Teses do XXI Congresso do PCP – petrificação doutrinária

Um organismo que não se renova petrifica, o que é um mal, quase sempre, incurável. A incapacidade para se renovar pode decorrer da própria natureza do organismo ou de quem o dirige. A renovação implica ter a noção da importância da manutenção da força para atuar de modo consequente no presente e no próprio futuro.

A perpetuação de um grupo dirigente no poder é mais do que meio caminho andado para o anquilosamento, na medida em que estabelece um conjunto de princípios visando, no essencial, assegurar a continuidade no comando, e afastar ativistas que não são fiéis.

Quando se proclamam certos princípios intemporais, sem demonstração da atualidade, dogmatiza-se a teoria. Se em finais de 2020 se age como se o mundo fosse o de novembro de 1917 ou chegou a cegueira ou se pretende afastar quem se empenha em atualizar o pensamento e a ação no mundo dos nossos dias. A identidade não é estática, está em constante atualização. O Livro das Mutações foi escrito na China há mais de quatro mil anos e Camões há mais de quinhentos já falava que todo o tempo é composto de mudanças.

O programa do PCP defende que a soberania reside no povo e, por outro lado, nas Teses para o XXI Congresso defende como condição essencial…”a existência de uma força revolucionária de vanguarda capaz de, em cada país, dirigir a luta pela conquista do poder pelos trabalhadores…”. O que quer isto dizer? Uma ladainha para afastar quadros que nunca engoliriam esta mixórdia e assim manter na direção do partido um conjunto de quadros contentes com o poder que ainda têm, mesmo que diminua a olhos vistos ou é para ser lido tal como implica a semântica? Neste caso cabe perguntar tendo em conta os resultados eleitorais nada abonatórios com que trabalhadores vai o PCP assegurar a conquista do poder?  

Já nem o PCUS, nos seus últimos anos de vida, defendia ser vanguarda estatutariamente, o que Álvaro Cunhal acolheu, pois que a existência de uma vanguarda não pode ser conferida constitucionalmente, mas antes na sua capacidade de influenciar e dirigir.

Ora o PCUS com os seus vinte milhões de membros, fora a Juventude do Komssomol (50 milhões), não foi capaz de mobilizar metade de um por cento dessa militância para fazer frente a Boris Yeltsin que com alguns milhares de manifestantes se apropriou do poder. Grande partido de quadros de vanguarda sentados nas suas cadeiras de mando.

A defesa “teórica” de um modelo em que uma direção se perpetua visa afastar do partido mulheres e homens que mobilizados para a luta pelo ideal socialista não aceitam aqueles supostos dogmas jazentes no caixote do lixo da História.

 Os dirigentes da URSS viraram donos das fábricas, salvo raras exceções. Virou o disco, mas os regentes da orquestra são quase todos os mesmos.

Na análise que o PCP faz do mundo na entrada das Teses revela uma obstinada petrificação destinada a manter os fiéis unidos em torno de um mundo imaginário que é o mundo dos que pensam e agem como a direção do PCP, que aliás são cada vez menos.

Por isso, os constantes alertas e denúncias em relação aos que dizendo-se comunistas não passam de reformistas e liquidacionistas por se afastarem dos princípios definidos pelo PCP, o guardião do cofre dos princípios vazios de vida. O que parece contar é o verbalismo, a recitação de grandes tiradas desfasadas da realidade, incapazes de fazer o partido avançar. Que bem os retratou Vladimir Illich Ulianov (na obra acerca da doença infantil do comunismo) que não foi um santo, mas o chefe dos bolchevistas que liderou a revolução russa há 103 anos. Se lhe seguissem o exemplo no que concerne ao estudo das ideias de Marx e dos seus seguidores posteriores, mas ficaram-se pelos camaradas Suslov e Ponomariov que proclamaram a URSS eterna e a metros do comunismo. Como se viu. A petrificação é uma doença incurável, nada a fazer.

https://www.publico.pt/2020/11/11/politica/opiniao/teses-xxi-congresso-pcp-petrificacao-doutrinaria-1938804

As faltas, a falta de pernas e de fair play e a falta crónica de humildade de Jesus

Após o mais forte ter derrotado o mais fraco, é muito provável que se tenha aberto um caminho de reflexão na cabeça do derrotado para saber o que tinha de fazer para vencer.

Cada um pensou nas forças e debilidades próprias. Cada qual aprendeu a olhar para si e para o outro estudando-o o melhor possível para definir os passos e as manobras para vencer.

Na História ficaram registados confrontos extraordinários em que os mais fracos venceram os gigantes. Desde logo David que venceu Golias. E a derrota de Sansão porque habilidosamente lhe cortaram o cabelo.

Todos os povos e todas as nações devem ter tido batalhas decisivas que se travaram em condições adversas. Aljubarrota não deve ser única.

Sempre aquele que estava em situação muito mais desfavorável procurou travar o confronto em condições que impedissem o mais forte de espraiar a sua força.

A primeira tarefa é manietar a força do mais forte, levando o opositor para terrenos onde não possa manifestar o seu poderio, encurralando-o, desaparecendo, atacando inesperadamente e fugindo, ferindo, obrigando-o a um esforço superior e à instabilidade no terreno e emocional.

Quando o “exército” português face ao de Castela escolheu travar a batalha naquele terreno – Aljubarrota- e da forma organizada como o fez teve sempre em vista que o mais forte podia ficar mais fraco verificadas um conjunto de situações planeadas e a executar.

Quando o Benfica se desloca ao terreno do Boavista a disparidade da força é enorme. Ou do Porto em Paços de Ferreira.

Aquele que tem menos poder vai escolher e planear ao milímetro o modo como se defender e atacar. Vai escolher as suas melhores armas. Não vai lançar-se em turbilhão contra o Benfica. Vai esperar pelo repertório do outro e quando lhe for possível apresentar as suas armas e desferir os seus golpes. Tanto melhor quanto mais convencido estiver o mais forte que acabará por ganhar devido ao seu estatuto.

Jorge Jesus não nasceu no Benfica, nem no Flamengo, nem no Braga para o futebol. Veio há muitas dezenas de anos, desde o Freamunde e passando por muitos parecidos.

Às vezes essa situação ajuda os que sobem ao topo a ter os pés assentes na terra; outras vezes não. Um treinador pode dizer muitas coisas, mas as que disser, se mais tarde foram incoerentes com outras, os comandados tendem a não as esquecer e elas , as incoerências, não matam, mas moem.

O Benfica é um clube português que joga a 1ª Liga e precisa da melhor classificação para chegar à Champions. E não chegou aos melhores porque foi pior que o PAOK. A verdade nua e crua. Para ir onde não foi, o Benfica tinha de ter sido melhor. E na Grécia faltaram-lhe pernas. Faltas.

A mania das grandezas nunca fez bem a ninguém. Há sempre um clube “safardana” que mostra que os Reis também têm nudez. Foi o que fez o Boavista. À arrogância, Vasco Seabra respondeu com a máxima humildade.

E não deixou o GRANDE BENFICA DE JORGE JESUS jogar. Manietou-o. Quando um jogador de muitos milhões do Benfica tinha a bola apareciam os operários do Boavista em número suficiente para o não deixar jogar, às vezes cometendo faltas.

As faltas sempre existiram e existirão. Quando um dos chamados GRANDES entra em campo contra um dos outros já sabe ao que vai. Tem de saber que o menos forte vai quebara o ritmo, enervar, carregar e tentar sair das tenazes do mais forte. As faltas são componentes do jogo e reguladas nas suas leis, logo dele fazem parte. Os meninos betinhos que não querem sujar os calções gostariam que os meninos do bairro se aninhassem e deixassem os dos milhões vencerem.

Quando assim for( o que nunca será, malgré Jorge Jesus) acabaria a competição. O futebol são onze contra onze e no fim não ganham os alemães, talvez ganhem mais vezes não por serem alemães, mas por serem mais organizados e combativos. E isso já o demonstrou o nosso engenheiro contra a França em 2016. E quiçá o venha a demostrar mais vezes.

Concluindo – as faltas não podem ser a justificação para a falta de pernas , Mister Jorge Jesus. Haja fair play.

Que surpresa – nem parecia o Marcelinho das selfies

Sim, é verdade, um vírus, algo que se não vê a olho nu, ameaça a Humanidade. Toda a fragilidade humana veio ao de cima. Bem podemos ir à Lua, ficar meses a fios no Espaço a desafiar a gravidade, descobrir vírus, que nem por isso deixamos de ser seres efémeros, que morremos e acabamos literalmente, ou seja, passamos a nada. Depois do nada já vai da crença de cada qual.

Sabe-se da importância da vida e da morte no caminhar da Humanidade. E do amor. Se repararmos bem os grandes temas desde Homero a Shakespeare, de Goethe a Saramago, de Ovídeo a Camus são sempre os mesmos retratados à luz das circunstâncias. A morte enche a vida. Há até uma televisão lusitana que tem correspondentes em todo os cantos para apanhar todas as mortes desde o trator que vira à mãe que mata o filho algures.

Os media descobriram que nos podiam ter ligados todo tempo se nos falarem do vírus que se espalha e mata.

É o confronto entre o hedonismo de uma sociedade super individualista e a efemeridade de quase tudo, embora o vírus tenha escolhido atacar os mais frágeis, como em tempo de globalização em que os grandes engolem os pequenos.

Todos os animais “aceitam” a efemeridade porque dela não têm consciência, enquanto os humanos padecem desse mal/bem. E daí os seus Deuses, alguns que vieram para transformar a efemeridade em felicidade eterna nos paraísos diversos consoante os Deuses, suplantando a efemeridade terrena.

Quem sabe diz que se sabe um pouco mais do que no início do ano, mas que falta saber muito. Assim se pronunciam os sábios, os que se empenham até aos cabelos em descobrir o que falta. Porém há quem não sabendo o que os sábios sabem, sabem navegar entre os difíceis caminhos sinuosos e contraditórios próprios dos peregrinos da ciência.

E descobrem o que está descoberto – que neste caminho há contradições, suposições que se não verificam, erros muitos, falta de planeamento. É verdade isso e muito mais. Que é difícil saber o que fazer o que seja mais certo entre conter a pandemia e manter a economia para não se viver penúrias de bens e as suas consequências.

Na passada segunda feira José António Teixeira avançou para entrevistar Marcelo com uma planificação bem detalhada. Colocando Marcelo entre Sila e Caribe bem lhe assobiou para o atrair ao ataque aos denominados erros crassos do governo e sobretudo de Marta Temido. Marcelo regressou à Faculdade e deu uma aula acerca da história do vírus e de outras pandemias. Só que não era essa a planificação da RTP1 apostada por via do entrevistador em mostrar as fraquezas da ministra, do SNS, do governo e da própria comunicação das autoridades político/sanitárias etc,.

Marcelo, muito hábil, aproveitou para deixar os cânticos das sereias onde estavam e partiu explicando ao que ia, defender no essencial o que foi feito. Ele bem sabia porque o fazia, assumindo-se como o primeiro responsável por tudo quanto sucedeu.

António José Teixeira levou uma lição de estratégia bem planeada e logo ele que ia todo lampeiro falar da falta de planeamento estratégico do governo.

A pandemia está por todo o lado a colocar em cima da vida a nossa finitude, a morte que nos acompanha há milhares de anos. É essa consciência tão evidente que deprime e cansa. Ainda por cima sem fim à vista, como é próprio das vagas. Raramente se está preparado para a morte e muito menos está uma sociedade que esconde a velhice e atrai para a tona da vida o que brilha de jovem. É a sociedade do atira ao lixo o que não dá lucro. A efemeridade é a sua força de atração. Os velhos já deram lucro. Estão agora em contramão. Empacotados morrem sem ninguém que o vírus não deixa.  

Os que mais fizeram para que as coisa se encontrem neste pé, pois a iniciativa privada é fundamental para confinar os velhos face ao abandono do Estado, até no licenciamento, são agora os que mais zurzem e atacam a situação que também criaram.

Valha-nos a lição de Estado de Marcelo à RTP1. Nem parecia o Marcelinho das selfies.

https://www.publico.pt/2020/11/03/opiniao/cronica/surpresa-parecia-marcelo-selfies-1937778

Ai os nossos deuses, que parecidos connosco…criaturas ou criadores?

É curioso observar as divindades que a Humanidade foi criando desde os primórdios até à contemporaneidade. Os homens não passavam sem os seus deuses e as suas deusas.

Em diversos momentos trágicos ou alegres inventaram as divindades adequadas a esses momentos e circunstâncias.

Os humanóides que se ergueram para caminharem e percorrerem novas distâncias vendo o mundo de outro modo talvez ousassem nas suas representações da realidade alcançar o inalcançável. Imagine-se o ribombar do trovão, o barulho lúgubre dos terramotos, a força das ondas do mar, a escuridão da noite e os seus reflexos na cabeça de quem não tinha explicação para decifrar a Natureza.

Não espanta pois que muitas das primeiras divindades fossem o Sol, a Lua, a própria terra que dava alimento.

Os deuses da Grécia da Antiguidade não passavam de representações das mentes humanas.

Sendo a civilização mais avançada e pronta a dominar tudo em volta, os gregos das cidades Estado da imaginaram deuses à medida dos seus sonhos e aspirações.

Tal como na sociedade tinham um vértice também entre as muitas divindades. Umas obedeciam a Crono, Deus máximo derrotado e escorraçado por Zeus.

Segundo Ésquilo, Prometeu ajudou Zeus a derrotar Crono, mas tal como, em geral, os humanos, uma vez no poder os amigos já não faziam tanta falta e Prometeu afastou-se de Zeus, tal como descreveu Ésquilo, supostamente.

Não que sem antes quando soube que era vontade de Zeus substituir os humanos, seres efémeros, por outros, aniquilando-os, Prometeu com pena deles colocou à sua disposição a arte de adivinhar”… a mais bela de todas as ciências, as dos números e a composição das letras que conserva a memória…” a farmácia, arte de jungir os animais, as estações do ano, e sobretudo o fogo.

Prometeu a bem dizer deu tudo o que fez dos humanos verdadeiramente humanos.

Zeus nunca mais lhe perdoou. E condenou-o a ficar amarrado em cima de uma montanha no Cáucaso por milhares de anos dada a sua natureza imortal. O fígado de Prometeu alimentava uma águia que nele se cevava.

Esta posição de Zeus não teve a unanimidade dos deuses. Poucos ficaram do lado de Prometeu. Os humanos mal-agradecidos viraram as costas ao altruísmo de um imortal a favor dos mortais.

Muito mais tarde, Cristo seria crucificado e o povo da Judeia e Galileia nada fez pela sua libertação, deixando-o morrer na cruz. Três dias depois ressuscitaria. Prometeu aguardou por Atlas para o libertar cerca de vinte mil anos mais tarde.

Os deuses da Antiguidade eram como os homens desse tempo, fossem eles gregos ou romanos.

Os deuses que os humanos tinham na Antiguidade já não eram mais necessários. Os oprimidos do Império romano precisavam de outro Deus e apareceu Jesus Cristo, o filho de Deus, que veio ao mundo para anunciar a vida eterna. E então todos os outros deuses de séculos atrás tinham de ser esmagados pela nova Anunciação.

Os judeus na mesma linhagem monoteísta, mas sem aceitarem que Deus se tenha tornado homem para redimir os pecados. Abraão, o patriarca, acaba por se insurgir contra a idolatria e defende um Deus único.

O mesmo sucedeu aos beduínos e comerciantes do Próximo Oriente. Um novo Deus foi anunciado. O Profeta anunciou que só havia um Deus, o único e todo-poderoso Alá.

Na região do Médio e Próximo Oriente, na zona então civilizada e civilizadora, nasceram as três grandes religiões monoteístas que nunca mais acabariam de se digladiar fazendo das suas guerras de uns contra os outros montanhas de cadáveres, a maior parte de vítimas inocentes.

Aqueles Deuses – Jeová, Cristo e Alá – foram pretextos para verdadeiras guerras de saque e consequentes razias e mortandades. Era o tempo em que os homens invocavam o interesse de Deuses que sempre se mantiveram até hoje no mais completo mutismo. Até há muito pouco tempo. Até ao presente.

No Oriente mais longínquo onde o monoteísmo não teve tanto impacto nem por isso hindus, budistas e confucionistas deixaram de pregar a superioridade dos seus ensinamentos levando-os pela força das armas a quem não os seguisse.

Após releitura da tragédia “Prometeu”

A orfandade do PS nas presidenciais e a importância de ser segundo

Aproximam-se a passos largos as eleições presidenciais. Merecem reflexão. Marcelo caminha levado pelo glamour do som tremendo para a reeleição e amparado nos media que o acompanham desde o mergulho em qualquer riacho até à impenitente vontade de servir a pátria exibindo a peitaça para receber a vacina contra a gripe.

São conhecidos os imensíssimos saberes de Marcelo. Poucos se podem gabar de possuírem uma panóplia de conhecimentos como ele. É o último vendedor de fumo de palha.

O problema sendo esse, é também outro, sobretudo para os cidadãos comprometidos com os ideais republicanos, laicos e socialistas. Sim, socialistas. Os ideais socialistas persistem e ganham outra força face à deriva neoliberal capitalista.

Sim, o Presidente da República não é a rainha do Reino Unido. Tanto que não é que o vemos por tudo e por nada, basta um acidente ou um trepador ganhar uma etapa. É muito mais. Portugal ganhou outra modernidade em 05/10/1910. Outros optaram pelo passado. E mantêm esse passado no presente, até o filipismo passadista se tornou presente na vizinha Espanha.

Pois bem, seria de esperar que correntes laicas, republicanas, socialistas e de esquerda não se entrincheirassem cada uma a pensar em si oferecendo em bandeira de luxo a Presidência da República a alguém que durante o seu percurso de vida se afirmou contra os postulados laicos e socialistas.

O PS há muito desistiu de lutar por ter um Presidente que responda aos seus valores. Sócrates hipotecou o cargo fazendo penar Alegre até ser segura a vitória do enfatuado de Boliqueime, o doutor de York.

Costa arranjou-se com um capaz de arranjar tanta audiência como a Cristina, com quem partilha angústias existenciais.

Costa, órfão de si próprio, escolheu o omnipresente, deixando também o PS órfão; aliás fê-lo bem sabendo que seria assim, tendo na Autoeuropa feito ao PS o que Brutus fez a Júlio César, na versão shakesperiana.

O mal, para além desse, é outro, não menos grave e que tende a passar despercebido.

As outras forças situadas à esquerda do PS em vez de se esforçarem por encontrar uma mulher ou um homem que federasse as várias sensibilidades avançou cada uma  com os seus candidatos, sabendo que apenas estão a competir entre si, a ver quem é mais do que o outro.

Com Costa e Marcelo irmanados e com tantos problemas existentes, velhos e novos com a pandemia, alguém que sendo o pior que o sistema tem, apresenta-se  “contra” o sistema para tentar capitalizar o descontentamento da situação.

Um grande problema será barrar o caminho de modo que o ex-comentador da CMTV não fique em segundo lugar nas próximas eleições.

Costa quer Marcelo e acredita no seu chapéu. Com esta crença deixa o PS entregue ao homem de circunstância. Amalgamados funcionam como o sistema, assim pretende o pescador de águas turvas. Os que neste concreto momento escolheram ver quem fica à frente de quem ajudam à festa, mesmo sem o querer.

https://www.publico.pt/2020/10/28/politica/opiniao/orfandade-ps-presidenciais-importancia-segundo-1937077

Ponham bem os olhos no vírus “chinês”

A China tInha no dia 18 de outubro 90.955 casos de infeção, 4.739 mortos e 421 casos ativos, sendo a população mil milhões quatrocentos e dois mil e quinhentos e nove habitantes; os EUA 8.140.728 casos, 219.599 mortos e 4.700.425 casos ativos, sendo a população 329.634.908; Portugal 99.911 casos, 2.181mortos e 38.730 ativos e a população 10.276.617.

É brutal a diferença entre a capacidade da China de fazer frente à pandemia, reduzindo-a a uma insignificância e os EUA, o país mais rico e poderoso do mundo, que também acabou por ganhar a liderança na incapacidade de combater o vírus, apesar de toda a capacidade científica instalada, sobretudo nas mãos das transnacionais e centros universitários privados.

A capacidade de um Estado proteger a saúde dos seus cidadãos é seguramente um fator de relevo para a sua apreciação interna e também externa.

Quando o mundo acorda todos os dias atordoado pela capacidade destrutiva do vírus espalhando-se assustadoramente, e não se vê nos tempos que se aproximam como pará-lo, seria interessante dar maior atenção ao porquê da diferença abissal entre uma e outra situação.

Com todo o seu milenar modo de ser, os chineses recomeçaram a sua vida e estão de novo a crescer do ponto de vista económica, enquanto todo o resto do mundo levou um valente trambolhão, estando numa situação muito difícil, sobretudo, na Europa os países cuja divida era acentuada, como o caso de Portugal.

A população da China é cento e cinquenta vezes maior que Portugal e tem 421 casos ativos.

Independentemente do juízo de valor que cada um(a) possa fazer sobre o regime político no poder na China, a verdade é que aquele país tem dado (até agora) uma lição serena, sem se pôr em bicos em pé, de como debelar o vírus e proteger a sua população, mantendo a economia a funcionar em pleno e a crescer.

Contrasta com o destrambelhamento esquizofrénico da Administração Trump, incapaz de conter o vírus e de proteger a saúde da população, tendo até ao dia 18 quase 220.000 mortos.

Quando Trump envereda pelo caminho tortuoso e ridículo da curandice, apresentando a sua infeção (se é que a teve) como dádiva de Deus, há que pensar o que está a acontecer às instituições liberais daquele país para que das suas fragilidades surja uma criatura autocrática pronta para não aceitar os resultados eleitorais para tanto dando força a organizações de caráter fascista , racista e supremacista muito próximas do Ku Klux Lan.

Se não fosse um ignorante, e tivesse vergonha, respeitaria a comunidade científica ou era coerente até ao fim e embebedava-se de lixívia em vez de tomar (se é que tomou) Regeneron.

O mundo não está bem, já não estava, mas a pandemia tudo agravou. Parece valer a pena estudar o que a China está a fazer, tendo em conta os resultados, pelo menos até agora e atento os dados disponiveis.

https://www.publico.pt/2020/10/19/opiniao/opiniao/ponham-bem-olhos-virus-chines-1935877

Pode o mais fraco vencer o mais forte?

A resposta poderá à partida ser – não, o mais forte vence o mais fraco. Porém, o simples facto de se enunciar a possibilidade, ela passa a existir. Prometeu deu aos mortais, segundo Ésquilo, a cega esperança. É com ela que com toda a lucidez o mais fraco pode derrotar o mais forte.

O mais fraco para vencer o mais forte tem de escolher muito bem as suas armas e ter um elevado espírito de sofrimento.

O que significa saber escolher as armas? O mais fraco deverá saber que todos os fortes têm alguns, mesmo que poucos, pontos fracos. Saber identificá-los é fundamental. E depois saber como aproveitá-los e esperar com toda a paciência pela oportunidade para desferir os seus golpes.

Pode até deixar o mais forte atacar à bruta criando-lhe a convicção que a vitória chegará. Terá sempre em mente que o sofrimento do ataque do mais forte poderá suportar um contra ataque, como numa guerrilha.

O Benfica é bem mais forte que o Rio Ave. Se é. A lei da normalidade imperou porque o Rio Ave se comportou como se fosse igual ao Benfica e não é. Esse foi o erro de palmatória.

Gosta de sair a jogar curto. Chegou a ser confrangedora a forma como os vileiros perdiam a bola face à pressão dos benfiquistas. Em vez de lançar a bola por cima dos médios do Benfica que estavam adiantados a suportar a pressão alta andavam em rodriguinhos e perdiam a bola a poucos metros da baliza. O segundo golo é um exemplo do que se acaba de dizer – entretidos a brincar com a bola perderam-na e deixaram quatro contra dois.

Não estudaram a lição dada pelo Marítimo no Dragão. Se o tivessem feito e fossem mais humildes podiam ter colocado outros problemas ao Benfica. Assim levaram três e podiam ter levado mais tantas foram as perdas de bola frente à baliza.

Conclusão:

Para o mais fraco bater o mais forte não se deve comportar como se fosse o que não é. Para vencer terá de sofrer e escolher os ataques cirúrgicos ao mais forte e resistir. Só assim o mais fraco poderá vencer.

Uns pingos de decência e a direita perde a cabeça

No debate que tem vindo a ocupar o espaço público em torno das prioridades quer orçamentais, quer da futura aplicação dos fundos provenientes da União Europeia, é interessante dar conta da abordagem da direita acerca destas prioridades.

A direita tradicional invoca a proteção em abstrato da família como legado cristão, mais da Igreja católica que das outras fés cristãs, particularmente importante como a protestante do Centro/Norte da Europa.

Como se sabe no tempo de Jesus Cristo não havia empresas, a imensa maioria do povo judeu sob ocupação romana era constituída por agricultores, pescadores e artesãos.

Conhecendo-se bem a predileção de Cristo pelos pobres é curioso observar que este mundo está no essencial determinado pelo mundo da finança, dos super-ricos e sacerdotes desse ofício ou simples seguidores dos caminhos do ouro.

Neste contexto global nunca é demais ter consciência que em cada crise que tem surgido nas últimas décadas os ricos têm ficado mais ricos e os pobres mais pobres.

Em Portugal no final de 2016 havia 2.399.000 portugueses em risco de pobreza segundo os dados do INE. Apesar de alguma recuperação com o governo de António Costa, apoiado nos partidos da esquerda, a pandemia empurrou os números em mais algumas centenas de milhares.

2153 bilionários detêm mais riqueza que 60% de toda a população mundial, segundo a ONG- Oxfam, antes da pandemia.

Na discussão do OGE o que pretendem o CDS, JL e o próprio PSD? Face às mais que tímidas medidas viradas para a proteção social do Estado (muito insuficientes para acudir à população) desencadeiam uma guerra mediática contra o investimento público (irrisório) e contra o apoio às famílias, exigindo maior apoio às empresas, como se as pessoas existissem em função das empresas e não as empresas para servirem as pessoas. A empresa foi uma extraordinária invenção para servir os seres humanos. Entretanto, o Presidente do CDS chega ao cúmulo de atacar as famílias por receberem subsídios em vez das empresas, criticando, ao mesmo tempo, o governo  por deixar as famílias ao abandono. Círculo quadrado.  Isto é, o líder o CDS entende que o apoio às famílias deve ser dado às empresas para que os donos delas utilizem os dinheiros ao seu serviço, o qual não é necessariamente do interesse das famílias, entretanto abandonadas. Aliás, como se o apoio a umas fosse incompatível como apoio a outras.

Para quem agita a família como sendo um dos valores dos centristas, bem direitistas, sempre se há de concordar que se trata de algo a roçar o domínio da hipocrisia.

As despesas no SNS, na Escola Pública, na Função Pública, na Justiça são absolutamente essenciais para proteger a saúde, a educação, o acesso a serviços públicos e à justiça. A direita rejeita-as porque os quer abocanhar para deles tirar o lucro, exigindo depois subvenção ao Estado para os pôr a funcionar no mínimo.             Os serviços excelentes são para os da estirpe dos donos disto tudo.

O grande problema da direita reside no facto de temer que os serviços públicos cheguem a funcionar moderna e eficientemente. Basta à direita uns pingos de modernidade no OGE para se agitar à outrance. Se houvesse coragem não seriam apenas pingos para refrescar, mas serviços de qualidade como por exemplo na Alemanha.

https://www.publico.pt/2020/10/14/opiniao/opiniao/pingos-decencia-direita-perde-cabeca-1935257

POOL POSITION NA GRELHA DE ABOCANHAR

Ainda não chegou um cêntimo de Bruxelas e os abocanhadores já lutam ferozmente pela pool position na grelha do enfartamento.

  Com o “social-democrata” Cavaco Silva no posto de 1ºMinistro o abocanhar atingiu tal desnorte que foi necessário produzir legislação para criminalizar o desvio de subsídio, certas zonas das grandes cidades pareciam o Paris/Dacar com tanto jipe a circular.

O nosso capitalismo antes e depois do 25 de Abril foi sempre pouco arrojado. Então vivia protegido pelo Estado. Agora parasita nas suas entranhas à custa de tanto vociferar contra o próprio fornecedor de combustível, o que torna a própria essência do sistema falseada pela ausência do espirito de risco.

A CIP, a CAP, a Confederação  do Comércio e similares já se levantaram a reivindicar direitos adquiridos (o de serem privados) à frente de toda a comunidade.

Está escrito algures nos buracos negros que os fundos de Bruxelas têm de ir primordialmente para os nossos empresários, sob pena do país afundar.

O nosso sistema financeiro precisa do sacrifício de vítimas, isto é, dos contribuintes, tal como ocorria no tempo dos Maias na América Central. A ira dos mercados é implacável. Os contribuintes contribuem para apagar os buracos negros no BPN, CGD, BCP,BES e Cª. É preciso aplacar essa ira, cortando despesas. Tudo o que se corte deve ir direitinho para esse deus insaciável, o mercado financeiro. Sacerdotes já é o que mais há. Basta ligar as televisões, de manhã à noite. Amen.

Ora o país saído de uma grave crise provocada pela gula dos banqueiros acaba de entrar na brutal crise pandémica.

A União Europeia afetará, nestas circunstâncias excecionais, centenas de milhares de milhões de euros a fundo perdido.

Este dinheiro provém das contribuições dos cidadãos da U.E. E deve ser destinado a fazer frente ao cortejo de desgraças que a pandemia está a criar.

Assim a primeira grande questão é esta a quem devem ser destinados? Devem ir sobretudo para os bolsos dos que buscam essencialmente o lucro ou deverão ser instrumentos do Estado que ao serviço da comunidade tem agora uma oportunidade quase única de investir para robustecer os serviços públicos, designadamente SNS, Escolas públicas, habitação social, Justiça e transportes públicos.

As notícias dão nota que a pandemia fez os muito ricos atingirem novos picos de riqueza – https://www.publico.pt/2020/10/07/economia/noticia/fortuna-ricos-atingiu-novo-pico-durante-pandemia-1934252. Devem os subsídios continuar a aprofundar esta linha ou invertê-la?

Claro que há corrupção no Estado, mas não é menor nos privados, aliás o que acontece neste domínio é uma espécie de parceria Público/Privado para exaurir os recursos públicos e levá-los para o bolso de muitos gestores, alguns condecorados com as mais altas distinções da República.

Uma coisa é o Estado dever zelar pelo interesse da comunidade (fazendo-o ou não), sujeito por via das diferentes eleições a alguns dos seus órgãos ao escrutínio das populações.

Outra é o abocanhamento de subsídios sem controlo e que servem apenas, em numerosos casos, para fazer fortunas aos premiados numa certa zona obscura que é a da atribuição do subsídio. Basta ver ainda hoje como são aplicados.

Não se pretende de modo nenhum erigir o Estado em figura exemplar; nada disso.

Apenas sublinhar que o controlo dos cidadãos sobre o Estado, sendo escasso, apesar de tudo é maior que o controlo sobre os privados.

Manda a tradição que se desconfie dos dois, e que ambos devem ter apertada vigilância, mas apesar de tudo a capacidade de questionar as opções dos governantes é bem maior que a dos longínquos empresários, sem, no entanto, esquecer que os há e muitos no melhor sentido da palavra.    

https://www.publico.pt/2020/10/08/opiniao/opiniao/pole-position-grelha-abocanhar-1934360