Marcelo e Costa sem máscaras

 

Hoje os banqueiros sabem que podem arruinar bancos que os Estados por via dos impostos dos cidadãos virão em seu socorro. Claro que há uma parte do “socorro” que se entende e que tem a ver com as poupanças dos clientes. O resto é arenga para manter a santidade dos mercados a funcionar. Vale a pena ter em atenção que em Portugal os banqueiros “arruinados” continuam a fazer a mesma vida, enquanto milhões de portugueses viveram dias dificílimos. Com a troica a pobreza ficou muito próximo de um quarto da população. Vamos ver como fica no fim da pandemia.

Tenha-se em conta o comprometimento do antigo triunvirato Cavaco/Passos/Carlos Costa no que ao BES se refere. Deram todas as garantias de que era um banco seguro. Depois quando já não era veio Maria Luís Albuquerque jurar que partiam o banco em dois e o Novo Banco seria bom e o outro o mau. Quem já se esqueceu? O banco bom já nos levou 7.876 milhões de euros… E quanto mais irá levar?

Entretanto, o país assistiu à bravata em torno da alegada falta de informação de Mário Centeno a António Costa da decisão tomada no Conselho de Ministros quanto ao momento da transferência dos 850 milhões de euros para o banco bom. Sabia-se, melhor, intuía-se que o enlevo de Costa por Centeno passara para Sisa.

Quando Costa se atirou com toda a repugnância ao Sr. ministro das Finanças dos Países Baixos havia no adjetivo qualificativo uma intensidade que parecia ir para além do destinatário. O vigor ecoou nas paredes das salas de reuniões do eurogrupo. Era repugnante o que o ministro dissera, e o silêncio do eurogrupo?

O próprio pedido de desculpas de Costa a Catarina dava ares de serem setas atiradas ao novo São Sebastião das Finanças.

A surpresa chegou mais tarde com o encontro na Autoeuropa alemã de António Costa/ Marcelo. Ambos sem máscara a encavalitaram-se ao colo para declararem que no regaço levavam uma eleição presidencial, eram votos no regaço esclareceram a quem os quis ouvir. Não eram rosas.

Na guerra com Centeno, Costa ganhou Marcelo. Este, na batalha pelo plebiscito presidencial, ganhou Costa e o PS ficou órfão, sendo o maior partido neste momento. O encontro de ambos poderá vir a figurar nos manuais de amor ao próximo.

Marcelo tem raízes capazes de chegarem a qualquer lado, a distância entre Belém e o Rato é significativa, mas pelos vistos alcançável. E sem ser a nado.

Portugal confinou-se ainda mais. Em Belém a música não mudará face à entronização de São Marcelo. São Bento que se cuide se se fiar na virgem. A sedução está concluída. O PS fica a ver o andor de São Rebelo. À esquerda pelo que se vislumbra haverá uma competição pela liderança da segunda Liga, num país em que a direita é minoritária.

Costa e Marcelo envolveram-se a fundo nos destinos de cada um, sendo que Marcelo depois de eleito fica de mãos livres e Costa não.

Enterraram Centeno, mesmo que o funeral tenha sido adiado. E para que conste o Estado continuará a pagar o Novo Banco, não se esqueçam.

https://www.publico.pt/2020/05/18/opiniao/opiniao/costa-marcelo-mascara-1916910

A desventura de André Ventura

 

Os humanos são seres muito especiais. Vêm de muito longe, diz-se que do fundo dos tempos. Quem viu o magnífico filme de Stanley Kubrik “Odisseia no espaço” terá certamente registado o instante em que de um grupo de macacos se destaca e servindo-se de um osso de um outro animal “dá conta” que o pode usar com violência contra outro. Descobre o instrumento/ferramenta.

Não se sabe com precisão o momento que os macacos se ergueram e iniciaram a sua marcha a caminho de se humanizar.

Sabe-se, no entanto, que esta verdade trouxe grandes dissabores a Darwin e continua a trazer a outros defensores do evolucionismo, dado o poder dos negacionistas que só aceitam a fórmula do Génesis e do casal desgraçado (Adão e Eva) para toda a eternidade devido à sua ambição em querer abarcar o conhecimento, o qual estava reservado à divindade.

Do grupo às tribos, às comunidades, às cidades, às nações e países, foi um longo percurso a desbravar ignorâncias e a abarcar conhecimentos.

Os filósofos gregos, não renegando as múltiplas divindades, defenderam o homem como medida das coisas. Epicuro foi mais longe e lançou a primeira pedra do materialismo.

As mãos que matavam e faziam razias podiam ter outros gestos e acarinhavam. Veio a escravatura e logo se impôs Espartacus.

Na velha Galileia Cristo era Deus feito homem. São Paulo defendia que todos os homens eram irmãos, mas a própria Igreja se esqueceu dessa irmandade ao adotar as práticas do velho Império romano, incluindo a escravatura.

Portugal e Castela trouxeram a primeira globalização e com ela o colonialismo sustentado em Impérios.

E o mundo humano continuou na sua senda e a rodar e o que parecia eterno afinal não era.

Vieram séculos de ignomínia com as perseguições aos judeus e hereges, a mando da Inquisição.

O colonialismo foi-se. E ficaram Gandi e Mandela.

Hitler insistiu na estrela amarela na lapela dos judeus. E abriu fornos de cremação para quem não pertencia à raça ariana, incluindo ciganos e judeus.

Passaram há dias 75 anos da derrota do nazismo. A Europa e o mundo sofreu 50 milhões de mortos.

Parecia que havia um tempo gasto, morto. Mas a verdade é outra. Vozes enterradas fazem-se ouvir com o seu ódio, aproveitando o desencanto de um mundo com tanta desigualdade.

Quando a significância de André Ventura resulta de assumir posições que no passado levaram às maiores desgraças é assustador. A defesa do confinamento dos ciganos, da deportação de Joacine ou outros atoardas sobre o 25 de abril insere-se num roteiro de aproveitamento político de alguém que se quer apresentar contra o sistema, mas sempre viveu dele desde o futebol à política mais reles.

Representa em termos políticos o que de mais simbólico existe de desventura humana – a perseguição a outros seres humanos.

https://www.publico.pt/2020/05/11/opiniao/opiniao/desventura-andre-ventura-1916031

A motosserra do Sr. Rodrigo G. Carvalho

 

É hoje forte o sentimento na nossa comunidade que o SN de Saúde foi até à data o serviço público que tratou e salvou os doentes COVID-19, apesar de descapitalizado, atacado e desprezado pelos vários governos. Sem o SNS a pandemia teria dizimado muitos milhares de portugueses.

Aliás os países com um forte SNS responderam muito melhor à crise que os países onde os cidadãos que queiram ter acesso à saúde têm de a pagar.

Na verdade, serviços públicos fortes, modernos, desburocratizados e ao serviço das populações são elementos chave de um Estado moderno, democrático e vocacionado para proteger.

Ora esta conclusão óbvia não se encaixa nas ideias dominantes de sobrevalorização do papel do indivíduo prevalecente sobre o da comunidade que está em sintonia com a elevação da empresa a um novo paradigma de proteção estatal fundado num quase direito natural.

O que parece contar é a sorte das empresas, sobretudo as grandes. O Estado, a entidade “despesista e gastadora”, de repente tem de ir socorrê-las para a sua salvação. O tal Estado malfadado faz-lhes falta quando a iniciativa privada não está capaz de responder aos seus desafios próprio das sacrossantas leis do mercado. Vejamos de outro ângulo – quando há lucros fabulosos a ordem é arrecadar, quando há prejuízos a ordem é para lançar impostos e os cidadãos pagarem.

Há até quem candidamente defenda que o Estado garanta um empréstimo à TAP de 300 milhões de euros para salvá-la e entrega-la a reluzir à sociedade Barraqueiro/Neelman…que grandes capitalistas…

Parece ser uma nova religião que preconiza que o Estado subvencione os mais poderosos e sobrecarregue os que vivem da força do seu trabalho, como se o salário fosse um peso e sempre imerecido. Felizmente que muitos são os patrões que não têm esta visão, mas esses não têm voz nos media.

A iniciativa privada é essencial numa sociedade moderna, mas de acordo com as regras do mercado e não baseada no critério de que na sua atividade o risco é do Estado e o lucro do capital.

Aliás os lucros de algumas dessas empresas vão direitinhos para os “repugnantes” holandeses enchendo-lhes ao cofres e deixando o maldito Estado português à míngua, mas obrigado a socorrer os mesmos de sempre.

Quando chegar a hora de fazer contas vira o disco e toca o mesmo – austeridade. Não se pode tocar nos lucros, só nos rendimentos dos que trabalham e nesses pode ser à bruta porque aguentam, aguentam, como afirmou o célebre banqueiro…

Dinheiro já (não pode ser amanhã de manhã) a fundo perdido. E a vida das famílias, dos trabalhadores com menos um terço do vencimento?…Alguém deu conta da necessidade de remunerar mais dignamente os enfermeiros, os médicos, os cientistas das várias áreas sem os quais as mortes eram aos milhares…Já foi feito o ato de contrição sobre o sair da zona de conforto que levou milhares de enfermeiros e médicos portugueses a sair do país? Um dos rostos desse período negro aparece confortavelmente e todo pimpão, com ares de cientista, pianinho, pianinho, a botar postas de pescada sobre o coronavírus. Refiro-me a Sua Excelência o Paulino das Feiras, dos retornados, dos ex-combatentes, do irrevogável, do Vice-Primeiro-Ministro que ultrapassou na corrida Maria Luís e todo lampeiro perora na TVI. Ele é que sabe e por isso estendem-lhe a passadeira…Depois de tudo o que foi agora é virologista formado na Rua do Caldas.

Na SIC, em entrevista à Ministra da Saúde, o Sr. Rodrigo atirou-se como uma fera a propósito da comemoração do 1º de maio da CGTP e instou-a a esclarecer o que lá fazia Jerónimo de Sousa de cima dos seus setenta e três anos. Veja bem Sra. Ministra aquele velho desconfinado, um dirigente do PCP nas comemorações do 1º de maio…

O Sr. Rodrigo estabeleceu uma linha fortificada que ia da Alameda até à Cova da Iria. Queria a todo o custo saber porque não autorizara a peregrinação e a missa no santuário, em contraste com o que se passara na Alameda.

Marta Temido explicou o conteúdo da decisão presidencial contida no Estado de Emergência sobre aquela data e referiu as conversações com a Igreja que não passaram pelo modelo da Alameda.

Porém, como o Sr. Rodrigo se achava portador do inconfessável propósito da Ministra, a entrevista tornou-se num interrogatório. Com toda a simplicidade do mundo, um sorriso e um olhar firme teve de responder ao Sr. Rodrigo que estava ali para esclarecer e para tanto esclareceria. Foi então que ele deu conta que se acabara a gasolina da motoserra. Ficou a imagem de Marta Temido feliz com a resposta do SNS.

https://www.publico.pt/2020/05/04/opiniao/opiniao/sns-motoserra-senhor-rodrigo-g-carvalho-1914955

 

ANTES DE 25 ABRIL 74 NUNCA ESTIVE CONFINADO, SÓ PRESO

 

 

Antes de 25 de abril de 1974 nunca estive confinado, antes preso no forte de Caxias. E a razão da prisão: exercer os direitos cívicos mínimos – expressão, reunião, associação. Era dirigente da Associação Académica de Coimbra. Para me prenderem apontaram-me uma arma e levaram-me. Na prisão tiraram-me o cinto, os cordões dos sapatos, a esferográfica e os papeis que tinha. Cortaram-me o cabelo. Encerraram-me numa cela que mesmo durante a noite tinha uma luz acesa. De tantas em tantas horas abriam o postigo e olhavam para dentro da cela. Quando chegou o pijama tinham tirado o cinto.

O recreio de uma hora só dava para ver o céu e o caminho da cela ao terraço bloqueado de muros de muros altos era cuidadosamente preparado para não ver nenhum outro preso. Vinham a meio da noite e levaram-me de Caxias para a Rua António Maria Cardoso para por meio da tortura do sono fazer com que eu confessasse que pertencia ao Partido Comunista, o que significava no mínimo dois anos de cadeia. Ali estive “confinado” a pé sem me poder sentar sequer três ou quatro dias e noites, já não me recordo.

As cartas que escrevia eram entregues abertas e as que recebia abertas estavam com o carimbo da DGS, a PIDE com outro nome. Os maços de cigarros vinham abertas e a comida inspecionada e cortada para ver se lá havia algo.

Da minha cela via um pouco de mar e a estrada que ia para Caxias e Cascais. E a mudança de turno dos GNRs. Ouvia o ruído da vida através das grades. Raramente via passar pessoas ao pé do forte. Havia uma ou duas crianças que às vezes surgiam numa das curvas da estrada e pensava como seria Portugal quando tivessem a minha idade de então – 21 anos. Uma vez deu me vontade de assobiar para alguém, mas o castigo esperado impediu-me de o fazer. No recreio, às vezes, via gaivotas, pardais e um ou outro avião.

Com tantos companheiros presos só ouvia as carrinhas partirem e chegarem. Para saber quantos eram os dias de torturas tomava nota do dia da partida do preso e depois esperava para o ver chegar se fosse de dia.

Quando me deixaram chegar livros, estudava e lia. Aprendi a comunicar por pancadas na parede, mas os guardas também conheciam o abecedário.

No recreio atirava miolo de pão com um papel dentro com o meu nome à espera que o vizinho fizesse o mesmo.

Não entrava nenhum jornal, nem rádio. Não havia notícias no reino do terror. Quem ali chegasse devia saber que não era dono de si próprio e teria de vomitar o que a PIDE queria. A única notícia seria a confissão, se houvesse.

Havia um silêncio feito de terror que oprimia a alma até quando se dormia com a tal luz acesa vinte quatro horas. Silêncio e no lado da minha cela livre o vento no seu lúgubre assobio, indiferente à sorte dos que não podiam ir fazer compras, nem passear o cão… Apenas com quatro ou cinco metros entre a porta e as grades, sem nunca poder sair, a não ser “acompanhado” pelos Guardas.

Tudo isto sob o manto da infamante justificação de que era o resultado de atentarmos contra a segurança do Estado, isto é, de não nos resignarmos e deixar cair os braços para o fascismo pudesse dominar o país na tal segurança. Num dos registos da PIDE era acusado de incentivar a população a recensear-se para poder votar.

Diante de uma pandemia tão poderosa como a do coronavírus os cientistas de vários ramos dentro dos seus saberes aconselharam os governantes a determinar mediadas de confinamento para proteção da população. E foi o que se fez através do estado de emergência.

O confinamento permite a cada um defender-se e defender a comunidade num elevado exercício de cidadania e solidariedade. O sacrifício que impõe não visa os que não concordam com o governo. Visa a defesa da comunidade. É um confinamento relativo, pois há espaço para ir fazer exercício físico e compras e até passear o animal de estimação. É seguramente aborrecido. Mas entre esta medida de elevado grau de civismo e o terror a diferença é monumental.

Não há qualquer semelhança entre o terror e a consciência de uma medida que visa a proteção de toda a comunidade.

 

https://www.esquerda.net/…/antes-de-25-abril-74-nunca…/67571

A coragem venceu o medo

Havia um tempo em que o medo chegava a todo o lado, chegava aos ossos e à própria alma.

O medo tinha medo de si próprio. Quando raptava os que o enfrentavam fazia-o de noite para que se não visse a ignomínia.

O ofício do medo era infiltrar-se, entrar nas células, fazer os cidadãos vergarem-se e tomar as rédeas do destino.

Ao pé do mar, em Caxias, o forte prisão esmagava os que não tinham medo do império do medo.

A Norte de Lisboa, em Peniche, a tocar no mar, outro forte, e a dor a esbarrar no mar imenso. Detrás das grades a força das vontades indomáveis.

A ideia maligna da ditadura de enclausurar os presos frente ao mar. Sem saída. A solidão frente ao mar. E, no entanto, a esperança sempre.

O medo entranhou-se quase cinco décadas nos poros para sufocar a alma de cada um.

Medo até de dizer o que se tinha para dizer aos familiares e amigos. A palavra livre não estava autorizada, só a domesticada podia correr no ar.

O medo existia para impedir o enfrentamento com a poderosa máquina de maldade e para poder continuar a dilacerar as vontades e a todos enfiar no carreiro…

O medo, porém, tinha um mal de nascença – a coragem de quem desfraldava a esperança quotidiana.

Como foi possível esperar sem desistir e porfiar pelo tempo novo?

O medo chegava aos ossos, à alma, mas não era bastante. O medo tinha medos – para conjurar o medo da juventude despejou nas Faculdades gorilas para impor o terror.

Levou a guerra aos que muito longe não tinham já medo e impôs aos jovens de cá irem combater e servir de carne para canhão.

O medo perseguia, prendia, torturava e assassinava, tal era o desvario.

Não impediu, contudo, que no regaço do tempo nascesse fecundado pela coragem outo tempo.

Havia de vir o dia feito da longa esperança. Chegaria? Havia de chegar. Como seria? Quando? Seria uma revolta geral? Uma revolução? Como seria esse tão esperado dia? Será que seria? Seria. O tempo que prendera o tempo havia de escoar-se, secar e morrer.

Foi de madrugada que veio o dia e o novo tempo, em Lisboa. Depois correu louco o país inteiro. Abriram-se as janelas e depois as ruas. A alegria ressoou nos corações da amada pátria. Vestiu-se de olhares festivos e deslumbrantes. Foi há 46 anos, a madrugada mais longamente esperada. E o dia 25 de abril foi tudo.

 

https://www.publico.pt/2020/04/25/politica/opiniao/coragem-venceu-medo-25-abril-1913424

Em defesa do livro não deixem o vírus matar Camões

 Hoje, Dia Mundial do Livro, autores, editores e livreiros estão em perigo.

Tolstói ou Dostoievski, Shakespeare e Camões, Camilo ou Eça vivem, como Portugal, como o mundo, a situação calamitosa que afecta dramaticamente a nossa forma de vida, as pessoas e as empresas. Sim, os grandes romances, os grandes ensaios, os livros de ciência ou de filosofia, tal como os editores e livreiros que são a sua casa, acabam de sofrer um violento abalo. Fragilizados pelas crises económicas de 2008 e de 2011, editores e livreiros são agora, como resultado directo desta pandemia, confrontados com a mais dura ameaça que o livro já experimentou em Portugal. A espada de Dâmocles, que é a insolvência de editores e o fecho definitivo de muitas livrarias, paira sobre as nossas cabeças, sobre a cabeça dos grandes livros e dos grandes autores, o que o empobrecimento salarial dos leitores, já de si uma minoria da população, mais reforça.

E esqueçam os choradinhos e peditório economicista, por mais legítimo que ele seja. Não vos estou a falar só de uma actividade económica. Ao falar do livro, estamos a falar de um sector estratégico para o futuro de Portugal, de um sector fundador para todas as outras actividades económicas. Como as neurociências cada vez mais atestam, o livro, a leitura de livros, é imprescindível para a obtenção e solidificação do conhecimento.

Se o futuro de Portugal passa, como todos acreditamos, pelo conhecimento, pela ciência, pela matemática, pelo avanço tecnológico, então o livro é a pedra basilar desse edifício. É a mais avançada ciência do mapeamento do cérebro humano que o afirma, garantindo que esse livro a que os cientistas se referem não é apenas o livro escolar ou técnico, de pura aprendizagem. São todos os outros livros, a literatura, poesia e romance, o Dom Quixote e As Mil e Uma Noites, Fernando Pessoa e Walt Whitman, que alimentam a inteligência emocional dos leitores, oferecendo-lhes uma cultura e uma experiência que, só pela vida, seria impossível colher e que lhes dá empatia humana, vacinando-os contra autoritarismos e contra a arrogância do imediatismo de tuítes e redes sociais.

O livro – os livros de António Lobo Antunes, de Jorge de Sena, Agustina, Sophia – é vital para conferir a Portugal o conhecimento de que o nosso futuro precisa e é crucial para a expansão do imaginário e da identidade emocional da comunidade que somos, identidade essencial à construção de um desígnio comum. Por alguma razão, afinal, o Dia de Portugal tem como patrono um poeta e a sua obra, denominador comum para os portugueses. Essa escolha não pode, apenas, ser uma flor de retórica. E quem ama a literatura junta-lhe, num gesto ecuménico, as novas gerações de escritores de língua portuguesa, de África, das Américas e da Ásia, vencedores alguns do Prémio Camões, signo do ideal de universalidade a que aspiramos e que nos empolga.

Cartas na mesa: sem o livro, todas as actividades económicas se empobrecerão. Sem o livro, o futuro das nossas ciências e da nossa tecnologia perde competitividade. Se não escolher a defesa vigorosa do livro, Portugal perde voz no concerto das nações. E esse é o Portugal resignado e sem ambição que todos recusamos.

Salvar o livro deve ser, pois, desígnio dos portugueses, dos cidadãos, do Estado, dos sectores do conhecimento – e de todos os sectores económicos, que, com esse salvamento, estarão a proteger-se e a enriquecer-se. O livro tem de merecer um tratamento de excepção. Não deixemos que, com esta água do banho, se deitem fora esses embriões do conhecimento e do imaginário que são os livros, todos os livros.

Há duas acções imperiosas a desenvolver. Uma a montante, restaurando, junto das novas gerações, o hábito da leitura e o tremendo e poderoso prazer que nela se ganha. Cabe ao sistema educativo repensar métodos de atracção e sedução, cabe aos pais a descoberta do poder lúdico do livro para reforço dos laços afectivos familiares. Cabe ao sistema educativo reparar a catástrofe de tantas opções facilitistas que afastaram as novas gerações do livro. Essa é uma acção a médio e longo prazo.

Mas para que ela possa ser bem-sucedida há uma acção imediata, a jusante, que tem de ser já concretizada: é preciso salvar as edições d’Os Lusíadas, de Hamlet, d’O Principezinho, de Amor de Perdição, que estão nas estantes. É preciso salvar os editores e livreiros portugueses, única forma de garantir a preservação do livro. Salvando-os, salvam-se milhares de autores, de tradutores, de revisores, de tipografias. E salva-se a diversidade, liberdade e independência do livro, contra hegemonias privadas ou estatais indesejáveis.

Consciente de que para tempos excepcionais são necessárias medidas excepcionais, há acções urgentes que precisamos de fazer como quem faz respiração boca-a-boca em emergência crítica. Dou cinco exemplos:

  1. Injecção de volume de vendas com a criação de um cheque-livro familiar, adoptando esta forma simplificada: permitir que cada contribuinte, após a finalização do IRS, possa ainda, e além das deduções já existentes na lei, fazer a dedução integral de 100 €, contra a apresentação de facturas de compra de livros em livrarias. Esta medida tem a vantagem de deixar na mão dos leitores a decisão de compra dos livros, sem dirigismos e sem desvirtuar regras de concorrência.

  1. Aplicação excepcional ao livro (físico ou digital), após a retoma da actividade, da redução a 0 % do IVA, até 31 de Dezembro de 2020, o que permitiria capitalizar livreiros e editores.

  1. Amplo programa de extensão da Feira do Livro às capitais de distrito, envolvendo as autarquias e com a participação activa de livreiros locais.

  1. Alargamento da Lei do Preço Fixo, de 18 para 24 meses, estabelecendo o percentual de 5 % como desconto máximo a praticar por todos os agentes do mercado durante aquele período, evitando assim perdas irreparáveis na cadeia de valor do livro.

  1. Reforço do papel de diálogo, que é o do livro, no universo de língua portuguesa, dando Portugal o primeiro passo ao propor, no seio da CPLP e por período a estudar, a suspensão dos direitos alfandegários aplicados à importação de livros, defendendo a sua livre circulação entre Estados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Estas são acções fortes e necessárias para garantir que as novas gerações, com as ferramentas que só o livro e a leitura lhes põem nas mãos, dominem o pensamento e a linguagem, criando a ciência, o saber, a beleza, os valores e a democracia que farão de Portugal um país com futuro. É esta a missão a que todos os autores, editores e livreiros querem entregar-se. Vamos salvar Camões, Eça, Hemingway, Kant, Wittgenstein, Virginia Woolf ou Clarice Lispector do vírus fatal. Salvando-os, projectamos Portugal para um caminho de conhecimento, ciência e riqueza emocional. Hoje, dia 23 de Abril de 2020, Dia Mundial do Livro, não deixem o vírus matar Camões.

 

 

Coronavírus e o empacotamento dos velhos

 

As notícias já não são bem notícias, são uma espécie de roleta russa que nos vai revelando o número dos que não tiveram sorte. O mundo acorda e deita-se à espera de melhores dias que tardam. As pestes matam e corroem a alma aos que ficam.

Entretanto, nas águas negras do infortúnio, as televisões encontram o seu melhor mundo. Por ali passam todos os números da desgraça. Muitas vezes com rostos. Outros com os números que falam de óbitos e de mais casos, incluindo os que estão nos cuidados intensivos e até dos recuperados. Os donos dos microfones têm o poder de nos dizer o que eles nos querem dizer.

Mas também diga-se em abono da verdade que se não fosse o Covid-19 os velhos não existiam. Estavam nos tempos correntes empacotados em lares (estranha palavra que quer dizer atualmente despensa, mas que na origem significava as divindades protetoras da família – ainda me lembro de na infância se referir a ir para Penates, outros deuses protetores da casa) à espera que um fim- de- semana um familiar à vez os fosse visitar. Um velho, num mundo de sucesso, vale pouco. É uma canseira ter de pagar a um lar para ter um velho, pois num mundo de lufa-lufa um velho não dá lucro, apenas prejuízo. Num mundo dirigido pela implacável mão justiceira do mercado o velho é uma mercadoria que nem sequer dá para o inventário.

O Covid veio mostrar que afinal o mercado tem de ser ajustado, pois os velhos afinal têm um valor que não é completamente residual, antes constituem um nicho de mercado.

Ao morrerem como tordos são notícia porque apesar do frenesim da vida, as famílias ainda se lembram dos velhos empacotados ao pé de outros velhos que aguardam pacientemente que chegue o dia de alívio dos que os depositaram em Casas de Repouso. As televisões sabem quanto vale em termos mediáticos a morte dos velhos em tempos de Covid.

Na verdade, a morte de um velho, em tempos normais, não é grande notícia, não passa do esperado.

O que pode estar a acontecer é que ainda não se tenha extinguido a memória do familiar encavalitado noutros velhos em Casas de Repouso. E a televisão vai dando conta da via- sacra dos velhos infetados a caminho de onde os queiram, pois nem sempre se consegue empacotar nas devidas condições um velho, e muito menos um velho com Covid.

Nestas circunstâncias é sempre algo de muito apetecível verificar como desempacotar velhos que já não podem continuar a repoisar nos lares onde estavam a aguardar a visita do familiar, muitas vezes escolhido à sorte entre os tais familiares.

Os espectadores adoram ver estas coisas em direto, falta claro o cheiro a sujo, a urina, mas o velhinho ali está a passar um mau bocado porque afinal não repousava na casa do repouso; apodrecia.

A pandemia trouxe para a tona dos dias o quanto valem os velhos em termos mediáticos. O seu valor que andava muito por baixo subiu um pouco.

Se não fosse a cegueira do mundo talvez os que não são velhos tivessem tempo para pensar que um dia chegará a casa do empacotamento. A pandemia confina, fecha, mas pode abrir os olhos. É certo que os olhos só veem o que querem, mas se olharem e virem no presente o futuro aprenderão muito. A cegueira é a arma dos donos do tempo frenético. Outro tempo virá. O que mais tem o tempo é tempo; os velhos não.

https://www.publico.pt/2020/04/13/sociedade/opiniao/pandemia-empacotamento-velhos-1912025

 

 

 

A FALTA DO ABRAÇO

A pandemia caiu sobre a Humanidade confinando-a preventivamente nos diversos espaços onde cada indivíduo mora.

Quando a pós-modernidade enaltecia o hedonismo, a supremacia do individualismo, eis o choque para nos fazer regressar à nossa humanidade; sem os outros não nos salvaríamos. Somos seres ligados entre todos, cada vez mais, de Hubei a Nova Iorque, de Milão a Tóquio. Só em comunidade os indivíduos podem sobreviver e viver.

A juventude é a mais poderosa força de renovação humana, a que garante a continuidade da vida humana. Neste momento histórico, em que parecia estar de costas para o mundo, ensimesmada, entretida nas mil aplicações tecnológicas vale a pena reconhecer que o problema é outro.

Não são os mais velhos que são mais solidários. A rebeldia dos jovens das décadas de 60/70 estava marcada por um conjunto de circunstâncias únicas. Qualquer jovem que tivesse frequentado o liceu tinha um emprego; um licenciado era um privilegiado, não lhe faltavam boas saídas profissionais. Dispunham do futuro.

No mundo atual cada jovem para ter acesso a uma vida minimamente digna esmifra-se entre diversos ganchos, o que o favorece a atomização. A Juventude não optou pelo em consciência pelo egoísmo. As circunstâncias são estas. E elas moldam as mentes enquanto os quadros dessa normalidade se reproduzirem.

A vida esbarrou nesta crise. Não dependemos dos mercados para sobreviver. As nossas vidas dependem em última instância dos que trabalham na saúde. Pelo que nos é dado ver os enfermeiros são jovens e têm mais de um emprego para poder viver.

É curioso que, até há muito pouco tempo, muitos dos que hoje aplaudem os médicos e enfermeiros olhavam-nos com desconfiança pelas suas reivindicações. Alguns, poucos, é verdade, insultavam e chegavam a agredir enfermeiros e médicos.

São assim os humanos. Sem as leis da comunidade seriam predadores. Açambarcadores. Bichos.

Este é um tempo para enfrentarmos uma prova de fogo. Estamos todos fechados, novos e velhos, sofrendo, em solidão. Claro que podemos contactar uns com os outros e as novas tecnologias facilitam, mas um post é um post. Um abraço é um abraço. A falta que nos faz. Talvez o vírus venha a contribuir para dar ao simples abraço a sua dimensão original. Dois corpos unidos, quentes.

https://www.publico.pt/2020/04/07/opiniao/opiniao/abraco-falta-faz-1911384

 

 

 

Boris Johnson, o Coriolano

CARLOS MATOS GOMES

 

A resposta à epidemia e a metafísica

 

Há dez anos sofremos a crise do subprime, ou do Lehman Brothers. Uma crise longa, com resultados devastadores nas economias e na vida dos cidadãos europeus. Essa crise foi um fator influenciador do Brexit e da ascensão de vários políticos populistas ao governo dos seus países, na Europa e pelo mundo.

A crise do euro, dos resgates, das troikas foi aparentemente resolvida, os mais ricos ficaram mais ricos e os mais pobres mais pobres. Negócio habitual. Mas na Europa as feridas mantiveram-se e numa reunião de há dias, num conselho europeu destinado a discutir medidas de combate à pandemia do Covid-19, elas foram reabertas a propósito da questão essencial da solidariedade entre os estados da União Europeia. Vieram de novo ao cimo os nacionalismos mais ou menos racistas dos nórdicos (germânicos, também) e as visões mais integradoras dos países do sul. Ricos e pobres. Ressurgiu a velha fábula da formiga e da cigarra, a que o então ministro das finanças holandês Jeroen Dijsselbloem deitou mão, dirigindo-se aos países do sul: “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda”.

Não deixa de ser revelador que seja o governo do Estado que desenvolve a política fiscal mais agressiva de captura de capitais dos outros estados, da sua riqueza, a Holanda, o menos solidário. Que seja o Estado mais próximo do gangsterismo neoliberal o que mais desenvergonhadamente acusa os outros de mau governo!

Os nacionalistas ricos ganharam então em toda a linha, impuseram medidas draconianas de rigidez orçamental, destruíram empregos, causaram uma crise social, transferiram riqueza do Sul para o Norte, acentuaram as desconfianças entre os povos, puseram em causa a utilidade e até a viabilidade do projeto europeu e, com o argumento da inutilidade da União (que eles promovem), fizeram eleger uma piara de dirigentes populistas à custa das críticas a estas políticas, que, no fundo são as suas, as do salve-se cada um como puder, sem olhar para o lado. O objetivo final era e é matar a União Europeia como espaço decisivo no xadrez político, militar e económico mundial.

A forma como na Europa foi enfrentada a crise iniciada há mais ou menos uma década promoveu a emergência de um discurso político e de atores que, no fundo, justificaram os sofrimentos com as leis naturais, salvaram-se os mais fortes, os mais espertos, pagaram os mais fracos e desprotegidos, evitou-se o crescimento da União Europeia e a sua entrada na arena das lutas decisivas pelo poder no mundo. Esses castradores (ou capadores), que tiveram Durão Barroso como voz do dono na presidência da Comissão Europeia, minando-a por dentro, cumprindo o papel de infiltrado por conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, de Bush e de Blair, deram o que tinham para dar, estão agora na “banca privada”, são consultores eméritos, dedicam-se ao lobismo e à manipulação das opiniões públicas mascarados de comentadores. É fatal que esta presente crise ainda em desenvolvimento gere e promova novos atores, uma nova tropa de arruaceiros políticos armados com um discurso adaptado às circunstâncias e com os velhos truques embrulhados noutras roupagens.

Nas Américas, do Norte e do Sul, a nova pregação já está em pleno desenvolvimento (nunca deixou de estar) através dos evangelistas, do discurso milenarista, das mixórdias bíblicas, da promessa de uma salvação baseada na fé e no saque aos miseráveis, aos recursos naturais, no primarismo e no aproveitamento do desespero. No final, reinará o complexo militar-industrial americano. E na Europa, a nossa terra-mãe? A Europa, nunca tendo sido uma entidade política, exceto, talvez, durante as Cruzadas, dispõe de uma civilização com dois mil anos de fermentação, nascida na Grécia, uma religião milenar com o seu sistema de valores, produziu ao longo de séculos sistemas racionais de interpretação do mundo, separou a Igreja do Estado e resistiu com algum sucesso à epidemia do populismo, manteve-se em banho-maria. As injeções de venenos para matar a Europa como ator de relevo mundial têm, por isso, de ser ministradas por celebrantes mais sofisticados. A Europa é, numa imagem popular, um lar de velhas meretrizes que podem ser seduzidas, mas são relapsas às paixões. Para as rugosas madames se deixarem levar é necessário um sedutor competente, um proxeneta de alto gabarito, e os que apareceram a candidatar-se a galo da capoeira foram até agora figuras menores e sem credibilidade. A exceção foi Boris Johnson, o populista triunfante revelado no Brexit da Inglaterra.

Esse populismo triunfante parece ser o que apresenta as melhores condições para tomar o facho do populismo europeu no pós segunda crise. A situação na Europa está hoje politicamente muito mais apodrecida do que há dez anos, e os europeus mais disponíveis para acolher um salvador, alguém que convença as velhas damas de prazeres a desmontarem o bordel e a voltarem a trabalhar por conta própria. Julgo que o novo Messias do populismo da segunda vaga será Boris Johnson, apesar da imagem de desajeitado, de ser cambaleante, propositadamente desmazelado, de anti sex simbol, o que transmite confiança, pois não é agressivo, nem assusta. Há quem o apelide de palhaço. Seja. Mas o palhaço é a alma do circo! Boris Johnson lembra-me uma personagem de Shakespeare, Coriolano, por sua vez inspirado na obra de Plutarco «Vidas dos Nobres Gregos e Romanos».

A tragédia Coriolano deve ter sido a última escrita por Shakespeare e expressa a visão de um observador genial da humanidade no ocaso da vida. Coriolano reflete uma opinião desiludida, irónica, depressiva da humanidade, num anticlímax, como o que hoje vivemos. Shakespeare, em Coriolano, apresentou os poderosos do mundo fascinados por eles próprios, narcísicos, orgulhosos, atentos às circunstâncias e, principalmente às suas conveniências, mas também cegos e sem consciência dos seus limites. Personagens que atraem multidões e provocam emoções, como os cometas. Os ingleses utilizam a expressão “we are doomed!” (estamos condenados, ou lixados) quando querem referir a aproximação de um cataclismo, que tanto pode ser um raio letal, um asteróide, como um maltrapilho com poderes mágicos e de quem se espera o melhor e o pior. Apostam neles como nos cavalos de corrida! Já agora, ad latere, um dos grandes campeões no século dezanove teve até o portuguesíssimo e vernáculo nome de “Filho da Puta”!

Não sou, muito longe disso, especialista em Shakespeare (aliás, não sou especialista em coisa alguma), mas por razões que não vêem ao caso emprateleiram-se cá por casa muitas obras de Shakespeare em várias versões, maioritariamente em inglês, entre elas encontrei uma tradução em português, da antiga Lello & Irmão, do Porto, de que me voltei a servir com o gosto da releitura em circunstâncias diferentes. Coriolano já constituía para mim a personagem mais fascinante da galeria de Shakespeare. Era, em meu entender, a personagem mais diretamente envolvida na luta pelo poder. Apesar de Coriolano ser apresentado por alguns conceituados shakespirianos como um antipopulista trágico, agora, ao reler a tragédia com os olhos de hoje, deste tempo, vi nele a matriz do que imagino será a nova vaga de políticos populistas que irão surgir na babugem da crise e de que Boris Johnson me parece ter as condições para servir de referência, ou modelo. É a minha leitura. Rever a personagem de Coriolano pode ajudar a conhecer o mais brilhante dos seus sucessores, aquele que, julgo, será o líder populista do futuro na Europa.

Ler Coriolano ajuda-me a compreender Boris Johnson, que é, em minha opinião, o mais insidioso e eficaz vírus do populismo europeu. Shakespeare, através de Coriolano, explica não só como chegámos a esta espécie, como nos fornece pistas sobre modo de infetar dos vírus que lhe sucederão. Boris Johnson é um revelador das pandemias futuras, daí a sua importância.

Tal como Coriolano foi no seu tempo de cônsul romano, Boris Johnson é um aristocrata a vários títulos, por origem familiar, por pertença social, por cultura, o que o distingue das torres de Trump ou de vermes como Bolsonaro. Boris Johnson, tal como Coriolano, entende e assume que para os nobres como ele as virtudes e defeitos são naturais e equivalem-se, são inseparáveis e da mesma grandeza. Para ele, as virtudes, sendo privadas, servem pouco na arena amoral e impiedosa da política. As ações arbitrárias são bem-vindas sempre que reforcem o poder. O crime é um instrumento, nada mais. Desprezam a virtude, a moral, a ética. A natureza de personalidades como Coriolano ou Boris Johnson não se altera perante qualquer catástrofe, e apenas temem aquilo que Aristóteles designou como erro trágico, ou hamártia, o mal (o que neles equivale a uma ação com maus resultados) cometido pelo protagonista de uma tragédia, que origina a peripécia que o derruba.

Não deixa de ser revelador que seja o governo do Estado que desenvolve a política fiscal mais agressiva de captura de capitais dos outros estados, da sua riqueza, a Holanda, o menos solidário. Que seja o Estado mais próximo do gangsterismo neoliberal o que mais desenvergonhadamente acusa os outros de mau governo!

Boris Johnson, tal como Coriolano, governa em conflito, de um lado a sua arrogância pessoal, de aristocrata e do outro a realidade política, que o opõe aos tribunos populares, no caso atual os membros do parlamento inglês escolhidos para representar os interesses das pessoas comuns, os eleitores. No Brexit, Boris Johnson agiu como Coriolano contra os tribunos, os MP, incluindo o simpático que gritava Order!, pateticamente, e que tentavam bloquear as tentativas que levou a cabo de impor a sua vontade e de se apresentar ao povo como o herói que lhe satisfez as suas aspirações, incluindo as traições a Theresa May. Boris Johnson, tal como Coriolano, pretende governar saltando por cima dos deputados e do parlamento e fá-lo-á, está a fazê-lo. Este salto, ou by pass, é o sonho de todos os líderes populistas, mas ele conseguiu implantá-lo sem dor e com a conivência dos subjugados. Venceu a guerra sem combate, a prova do génio do general, segundo Sun Tzu. O Parlamento Inglês é hoje um balcão da geral dos teatros onde uma claque bate palmas ao cônsul Boris Johnson, agora com poder absoluto (apesar de infetado) depois de banir os adversários. Resistem os bárbaros escoceses, mas julgo que se servirá deles, soltando-os do Reino Unido sem real tristeza, para se servir da sua secessão como exemplo a seguir por outros nacionalismos europeus…

Na peça de Shakespeare, tal como na atuação de Boris Johnson, vemos num primeiro ato uma mistura de elementos aristocráticos e democráticos e, num segundo, a derrota do regime de poderes balanceados que existiu no senado até Coriolano tomar o poder. Boris Johnson, do mesmo modo que Shakespeare representou Coriolano, toma a multidão e seus tribunos eleitos como os inimigos da prerrogativa hierárquica e, no seu caso, aristocrática.

Os líderes populistas europeus pós crise vão copiar os métodos de Boris Johnson e seguir os seus princípios. O seu programa assenta no confisco do poder pela demagogia, mesmo à custa de provocar a anarquia, o que para os ingleses pode ser aliciante. A apregoada disciplina dos ingleses é aparente e fruto de uma sociedade estratificada e hierarquizada. Sóbrios, os ingleses são obedientes, nada mais. O modo como os lordes tratam os criados, os cavalos e os cães são exemplares da ordem inglesa. As assistências aos jogos de futebol da Premier League explicam a diferença entre a sobriedade e a bebedeira nas classes médias e baixas inglesas, nas multidões.

Em Coriolano os homens são guiados por uma luz que os cega. Boris Johnson sabe que a multidão é facilmente encadeável e manipulável. Não tendo nenhuma filosofia política consistente, a multidão seguirá qualquer pregador que saiba aliciá-la com promessas agradáveis. A partir da tomada do poder fornecerá um programa de venda contínua de emoções. Será um take away de promessas. Receberá o desprezo das multidões e o aplauso com o mesmo sorriso e o mesmo gesto de desgrenhar os cabelos. É o comportamento que vemos à porta do 10 de Downing Street, ou na entrada do Parlamento. Para ele a multidão, a populaça, é uma “hidra com muitas cabeças,” sem direção e irresponsável. Em privado, falando aos da sua classe, Coriolano descreve a multidão como uma turba mal cheirosa, “de hálito fedorento”, “pescoços enfumaçados”, “fétidos bonés engordurados” e “dentes sujos”. Os cidadãos romanos são um rebanho, “comedores de alho”, “patifes como as raposas e os gansos, insolentes e sediciosos”.

Esse retrato deliberadamente repulsivo de Coriolano sobre os romanos não é muito distinto do que Boris Johnson terá dos londrinos e dos ingleses em geral. Excrementos. É o mesmo que o ministro das finanças holandês tem dos latinos e os populistas latinos, que Le Pen, Salvini, o espanhol do Vox e o português do Chega têm, por sua vez, dos ciganos e imigrantes em geral.

Os novos tribunos que surgirão no rescaldo desta crise do Covid-19 estarão dispostos a desencadearem a violência da multidão para alcançarem os seus objetivos, encorajarão a “populaça” a agitar-se à sua ordem. A sua estratégia, como a de Coriolano, será a de fomentar o clamor, sobrepondo a histeria à razão, como escreveu Shakespeare. Na peça de Shakespeare os tribunos temem que Coriolano busque “um só trono, sem assistência” e que suprima as liberdades. Não é um medo infundado, e os próprios amigos de Coriolano o aconselham a somente atacar os tribunos, os eleitos, apenas depois de alcançar o poder, não antes.

A insolência aristocrática de Boris Johnson é a reprodução do desprezo de Coriolano pelo povo de Roma, a quem tratava como “trapaceiros discordantes” e como “cães rafeiros abaixo da abominação”. Boris Johnson demonstrou durante o processo do Brexit ser relutante no cumprimento da Constituição (de normas arrevesadas para um não indígena) e em submeter-se aos cidadãos, mas soube interpretar com falsa humildade o papel de leal servidor da Coroa que eles lhe pediram em troca doa seus votos.

Melhor morrer, definhar de fome
Que mendigar a paga que merecemos.
Por que ficar aqui em túnica de Job
A implorar a um José Ninguém
O seu voto dispensável

“É um papel, que eu até coro ao representá-lo,” confessa Coriolano aos seus amigos na peça de Shakespeare. Mesmo aqueles que admiram os seus talentos concedem que é desagradável aceitar bajular o povo para ter o seu amor, mas esse é o preço a pagar para não ter contra ele a sua má vontade, ou, pior, o seu desprezo. Coriolano professa em público o amor ao seu país, mas é um patrício e tornar-se-á um traidor contra uma Roma que dá voz política aos plebeus que ele tanto abomina. É assim também o seu patriotismo — o amor à Britânia pátria amada — de Boris Johnson e dos populistas que o imitarão. Aconteça o que acontecer, Boris Johnson acredita como Coriolano que as prerrogativas da aristocracia (seja a de sangue seja a dos negócios) são os únicos bastiões de Roma (tal como de Londres) contra o caos. Boris vê o povo como um seu rebanho privado, insaciável e irracional, instintivamente invejoso dos seus melhores, mas felizmente incapaz de compreender às subtilezas do governo — a série Yes Minister é uma boa caricatura da apreciação do povo feita pelos líderes populistas. Coriolano sabe que a tendência que hoje diríamos do politicamente correto, a moda, é a de agradar às exigências populares com o compromisso, mas os populistas preferem uma escaramuça a fingir de batalha, como Boris Johnson no conflito para a aprovação do Brexit. Ele tentará que os outros acreditem que o erro está no mundo em vez de em si.

A tragédia Coriolano descreve uma sociedade fascista? Coriolano era um proto-fascista? Há que analisar as situações no seu contexto histórico. O fascismo contém elementos de populismo, de egoísmo, de demagogia, de racismo, incluindo o de classe social e atores como estes da tragédia Coriolano, mas o populismo Boris Johnson e dos que o replicarão será uma adaptação do poder dos tiranos à capacidade de ler a realidade das contemporâneas sociedades caraterizadas por fracos laços de coesão, constituída por indivíduos atomizados e à mercê das tecnologias da manipulação.

Que antídoto para os Coriolanos? Identificá-los e barrá-los à nascença, por muito fascinantes que pareçam as suas promessas e até as suas vitórias. Levar Boris Johnson a sério ajuda. Como ajudou Ulisses a escapar ao canto das sereias, porque conhecia o resultado de seguir os seus cânticos.

Qual o fim de Coriolano?

Coriolano acaba morto por Aufídio, o general aliado, depois de o ter traído assinando uma paz com Roma. A sua morte foi necessária para que a sociedade romana pudesse reconstruir um regime republicano (democrático). Coriolano foi vítima do seu êxito, sacrificado para instaurar uma nova ordem. Boris Johnson sabe, como Coriolano, que o seu caminho só pode terminar com a sua morte política. Se negociar com Bruxelas um acordo, mesmo que seja um acordo favorável a Inglaterra, estará morto por não ter conseguido a vitória absoluta de destruir a União Europeia. Se tiver destruído a União Europeia estará morto porque nada mais lhe resta do que ser um herói inútil.

Na peça Galileu de Bertold Brecht, o seu destino é o do herói que não encontra quem precise dele.