei Pelé que seria do perfume deste desporto? Quem seria capaz de fazer passar a bola por cima de três adversários (um de cada vez) e depositá-la no fundo das redes no último arco a passar por cima da cabeça do guarda-redes? Quem seria capaz de parar a corrida do pantera negra deixando para trás brancos e negros que quisessem travá-lo? Quem como o grande Eusébio seria capaz de bater a bola àquela velocidade e naquele alvo? Quem podia ombrear com a arte de George Whea? Quem como Matateu ou Hilário, um à frente outro atrás, encheria os campos de aceleração ou travão nos momentos ofensivos e defensivo respetivamente? Quem? Como se pode imaginar o futebol sem Eto, Drogba e por que não Marega?

Os racistas que vão ao futebol não gostam de futebol, nem dos clubes que dizem apoiar; gostam da violência de grupo que lhes garante a “ousadia” e a proteção.

O futebol abarca a Humanidade inteira num abraço de divertimento. Por vezes vira um espetáculo deprimente de violência, mesquinhez e até quase sempre de cobardia de catervas de energúmenos.

Em Guimarães, a selva no que ela tem mais cruelmente bárbaro, saiu de casa e foi parar às bancadas do estádio.

Os humanos têm sentimentos quando são verdadeiros humanos portadores de humanismo.

Mas os humanos portadores de maldade e covardia juntam-se, formas hordas para se promoverem através da agressão, tentando desvalorizar aqueles que tendo outra cor de pele suplantam no seu ofício os adversários. Só o puro instinto primitivo e descontrolado pode justificar que após um jogador negro marcar um golo, adeptos do Guimarães se tenham unido em coro para o achincalhar, insultar e agredir.

É a mentalidade que se pode equiparar ao cérebro dos galináceos e dos suínos que rejeitam outros que não sejam os do grupo.

São assim os cérebros desta gente que se continua a passear pelos estádios e a comportar-se como galináceos ou grunhos.

Só nos faltava, em nome desta bestialidade, os surdos que dizem não ter ouvido o que todos ouviram. Pilatos também lavou as mãos permitindo a crucificação.

E faltava também um deputado achar normal este mundo de bestialidades, e recalcitrante voltasse a insultar e a agredir todos os negros e brancos enquanto seres humanos. Os racistas nunca dizem que o são.

https://www.publico.pt/2020/02/17/desporto/opiniao/marega-campeao-1904461

 

 

Sem cremalheira no Dragão e em Famalicão

 

 

O Ésseélebê graças ao seu treinador habituou-se a ganhar, o que só tem mérito. Quem se habitua a ganhar tem mais probabilidade de ganhar do que os que se habituam a perder.

Esta época o Benfica, apesar de só ter perdido na 3ª jornada em casa com o Porto, voltou a perder no Dragão. E em vez de encaixar a derrota que mereceu, atirou-se ao árbitro.

O Ésseélebê é tão grande, tão grande, tão grande que pode ter um altíssimo funcionário a espiar magistrados,  e do alto desse seu poder de infiltração já sabia que se o Soares Dias não desse a vitória ao Porto a sua pastelaria seria toda partida, como afirmou o mais sério, honrado, impoluto, visionário, solerte, ínclito, pacifista, magnânimo cidadão Luís Filipe Vieira.

Ao que consta o honrado, sério, visionário Luís Filipe Vieira, quando for presente a julgamento nos vários processos que malevolamente contra si urdiram, por temer que os juízes e as juízas portuguesas temam a violência do corpulento Jorge Nuno Pinto da Costa irá reclamar junto da Assembleia da República, do Tribunal Constitucional, apoiado pelo gabinete de crise do Ésseélebê juízes estrangeiros, o que a não ser atendido só confirmará a capacidade de coação do emblema do Norte.

O dragão, em vez de aceitar que, na segunda circular, o Ésseélebê recebeu por concessão divina o direito a ser campeão, impôs-lhe este campeonato duas derrotas, o que demonstra a importância de árbitros estrangeiros nestes confrontos, como realçou o mais impoluto Presidente.

Na verdade, o senhor Artur Soares Dias vestia de negro porque é cor dos gajos que têm miúfa e querem esconder o que fazem por eles abaixo no escuro da fardamenta.

O Benfica só está habituado a perder com quase todos os clubes estrangeiros onde os árbitros, como é sabido, são todos estrangeiros porque se fossem portugueses provavelmente ganhavam tantos jogos como os que ganha em Portugal.

Por isso, só se pode louvar a extraordinária ideia do mais preclaro Presidente existente no nosso mundo de colocar os árbitros gregos, alemães, espanhóis, franceses e até italianos a arbitrar em Portugal, dado que é previsível que não tenham pastelarias a quem os do Porto possam mandar escaqueirar. A ideia é ótima e quem de direito não descurará de deixar de a ter em conta.

Quanto aos dentes que o jogador do Benfica diz ter perdido tem tudo a ver com o número de pontos que o Benfica perdeu no Dragão; é que os pontos seguram os dentes com que se mastigam os campeonatos.

O que se não entende é que apesar dos quatro pontos de vantagem tremem que nem varas verdes, com medo dos que podem vir a perder e ficarem sem dentes para trincarem.

Aliás viu-se, não só no Dragão, mas também, em Famalicão, que o Benfica está com a cremalheira mui mal tratada.

CONGRESSO DO PSD NO REINO DA IDEOLOGIA DESIDEOLOGIZADA

O PPD/PSD realizou o 39º congresso em 46 anos de vida. É obra. Nasceu dizendo que era social-democrata com base em alguns deputados liberais, dissidentes da Ação Nacional Popular, o partido do regime fascista.

Em Maio de 1974 mandava o oxigénio da libertação que os partidos se afirmassem contra a direita e apontados ao socialismo.

Sá Carneiro assegurava que o PSD não era da direita, era social-democrata. Como se lembrarão (os que viveram a época e os informados) o PS era o partido social-democrata filiado na Internacional Socialista.

Bem tentou o PPD inscrever-se na I.S., mas o peso de Mário Soares não o permitiu.

Na verdade, o PPD tinha nas direções iniciais um pouco de tudo, até sociais-democratas, e as bases claramente inclinadas à direita e provenientes dessa área, incluindo dos apoiantes do regime anterior.

O PPD passou a PSD para ver se o termo social-democrata dava mais “modernidade”. Acabou por se afirmar um partido de centro direita e com uma viragem clara para o neoliberalismo de que é exemplo vivo a política do PSD com Passos Coelho aliado a Portas. Uma política de direita, sem rodriguinhos.

Uma vez derrotada a coligação Passos / Portas / M. Luís / Cristas, Rio ganhou a liderança e vem agitando a bússola que o move como sendo um partido de centro, o que como se sabe é incompatível com a social-democracia que (independentemente da autenticidade) sempre se afirmou como pertencendo à esquerda no panorama da Europa. A social-democracia afirmava-se de esquerda na França, Grã-Bretanha, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Grécia, Alemanha, Itália etc. Outra coisa era saber se o era.

Portanto, ser do centro e simultaneamente social-democrata é uma contradição insanável.

Mas o problema maior é que a nova ordem mundial caracteriza-se por ser uma espécie de semáforo com uma cor só, a do dinheiro, pois dinheiro é o que têm os que mandam nos que governam.

Nestas circunstâncias as políticas tendem a ser iguais porque todos os do centrão defendem o mesmo.

Saem dos governos para os bancos, para os conselhos de Administração dos grandes corporações e gravitam em torno da divindade máxima, o Deus dinheiro. Acabou de falecer um exemplo vivo, Álvaro Barreto.

Face ao desencanto dos cidadãos neste tráfico de poder surgem ideias fantasiosas como a de abrir os partidos a quem quiser. Ou seja os partidos deixam de ser uma organização com um corpo de ideias que sustentam um programa, e passam a ser um local aberto a todos os que queiram votar, tanto faz, da esquerda à direita.

Chamam a isto abrir. No entanto, trata-se de fechar as reais possibilidades de aparecimento de verdadeiras alternativas.

Em vez de obrigar os partidos a cumprirem e a assumir a coragem de romper com essa permanente traição ao eleitorado, envereda-se pelo caminho da homogeneização da sociedade no reino dos mercados.

Se todos são chamados a votar no PS e no PSD, e sendo todos os mesmos, o resultado é sempre mais do mesmo, a tal política “europeia” da Alemanha, as tais reformas que estão sempre a pedir mais reformas, as tais concessões aos privados, mais privatizações, menos setor público, mais salários baixos, mais dinheiro para os que já têm muitíssimo. Aprofundar as desigualdades e criar uma multitudinária legião de governantes por esse mundo fora capazes de guardar os donos do mundo, nem que seja à custa da miséria, da fome e do próprio planeta. Os multibilionários é que sabem. Chamam a isto limpeza de ideologias, mesmo que seja um programa intensamente ideológico, com a ideia que os cidadãos valem pouco, se comparados com os acionistas. O Congresso do PSD não passou disto. Ao centro com o novo CDS  e à espreita do PS ou do seu tombo se fizer o que a direita lhe pede.

https://www.publico.pt/2020/02/12/politica/opiniao/congresso-psd-reino-ideologia-desideologizada-1903718