Os resultados eleitorais, o sectarismo, o radicalismo verbalista de fachada comunista

O que parecia improvável aconteceu. A manobra convergente de Marcelo e Costa resultou em pleno para o primeiro e deixou o segundo com a página mais que virada, sem possibilidade de lá escrever o que quer que seja a não ser – maioria absoluta.

O que fez ressuscitar a maioria absoluta? A irresponsabilidade do PCP e do BE e a manobra tática de Costa.

O PS apoiou-se na esquerda para governar. Ganhou apoio popular num país claramente situado ao centro esquerdo. Cavou no centro e na esquerda. Reforçou a sua base eleitoral. Sentiu-se mais forte. Quis reposicionar-se; não queria os constrangimentos que o PCP e BE lhe colocavam. Apresentou o orçamento com a espada de Dâmocles, ou votam ou vamos para eleições. Marcelo esfregava as mãos.

Os resultados revelam que a manobra não foi compreendida em toda a sua extensão pelo PCP e BE que caíram na esparrela de não deixar passar o orçamento (o PCP para eventualmente competir com o BE); deixaram-se responsabilizar pelo chumbo que impedia algumas melhorias em áreas socias; nunca explicaram porque havia contradição entre deixar passar o orçamento e continuar a lutar por outros avanços nos salários, no SNS, nas pensões e na escola pública. Comportaram-se como anjinhos no céu socialista de Costa.

O descalabro dos partidos à esquerda do PS foi geral. Pagaram o preço de navegarem fora da realidade. Como podem explicar que ao longo de todos estes anos não tenham sido capazes de se encontrar para aumentar a sua força negocial junto do PS e do eleitorado de esquerda?  Só a cegueira explica esta competição sectária desastrosa.

Como pode o PCP atribuir, como sempre, as culpas a outros e não assumir qualquer espécie de erro? Veio Jerónimo gasto e desgastado culpar a bipolarização e é caso para perguntar, então não sabia que chumbando o orçamento o que ia acontecer era a bipolarização agravada pelo facto do PS ter no orçamento o aumento do salário mínimo, das pensões, e a mudança nos escalões do IRS que eram bandeiras do PCP? Se não sabiam é porque são incapazes de ler a realidade. O modo de fazer notar a diferença existente não passava por andar a provocar eleições ou dito de outro modo se as não queriam não fossem jogar no campo de quem as engendrou. PCP e BE declararam tonitruantes que estavam preparados e não estavam, como se está a ver.

  Em Évora a bipolarização que existia entre PCP e PS passou a ser entre PS e PSD. E o que explica a dramática derrota em Santarém para lá da de Évora? O mundo está a mover-se sob o nosso olhar e a direção do PCP está sem olhos que vejam; fala para sociedade imaginária que existe nos livros dos clássicos que leram(?) sem os saber aplicar às realidades de hoje.

O PCP vai perdendo a pouco e pouco a sua influência eleitoral de um modo que parece irreversível. Ao contrário do que afirmava Cunhal a influência social é muito inferior à eleitoral, apesar desta vir a diminuir. A direção do PCP cavou um fosso dentro do próprio partido entre os seus ativistas interessados na progressão do partido do que nos lugares que ocupavam ou ocupam. A direção sabe que precisa deste tipo de radicalismo verbalista sem qualquer correspondência prática para justificar a sua incapacidade. Vem substituindo essas perdas de influência por um discurso verbalista/radicalista de fachada comunista.

A direção de Jerónimo para tentar iludir a sua fraqueza declarou do alto do 6º andar da Soeiro Pereira Gomes que não assinava acordos com o PS e passou esta mensagem sem qualquer substância para um partido exaurido de quadros corridos, desprezados, marginalizados perdendo assim as raízes que um dia teve.

A não haver um sobressalto dentro do partido o destino está escrito nas estrelas.

Por último, o país uma vez mais pronunciou-se que que quer o SNS tal como foi adotado, a Segurança Social e a escola pública sem a invasão do liberalismo, salários mínimos decentes e novos escalões do IRS. Por isso votou como votou e mandou Rio para a sua inutilidade superveniente.

A direita reconfigurou-se. O CDS descansa em paz. O Chega está no sistema contra o sistema. Vamos ver como passa a ser sem ser o André. A IL vai preenchendo espaços deixados pelo CDS e certas camadas do PSD. A direita ficou minoritária uma vez mais. A vida continua.

HÁ “Fantasmas” na Barraca – imperdíveis

A Humanidade sempre viveu com fantasmas e sempre viverá, não obstante andarmos à procura do caminho para o planeta Marte. Talvez os exploradores os encontrem no caminho, como os companheiros de Vasco da Gama, segundo Luís Vaz de Camões

A Humanidade tem avançado a muito custo largando ao longo do tempo práticas, conceitos, preconceitos, violências, injustiças e discriminações quer entre classes e camadas socias, quer entre géneros, quer entre os membros da própria família.

Para trás ficou a escravatura, perseguições religiosas (algumas persistem), o morgadio, a maldição da mulher, a desigualdade monárquica, a discriminação no sufrágio entre muitas outras.

Mas também ficaram preconceitos e inerentes ao sistema dominante e muitas hipocrisias que fazem de muitos seres humanos gente medíocre e injusta até nas próprias relações familiares.

A moral burguesa do século dezanove também estava impregnada de duplicidades e injustiças medonhas. Ibsen, na obra Fantasmas, urdindo o drama, acentuando ambiguidades, usando a ironia e o humor, traz para a superfície da vida as contradições e a hipocrisia dentro da família e na própria religião cristã imperante na Noruega daquele tempo.

O cenário, não obstante o sofá, é sóbrio, apesar da riqueza da dona da casa do que se depreende dos diálogos entre a proprietária e o pastor; ele mais interessado nos bens materiais e ela voando mais à larga. O pastor, cuja pastorícia devia ter lugar nas almas dos habitantes da pequena cidade, onde se desenrola a ação cénica, centra-se no vil metal.

Rita Lello dirigiu os atores e a atriz pelo caminho luminoso das dificuldades das personagens tremendamente densas, como é timbre de Ibsen. E conseguiu quer através do espaço cénico despindo-o e apostando em dois ou três elementos que pudessem definir sobretudo o caráter da senhora Helena. A rebeldia que são os livros que o pastor esconjura e o tricô em oposição à rebeldia. A densidade do ser humano está nas suas contradições. Helena é esposa que achava que devia perdoar a vida debochada do marido, mas ficamos com a ideia de que no íntimo sofredor ela não perdoou, provavelmente querendo perdoar. Não saímos seguros do que pretendia aquela mulher, mas saímos mais conhecedores da aventura humana.

Ela quer o “seu” bem para o seu filho 0svald, mas ao aperceber-se que esse “seu” bem não é o que o filho pretende, adere ao bem do filho; que por sua vez sabe que a alegria de viver que ele persegue não vai ser possível porque sofre de uma doença incurável e adapta-se apesar da sua opção de enfrentamento do status quo amolecer ao pretender Regina, sua irmã, filha de uma relação do seu pai com uma empregada e que ele desconhecia. Aqui entram as comezinhas contas humanas entre o largo horizonte de uma possível alegria de viver e o inevitável ramerrame da vida coitadinha.

Helena encerra em si a moral da altura e deixa antever uma nova moral imprecisa, fazendo-a oscilar entre o velho e esse tal novo indefinido.

Rita Lello agarra com toda a força a força de Helena. Às vezes comove-nos, outra vezes deixa-nos estarrecidos com a coragem e outra ainda petrificados pela incapacidade de se livrar da moral dominante de aquela família é expressão. Tanta versatilidade exigia um talento superlativo que a atriz demonstrou ter. Magnífica interpretação.

Em todo o esplendor é a família burguesa que é posta em crise pelas convenções, preconceitos e anátemas que sobre ela se abatem.

Fora da família estão o pastor e um biltre que se assume submisso para se colocar por cima usando a vilania para se encostar ao pastor devido ao incêndio que destruiu o orfanato que seria de Regina e que o pastor aconselhou Helena a não fazer seguro na sua lógica de homem dado ao dinheiro, sendo o pregador da salvação das almas.

O pastor, à boa maneira do invocador do santo nome de Deus em vão, é o corifeu dos situacionistas que a História e a vida confirmam. É a encarnação do caruncho interior face à representação de figura de boa índole. O biltre sabe por ladinice a que porta há de bater e o pastor não a fecha. Business.

Regina é da família sem o saber e de nariz ao alto qual perdigueira, no meio daquele mundo de hipocrisias, aprendeu a saber movimentar-se desde casar com o irmão antes de saber que era até finalmente aceitar ficar à frente de um prostíbulo que Jakob- o biltre- vai montar, tendo ela no início da ação recusado frontalmente.

Os atores e atriz que desempenham estes papeis estão ao nível das exigências de Ibsen. Souberam-nos transmitir a força, a cobardia, a bondade, as ambiguidades, as fraquezas e a hipocrisia dominante na Noruega de então.

Ibsen desvendou com mestria certas características que os humanos não revelam a olho nu; fê-lo às claras e a meia luz e na sombra do que se não diz e se vê pelo poder da palavra ou de certos silêncios mais presentes nas duas mulheres.

A encenação foi capaz de colocar em cima do palco toda essa riqueza que Ibsen congeminou. Saímos daquele Teatro mais humanos, mais retratados, mais curiosos e quiçá mais capazes de compreender os fantasmas que existirão enquanto houver vida humana. Imperdível.

 O prolongamento da campanha eleitoral por outros meios, diria Clausewitz

Não se pode negar o incalculável valor dos media na intermediação das sociedades. E num mundo de vida sufocada, de corrida em corrida, de desassossego em desassossego o tempo de cada qual é chegar a casa sentar-se, ver e ouvir o que dizem as televisões, às vezes como uma remota companhia, mesmo se acompanhados. A televisão vale muito mais que os vizinhos. Está ali à mão, dia e noite. É um estranho mundo aquele em que vivemos

Em tempo de eleições assistimos a um novo desdobramento do ato eleitoral que consiste no facto de os dirigentes políticos debaterem em direto e no final de cada debate dado por terminado, ele continuar por interpostas pessoas que não concorrem e intervêm com tanta ou mais força que os verdadeiros atores do processo eleitoral.

De certa forma começa um debate monocolor em que meia dúzia de escolhidos “pescam” umas tantas frases dos dirigentes partidários durante um tempo quase sem limite, ao contrário do tempo de debate, elegem quem perdeu e quem ganhou. E ganham quase sempre os mesmos, salvo honrosas exceções.

O que é importante é que mal acabe o debate ou a notícia algum comentarista venha a correr à televisão dizer o que pensa para não deixar que se pense.

Não se trata de anular o comentário acerca do que foi dito por A, B ou C. Aqui o que acontece é prolongamento do debate por outros meios como diria Clausewitz que visa de um modo enviesado fazer prevalecer o ponto de vista ideológico do comentarista. Trata-se de uma deslealdade, pois esse elemento é escamoteado. Ou os media assumem a sua preferência por tal ou tal partido e o leitor/espectador não é ludibriado ou não faz de conta que é imparcial, mas vai plantar o comentário no campo da direita com os mais estapafúrdios “argumentos”, sendo o mais gasto a imutabilidade do status quo graças ao Santo Mercado.

Repare-se na velocidade de reciclagem dos media que apostavam nas entre linhas e fora das linhas na vitória de Rangel e hoje levam Rio aos ombros.

Ele é crescendo da campanha do PSD, ele é o inesperado fulgor de Rio, as suas propostas que ninguém ousa a propósito da justiça, ele é a baixa de impostos, ele é a descida do IRC; o que mais virá em tempo de promessas. Ele é um mar de virtudes quando há dois meses era um mar de defeitos. Que conversão, nem Martinho que viria a ser santo; porém Rio só vai dar a capa a quem pagar IRC…e aos médicos assistentes dos privados e a outros similares; os que pagam IRS ficarão à espera que as grandes empresas engordem mais.

No domingo foi um enlevo ver o casal Maques Mendes/Clara de Sousa. Um verdadeiro platonismo. Os sorrisos, os trejeitos, as buchas, o que se não diz e se vê. Marques Mendes na SIC, Paulo Portas na TVI. Tudo às mil maravilhas. Dois dos principais dirigentes da direita a falar sobre as eleições com imparcialidade. O irrevogável Portas e o ex Presidente do PSD. Que pluralismo. Que coisa linda.

 Pode ser que as televisões, à custa de serem tão iguais e previsíveis, continuem ligadas e os cidadãos desligados. Os media não vão a eleições ou vão?

O espírito vingativo cega – o que era maioria absoluta pode ficar menos que relativa.

Costa, ao contrário do que se podia imaginar, foi tomado por uma súbita atração pelo abismo. O PS tem governado nos últimos seis anos com a convergência dos partidos de esquerda. Ao longo destes anos devido à política seguida granjeou e reforçou de modo substancial a base de apoio eleitoral. As coisas correram bem e o PS saiu mais forte.

Precisando da convergência com outros partidos à sua esquerda é lógico que os diversos interesses sejam tidos em conta. Não passa pela cabeça de ninguém que assim não seja.

O chumbo do orçamento levou a eleições antecipadas “para virar a página”. Pelos vistos as páginas são as mesmas, as do orçamento chumbado.

Costa optou por fazer da campanha eleitoral uma espécie de vingança contra o PCP e o BE. Está no seu direito. Só que crucificar PCP e BE e pedir maioria absoluta pode ser um tiro nos pés. E se o essencial da estratégia for (como tem sido) apresentar o orçamento chumbado por todos os partidos, salvo o PAN, então Costa qual Némesis assume-se como colocando-se contra tudo e todos, salvo o partido de Inês Corte Real. Nem parece ser de António Costa.

Não está a resultar porque era óbvio que o PS não iria conseguir passar a mensagem de que é o único partido com propostas razoáveis e ainda porque Rio percebeu muito bem esta fragilidade de Costa e contra-atacou.

Enquanto Costa zurze no PCP e no BE, Rio diz-se disponível para dar ao CDS a pasta da Defesa e à IL um cargo ministerial. Ora o peso à direita do CDS e da IL é bem menor que o peso à esquerda do BE e do PCP.

Isso significa que o PS tem uma gula desmedida e o PSD apresenta-se com outra razoabilidade no que toca a acordos. E se Costa fala de estabilidade contra os parceiros, Rio premeia os parceiros.

O PS quer tudo. O PSD, mesmo quando o CDS faz prova de vida, atribuir-lhe-ia, caso vencesse, a pasta da Defesa, bem importante.

Se Costa não mudar o azimute pode ser que o pecado da gula e o espírito vingativo o deixe fora do governo com todas as consequências.

Ainda vai a tempo de valorizar o que fez com os seus parceiros, se não ficar amarrado ao orçamento chumbado, ao tempo passado, abrindo um tempo novo de que tanto falou há seis anos.

Por muito que Costa ache que o orçamento devia ter passado, não pode fazer das eleições um ajuste de contas com os seus parceiros, desbaratando todo o capital político que ele e as esquerdas granjearam nestes seis anos. O espírito de vingança nunca deu resultado. Atente-se nas sondagens. Mude para não mudarmos todos para o tempo velho das direitas no poder.

Costa – a menina dança?

O espanto é quiçá uma prova de vida. Mas afirmar que Marcelo fiscalizaria uma maioria absoluta do artista é obra, já vai para além de Marte.

É ao Parlamento que cabe esse papel, o que significa que não sendo Costa constitucionalista sabe bem que os poderes presidenciais são muito limitados quanto à ação governativa, assim e bem o decidiram os constituintes em 1975.

E sabe bem que a maioria constitui uma espécie de poder absoluto, conforme a experiência vivida, e ele próprio o afirmou várias vezes.

Hoje para sossegar a opinião pública lembrou-se da Autoeuropa e saiu a terreno assegurar o que só Marcelo, se pudesse, asseguraria. Ai São Marcelo da Autoeuropa.

O PS com maioria absoluta faria no parlamento o que bem entendesse, tal como fez Cavaco, malgré Soares.

Quis aligeirar a pressão, mas a jogada saiu sem nota artística, como diria o catedrático da táticas.

Provavelmente está cansado e sentiu-se encurralado por saber que os portugueses sabem bem o que é ter no parlamento um partido com tantos deputados que se está marimbando para os outros. E sabem o que passou com o PS e o PSD a fazer os portugueses andarem a toque de caixa.

Costa já não sabe o que há de dizer acerca da sua gula da maioria absoluta a não ser virar o disco e tocar o mesmo – o Dr. António Costa só conhece uma musica e quer que todos os portugueses dancem ao som da sua maioria absoluta. A menina dança? Quem quiser dance, mas depois não se queixe.

O grande Mandamento – entregarás teu voto a quem interpreta e seguirás o rebanho.

Soam as trompetas a anunciar que vem aí a inteligência artificial e que o mundo já não será mais o que foi, como se alguma vez tivesse sido como era antes de o ser. Como se se o mundo de repente passasse a não ser composto de mudanças. Como se de repente pudéssemos tomar banho duas vezes na mesma água do mesmo rio.

Soam as trompetas no final de cada debate acerca de quem ganhou e de quem perdeu, como se os debates destinados a esclarecer os cidadãos a fim de poderem votar com mais conhecimento fossem substituídos por um conjunto de luminárias sentadas atrás do ecrã a dizer aquilo que as suas opções ideológicas lhes ditam.

Talvez a nossa felicidade maior seja a de podermos mudar e contribuir para mudar o mundo. Talvez seja este impulso vindo do fundo da História que nos faz mover por uma ideia, por uma utopia. Aqui não há artificialidade. Há um profundo sentimento de esperança de que somos capazes de forjar o nosso futuro, independentemente de todas as tragédias por que passamos.

Alguns líderes vão participar nos debates com o chicote do tempo velho contra o tempo novo. Isto só vai bem se se aceitar que tudo fique mais ou menos na mesma, se os que estão em baixo permitirem aos de cima continuar em cima custe o que custar aos que são esmagados. São eles os de cima que podem distribuir a riqueza que estiver a escorrer do seu prato para os que estão em baixo.

Há nesta parafernália de modalidades a pregar para que tudo fique na mesma um conjunto de dogmas que são muito mais sagrados que os 10 Mandamentos da Lei de Deus para os católicos.

De todo eles o imperante é o de que o Mercado é o Deus Todo-Poderoso, Criador, Bondoso ou Furioso e só a Ele os seres humanos devem obediência. Se Ele está furioso há que o apaziguar com cortes aos milhares de milhões de euros para que de barriga cheia se acalme. Já não pede vidas para serem degoladas; agora pede mortes lentas por falta de saúde, alimentação ou outros cuidados. Todos os que ousarem desafiar este poder omnipotente não são aceites à mesa do orçamento.

O que sabemos e, às vezes, esquecemos é que somos nós que fazemos a História e o nosso futuro contra os que querem manter tudo como está, como sempre aconteceu e não queremos ver.

Há um poder que é o de nos amarrar a um ecrã. Não basta ouvirmos e vermos. Há que nos meter na fila do rebanho, dizendo-nos como devemos interpretar o que vemos e ouvimos.

O redil é o sonho dos mandantes e dos sacerdotes desse novo Deus. Porém, há uma ideia, uma utopia e tudo pode ser diferente, se houver coragem e pensarmos sem medo. Precisamos de coragem. Haja coragem.

Rio e Cotrim assim assim a dizer que sim


Dois cavalheiros da estirpe liberal; um, mais quê, o outro menos quê; um mais contido (noblesse oblige), o outro mais desenfreado. Um a esticar para a direita a roçar o extremo, o outro com medo do arrastão e no dia 30 perder a ocasião.

Foi um debate à medida daquelas duas almas. E das outras que se seguiram, que não vão a votos, mas decidem quem venceu, substituindo o soberano. Senhoras e senhores cheios de razões, sabichões, espertalhões. Lindas e lindos.

O debate foi giro( diz-se assim) de se ver. O que se viu? Uma coisa tão simples, tão simples que pode ter passado despercebida – os dois cavalheiros são visceralmente contra tudo o que apresente prejuízos e como tal se a CGD der prejuízo, Rio e Cotrim catrapim privatiza-se, o mesmo sucedendo à RTP ou a o que quer que seja.

Podem explicar por que não aplicam esta fúria ao BES, BPN, Milenium, e a todos os bancos que iriam à falência, com milhares de milhões de prejuízo, se não fosse o malvado do Estado com o dinheiro de todos os cidadãos salvá-los?

Vá lá expliquem esse apelo à fantástica gestão privada com o seu melhor representante preso em Durban, fugido à justiça? Então, como é?

Se o que der prejuízo privatiza-se, o que dá montanhas de prejuízo no privado é para ser salvo pelo público e entregue aos privados? Ou nacionaliza-se?

Nesta senda sorrateiros acham que se o SNS não responde a tempo o Estado deve entregar ao privado pagando o Estado, ou seja, o Estado desinveste no SNS, torna-o ineficaz para entregar os cuidados de saúde ao privado pagando-os; grande negócio – o Estado perde, ganham os espertos, os privados cujos governos os protegem. É o negócio diz Rio e Cotrim que sim.

A escola pública deve ser boa diz Rio, mas se calhar tratando mal os professores e todo o pessoal não será. Que fazer? Entrega-se aos privados. Os governos deixam o setor público tornar-se ineficaz e sem investimento e a conclusão é entregá-lo a quem vai receber do Estado o que este não investiu. Olha os cavalheiros verdadeiros vendedores da banha da cobra.

Sendo a gestão privada tão boa e eficiente por que precisa do Estado? Quem a impede de investir no Ensino, na Saúde, onde quer que seja? Invistam, invistam, quem os impede? Mostrem que são melhores, deem o exemplo.

 Em cima da mesa o exemplo esplendoroso é a banca corrupta e corruptora, salvo poucas exceções.

Cotrim na sua pose liberal quer que todos tenham acesso à escola privada pagando-a. Com quê?

Se os portugueses quiserem pagam com votos não lhos dando para impedir estas manigâncias.

Dois cavalheiros da estirpe liberal; um, mais quê, o outro menos quê; um mais contido (noblesse oblige), o outro mais desenfreado. Um a esticar para a direita a roçar o extremo, o outro com medo do arrastão e no dia 30 perder a ocasião.

Foi um debate à medida daquelas duas almas. E das outras que se seguiram, que não vão a votos, mas decidem quem venceu, substituindo o soberano. Senhoras e senhores cheios de razões, sabichões, espertalhões. Lindas e lindos.

O debate foi giro( diz-se assim) de se ver. O que se viu? Uma coisa tão simples, tão simples que pode ter passado – os dois cavalheiros são visceralmente contra tudo o que apresente prejuízos e como tal se a CGD der prejuízo Rio e Cotrim catrapim privatiza-se, o mesmo sucedendo à RTP ou a o que quer que seja.

Podem explicar por que não aplicam esta fúria ao BES, BPN, Milenium, e a todos os bancos que iriam à falência, com milhares de milhões de prejuízo, se não fosse o malvado do Estado com o dinheiro de todos os cidadãos salvá-los?

Vá lá expliquem esse apelo à fantástica gestão privada com o seu melhor representante preso em Durban, fugido à justiça? Então, como é?

Se o que der prejuízo privatiza-se, o que dá montanhas de prejuízo no privado é para ser salvo pelo público e entregue aos privados? Ou nacionaliza-se?

Nesta senda sorrateiros acham que se o SNS não responde a tempo. Então defendem que o Estado deve entregar ao privado pagando-lhes, ou seja, o Estado desinveste no SNS, torna-o ineficaz para entregar os cuidados de saúde ao privado pagando-os; grande negócio – o Estado perde, ganham os espertos, os privados cujos governos os protegem. É a cartilha. É o negócio diz Rio e Cotrim que sim.

A escola pública deve ser boa diz Rio. Mas tratando mal os professores e todo o pessoal não é. Que fazer? Entrega-se aos privados. Consultemos uma vez mais o manual das instruções – Os governos deixam o setor público (neste caso a escola pública) tornar-se ineficaz e sem investimento e a conclusão é entregá-lo a quem vai receber do Estado. Olha os cavalheiros verdadeiros vendedores da banha da cobra. É o negócio diz Rio, Cotrim que sim.

Sendo a gestão privada tão boa, tão boa por que precisa do Estado? Quem a impede de investir no Ensino, na Saúde, onde quer que seja? Estes gestores de alto coturno o que pretendem é que o Estado os subsidie dado a sua tradicional inclinação para viver à custa do setor público. Invistam, invistam, quem os impede? Mostrem que são melhores, deem o exemplo. Em cima da mesa o exemplo esplendoroso é a banca corrupta e corruptora, salvo poucas exceções. Olhem para os Rendeiros deste país, só eficiência a meter o negócio nos bolsos.

Cotrim na sua pose liberal quer que todos tenham acesso à escola e à saúde privadas. Com quê?

Se os portugueses quiserem pagam com votos, não lhos dando para estas manigâncias.

Os debates que o não são, por que não roubou Prometeu aos Deuses tempo para o dar aos humanos?

Os debates de vinte e cinco minutos não são bem debates para esclarecer as propostas dos líderes dos partidos e deste modo as diferenças entre eles; são uma espécie de ringue em que o primeiro a expor troca a exposição por meia dúzia de pontapés no adversário obrigando o atingido a passar o “debate” a correr atrás do outro para ripostar com outra “sova” e assim em redemoinho até ao trucidamento final de um ou dos dois.

Está montado o Coliseu romano para vitoriar os vencedores da arena e vituperar os que não sabem usar os punhos e as espadas.

No Coliseu de Roma não havia moderador, só o poder absoluto do Imperador. De algum modo os moderadores nas estações de televisão têm um poder similar, trocam o sinal do polegar pelo estribilho – O tempo acabou.

Depois recomeça com tempo “infinito” – o do debate dos comentadores; os hierofantes, os que interpretam in nomine populi quem venceu. É o tempo da estação, avara em o conceder a quem pode esclarecer e de cancelas abertas para quem interpreta o que milhões de seres humanos no seu íntimo atendem em parte ou na totalidade face aos argumentos veiculados, quase sempre aos chutos.

A velocidade do tempo que vivemos e nos escraviza impõe esta maneira de encarar a democracia, submetendo-a ao tempo mediático; o dono de todo o tempo comunicacional obriga o debate democrático conter-se dentro de duas dúzias de minutos.

Num tal contexto o debate deriva muitas vezes para um tipo de pronunciamentos agressivos impossíveis de verificar ficando no ar o lado da política espetáculo que agrava a desconfiança dos cidadãos no seu exercício.

Na fábrica ou no escritório o dono do tempo é o patrão, na democracia atual o tempo do debate é uma espécie de arremesso democrático, ou seja, um cheirinho que acompanha a democracia.

O modelo escolhido torna evidente o rebaixamento do debate democrático a uma repetição quase burocrática de um conjunto de frentes a frente em que é impossível na prática qualquer interveniente apresentar as propostas, obrigando-os a recorrer a uma série de slogans fortes que substituam ideias e propostas. A chamada e apregoada preparação não passará da finta, da rasteira com que o outro não conta, substituindo-a pela afirmação mais ou menos serena das ideias e dos projetos.

Choca o tempo atribuído aos debates com o tempo conferido aos comentadores a explicar o sucedido no “confronto” das posições e o foguetório em que muitas vezes as suas opiniões não passam de ecos das suas opções políticas.

Este tempo de debate é o terreno ideal para os populistas; ali medram, inventam, insultam, aldrabam e espojam-se na lama por si criada.

Talvez Prometeu nos tivesse trazido mais felicidade se tivesse roubado tempo para desfrutarmos em vez de nos entregar o fogo; os debates atuais na televisão apenas confirmam esta realidade. Nem nos debates eleitorais os candidatos, de onde sairá um primeiro-ministro, têm tempo e aceitam-no. Glória às televisões nas alturas. Amen.

Por uma maioria de votos de esquerda plural


Em 2015, os entendimentos à esquerda permitiram reverter medidas socialmente
injustas e economicamente contraproducentes impostas pela troika e pelo governo de
direita. Mostraram também que foi possível fazer convergências à esquerda em torno
de objetivos concretos, mesmo no quadro de constrangimentos europeus que
continuam a limitar o alcance das mudanças. A longevidade da solução política então
encontrada superou todas as expectativas iniciais.
Os signatários desta carta, que apoiaram desde a primeira hora as convergências à
esquerda, entendem que a devolução do voto aos cidadãos, no atual contexto, não
tem de ser um drama. Pode e deve ser uma oportunidade de clarificação sobre o
projeto de desenvolvimento para o país.
Apesar de não termos militância partidária, entendemos que os progressos políticos
verificados desde 2015, mesmo quando insuficientes, não teriam sido possíveis sem o
empenho do BE, do PCP e do PEV, no quadro de uma maioria parlamentar de esquerda
com o PS. Sem prejuízo do balanço diferenciado que fazemos das razões que levaram à
interrupção da legislatura, sabemos que a concretização de uma agenda
socioeconómica mais ambiciosa é uma tarefa que o PS, sozinho, não poderá cumprir.
Defendemos um Serviço Nacional de Saúde público e universal, que valorize os seus
profissionais, travando assim a crise que a pandemia acelerou. Defendemos os direitos
do trabalho, revertendo as leis laborais do tempo da troika, recusando que a evolução
da economia nacional seja baseada nos baixos salários e na precariedade. Defendemos
uma política de habitação pública que responda à especulação que expulsa jovens,
pobres e a classe média dos centros das cidades e promove a segregação social e
racial. Defendemos a escola e a universidade públicas, assim como a produção cultural
e o respeito pelos seus profissionais. Defendemos a preservação do planeta,
recusando encarar a urgência climática como uma oportunidade de negócios.
Sabemos, porque quase meio século de democracia nos ensinou, que isto só é possível
se garantirmos e reforçarmos a diversidade e pluralidade do campo da esquerda.
Sabemos, porque 2015 nos ensinou, que todos os deputados que elegemos contam e
que o próximo governo será formado pela conjugação da vontade das diversas forças
parlamentares, independentemente de qual venha a ser o partido mais votado. E
sabemos que a reedição, formal ou informal, do bloco central só pode ser evitada se as
esquerdas parlamentares saírem reforçadas.
O nosso apelo é que o dia 30 de janeiro sirva para promover uma maioria plural de esquerda. A
mesma pluralidade que impediu o aprofundamento do retrocesso social que a troika e o governo
de direita quiseram impor. A mesma pluralidade que permitiu avançar com medidas para a
justiça social e económica neste país. Seja qual for o futuro, só essa pluralidade pode construir o
diálogo, a alternativa e a resistência. Sem ela, a esquerda derrota-se. Com pluralidade, a agenda
de esquerda para um desenvolvimento mais justo e sustentável de Portugal sairá reforçada.
3 de Janeiro de 2022.
Os 100 subscritores:
Abílio Hernandez (professor universitário); Alberto Melo (professor); Álvaro Siza Vieira (arquiteto); Américo
Monteiro Oliveira (membro da CE CGTP-IN); Ana Benavente (socióloga); Ana Cordeiro Santos (investigadora); Ana
Costa (professora universitária); Ana Drago (socióloga); Ana Ferreira (investigadora); Ana Luísa Amaral (poetisa); Ana
Petronilho (investigadora); André Carmo (professor universitário e sindicalista); António Pinho Vargas (compositor);
Artur Cristóvão (professor universitário); Bárbara Bulhosa (editora); Bernardino Aranda (livreiro); Boaventura Sousa
Santos (professor universitário); Carlos Seixas (programador); Carlos Vargas (jornalista); Carmo Afonso (advogada);
Constança Cunha e Sá (jornalista); Cláudio Torres (arqueólogo); Daniel Oliveira (jornalista); Diogo Martins
(economista); Domingos Lopes (advogado); Elisabete Moreira (professora); Fátima Sá (professora universitária);
Fernanda Rodrigues (assistente social); Fernando Nunes da Silva (professor universitário); Fernando Paulouro das
Neves (jornalista e escritor); Francisco Bethencourt (professor universitário); Gabriela Moita (psicóloga); Gonçalo
Leite Velho (professor ensino superior); Guadalupe Simões (enfermeira e sindicalista); Henrique Barros (médico de
saúde pública); Henrique Sousa (investigador social); Isabel do Carmo (médica); Isabel Lindim (jornalista); Ivan Dias
(produtor); Joana Craveiro (encenadora e dramaturga); João Fazenda (ilustrador); João Leal (professor universitário);
João Leal Amado (professor universitário); João M. Almeida (quadro superior); João Rodrigues (professor
universitário); José António Bandeirinha (professor universitário); José Aranda da Silva (ex-bastonário da Ordem dos
Farmacêuticos); José Carlos Martins (enfermeiro e membro da CE CGTP-IN); José Feliciano Costa (professor e
sindicalista); José Luís Peixoto (escritor); José Maria Silva (dirigente associativo); José Neves (professor universitário);
José Reis (professor universitário); José Vítor Malheiros (consultor); Lúcia Amante (professora universitária); Luís
Miguel Correia (realizador); Magda Henriques (programadora cultural e professora); Manuel Correia Fernandes
(arquiteto); Manuel João Ramos (professor universitário); Manuel Lisboa (sociólogo); Manuel Morais (agente
principal unidade especial de polícia e antropólogo); Manuel San-Payo (artista plástico); Manuela Barreto Nunes
(bibliotecária); Manuela Mendonça (professora e sindicalista); Manuela Ribeiro Sanches (professora universitária);
Manuela Silva (médica); Margarida Santos (investigadora social); Maria Augusta Sousa (enfermeira); Maria Irene
Ramalho (professora universitária); Maria José Espinheira (administrativa ); Mário de Carvalho (escritor); Mário
Laginha (músico); Marta Delgado Martins (advogada); Marta Lança (jornalista e tradutora); Miguel Gonçalves
Mendes (realizador); Miguel Real (escritor); Nuno Serra (geógrafo); Nuno Teles (professor universitário); Patrícia
Bastos (professora universitária); Paula Cabeçadas (ativista política); Paulo Pedroso (sociólogo); Pedro Abrunhosa
(músico); Pedro Estêvão (sindicalista e investigador); Pedro Messias (sindicalista e bancário); Pedro Vieira (escritor);
Pilar del Rio (jornalista); Ricardo Paes Mamede (professor universitário); Rogério Moreira (gestor); Rui Bebiano
(professor universitário); Rui Graça Feijó (investigador); Sérgio Antunes (arquiteto); Sérgio Tréfaut (realizador);
Tatiana Salem Levy (escritora); Teresa Beleza (professora universitária); Teresa Dias Coelho (artista plástica); Teresa
Villaverde (cineasta); Tiago Rodrigues (encenador); Ulisses Garrido (sindicalista); Victor Louro (engenheiro
silvicultor); Vitorino Salomé (músico)