Autor: Domingos Lopes
Um treinador, um embaixador ou o que for.
No https://portuguesaletra.com são os seguintes os sinónimos de javardo – sórdido, cerviz, bodegão, porco, sujo, trapalhão, burgesso, cerdo, bronco, brutamonte, abjeto, espurco, cervelo, nojento, azeiteiro, porco-bravo, asqueroso, javali, cachaço, barrote, cacho, incivil, malcriado, abodegado, alarve, besuntão, berrão, cangote, cacoso, torpe, cabeça, anafado, bodoso, chico, obsceno, tramposo, balordo, catrofa, brutamontes, arrieirado, barrão, imundo, caveiroso, bertoldo, chacim, chorão, porcalhão, brutitates, grosseirão, banha, bestaraz, porco-montês.
Com esta panóplia de sinónimos percebemos melhor a razão que levou o senhor embaixador a não pedir desculpa pela javardice.
De facto, quando qualquer cidadão utiliza uma expressão de modo errado, de imediato pede desculpa; ora não é o caso, como se verá. E era o que faltava explicar para quem duvidasse da suprema educação do senhor embaixador.
Na verdade, o senhor treinador do FCP está completamente errado ao exigir desculpas para desistir da queixa-crime.
E porquê? Devido à maldosa interpretação do senhor Sérgio que não tem capacidade de entender que o senho embaixador não o insultou; apenas quis dizer que o senhor treinador era um azeiteiro, ou seja, um cacoso, bodoso, arririeirado, banha e caveiroso. Ou um incivil.
Como pode o nosso Ministério Público ter incomodado o senhor embaixador por dizer que o senhor Sérgio era um espurco? Tanta maldade junta nunca se tinha visto…como ousar pedir desculpa pelo cacoso? Que horror. Um embaixador é um embaixador; um treinador um treinador; um javardo é um coiso, assim um coiso, sem mal, como não podia deixar de ser. Amen.
O JULGAMENTO DE CAVALEIRO FERREIRA NA FACULDADE DE DIREITO PELO MRPP EM 1974 E O TEXTO DO SOL NASCENTE
O Semanário Sol Nascente resolveu fazer uma incursão ao que chama Arquivo Histórico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e deteve-se num dos episódios mais provocatórios ocorrido pouco pois do 25 de Abril do qual conta coisas e loisas. Aqui a memória em muitos aspetos está fresca, tal a intensidade do acontecido. Nem sempre sabemos a razão por que nos lembramos de certos acontecimentos, mas de outros sabemos. Saio a terreiro porque nesse episódio estiveram envolvidas personagens e registaram-se confrontos político-ideológicos dignos de relevo. E de algum modo paradigmáticos dos caminhos de então.
Morava com outros colegas na Estrada de Benfica e numa tranquila tarde o meu namoro foi interrompido pela campainha frenética que engasgada não parava de chamar. Era o Justino António aflito. Os émeérrepêpês tinham apanhado o Cavaleiro Ferreira na Faculdade (depois de ter sido saneado) e iam julgá-lo.
Lembrei-me de um alerta, dias antes, do Carlos Brito para estarmos atentos às provocações do MRPP na Faculdade. Fui para a Faculdade. Aí chegado o espetáculo era algo que se podia situar entre o trágico e o surrealista. À entrada da Faculdade um cordão de ativistas do MRRP de maus modos a notificaram-me que não podia entrar porque o que se estava a passar nada tinha de estudantil, decorria um julgamento popular e gritavam” os pides morrem na rua”. Assim. Tentei entrar e levei uns pontapés. Falei, à parte, com o Justino e combinamos que ele iria ao MFA dar conta do que se passava e para virem a fim de evitar o tal “julgamento popular”. E lá foi o Justino. Já não sei muito bem qual foi o estratagema que usei para entrar, julgo que foi o de propor aos participantes se eu podia entrar; talvez pensassem que a maioria iria deixar-me à porta, o que não aconteceu.
O Professor estava a um canto da sala. Tinha sido eu quem se levantou na aula de Direito Penal para propor a expulsão do Professor e consequente saneamento. Ele encarou-me e deve ter pensado o pior.
As intervenções iam no sentido de condenar aquele dignitário do fascismo. Pedi a palavra e o “Tribunal” não ma concedeu. Usei o mesmo esquema – a assembleia era soberana e decidiria se podia ou não usar da palavra. Grande confusão. Dada a primeira votação, temeram o que veio a suceder, foi me concedida a palavra. Para ganhar tempo em relação ao cumprimento da tarefa do Justino lá fui protelando a intervenção e já no uso da palavra que prolonguei ad nauseam até ouvir o burburinho dos militares a chegarem e a entrarem no anfiteatro para levarem Cavaleiro Ferreira.
Ao contrário do narrado no Arquivo da História nenhum professor se encontrava no anfiteatro, nem um. Nessa altura andavam cheios de medo, quase todos. Quase.
Do lado dos Estudantes Comunistas estávamos dois, o Justino e eu. Não estava mais ninguém da Comissão Pró Eleições. O “julgamento” era à tarde e não havia aulas. A sala não estava cheia e muitos dos presentes não pertenciam ao MRPP, eram estudantes, alguns voluntários (que tinham feito a tropa e tinham um regime diferente) que estavam a assistir e não alinhavam com aquela loucura, como se viu pelas duas votações.
Omiti propositadamente nomes dos principais juízes e instigadores, muitos deles figuras de proa de Portugal, em vários setores da sociedade dos nossos dias.
O que me move não é qualquer ajuste de contas, antes repor a verdade do sucedido. É o registo histórico do que poderia ter sido a brutal provocação ao novo regime se, por acaso, os intentos daquela trupe, autodenominada marxista-leninista-maoista, tivessem sido levados até ao fim.
Quem era capaz de proclamar que o 25 de Abril teve como objetivo impedir a revolução proletária que o vento Leste trazia, era capaz se perfilar como juízes de um tribunal “popular” cujos juízes eram os mais ativos militantes da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas ao serviço do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, o PCTP. O vento Leste foi uma poderosa inspiração que levou muitos deles e delas às cadeirinhas dos vários poderes. Aquele era o tempo e o modo; depois o tempo já era outro e o modo também e tudo se justificou para abandonar os princípios do Livro Vermelho. Os convertidos abraçados ao ímpeto da conversão estão sempre mais próximos do Alto.
Sejamos coerentes, não há nenhuma guerra boa
Toda a guerra é criminosa; salvo a guerra de libertação nacional e a guerra desencadeada face a um ataque absolutamente iminente. Os normativos da Carta das Nações Unidas são claros, assim como a doutrina posterior acerca da guerra justa e da ameaça iminente.
Foi criminosa a guerra da NATO para impor o Kosovo independente a invasão do Iraque por parte dos EUA e os seus sicários.
A guerra na Ucrânia não é uma guerra de libertação, é uma guerra de opressão nacional. É uma guerra condenada à derrota, mesmo que Putin ponha em Kiev um sátrapa, na linguagem usada por Lénine que o ex-dirigente do KGB abomina por ter reconhecida a Ucrânia como um povo e uma nação e não uma província do império russo.
Um dos orgulhos que os comunistas brandiam nos céus humanos era a grandeza dos bolchevistas em reconhecer após a revolução a independências dos povos e contraste com a opressão czarista. Milhões de mulheres e homens aderiram ao comunismo também com base nessa política de reconhecimento dos povos à autodeterminação, independentemente do que se seguiu.
Um dos orgulhos dos comunistas é o primeiro decreto do novo governo russo em 1917 – o Decreto da Paz- a Rússia saía da guerra, o que levou ao fim da primeira guerra mundial.
Só a perda total de referenciais inegociáveis pode levar um partido comunista a evitar condenar com toda a veemência a invasão da Ucrânia, agravando um historial de apoio a invasões perpetradas pela URSS.
Nada justifica esta guerra. Nem o desafiante e desequilibrador alargamento da NATO em forma de tenaz em redor da Rússia, e muito menos a retórica de tipo imperialista de Vladimir Putin. Nem a ameaça futura à Rússia. Os meios para conjurar essa ameaça nunca podiam ser esta guerra para impor em Kiev a humilhação e um lacaio.
A utilização da metralha por mais sofisticada que seja nunca pode ser algo conforme ao ideal comunista no sentido da libertação do indivíduo e da sociedade. Esse é o lado desumano dos fabricantes de armas que tudo apostam no último modelo de matar em massa para vender aos seus homens e mulheres, fregueses ávidos de possuir o direito de matar aos milhares e milhares, caso não sejam seguidos.
Putin está a matar ucranianos que lutam pela sua terra, pela sua língua, pelo seu país e pelo seu futuro.
Putin conseguiu reforçar a máquina de guerra que é a NATO e limar para já as inúmeras contradições entre as suas várias potências. Macron esqueceu os submarinos vendidos pelos EUA à Austrália a substituir os franceses e Scholtz e a Europa ficaram sem o gás que passará a vir muito provavelmente dos EUA.
Esta guerra é injustificada e injustificável por mais razões que a Rússia tenha (e tem) para se sentir ameaçada. Havia que dar tempo para que prosseguissem as negociações e se elas falhassem considerar outros meios, que não seriam a guerra.
Esta guerra não vai resolver nenhum dos problemas de segurança da Rússia; antes pelo contrário, vai desencadear uma campanha contra aquele país porque ninguém de boa vontade e bom senso poderia aceitar que a invasão e ocupação da Ucrânia do tamanho da Alemanha e França poderia ser uma solução. A guerra abriu as portas a um clima de histeria contra a Rússia.
É curioso que nem a CEE, nem a NATO, nem as potências mundiais decretaram sanções de meia dúzia de cêntimos contra os EUA aquando da invasão do Iraque.
A guerra é um crime, seja onde for. A mim faz me doer a alma ver tanta gente importante tão justamente furiosa contra a Rússia e que em 2003 furiosamente justificou a invasão daquele país.
Temos o mundo que temos. Haverá sempre espaço para os homens e mulheres justos, mesmo que não pareça.
Se formos coerentes a começar por cada um de nós o mundo será mais coerente e justo.
Para todos podermos viver de um modo decente e justo não aceitemos as guerras, sejam quais forem os Senhores que as comandam. Precisamos de paz, sobretudo no meio de uma guerra.
O anjo da guarda e o PCP
Lembro-me de na catequese nos ser incutida a ideia de que andava sempre connosco um anjo da guarda que nos dizia o que era bem e o que era mal. Se quiséssemos ouvíamos o anjo da guarda a dizer-nos se as nossas ações eram pecaminosas ou se agradavam ao Senhor.
Naquela idade o terror do Inferno era medonho. Ser precipitado num forno com labaredas incomensuráveis aterrorizava toda e qualquer adulto quanto mais uma criança cujo bem e o mal tinha fronteiras ainda mal definidas.
O certo é que o anjo não aprovava apanhar os ovos de um ninho de um qualquer passarito, mas a tentação era mais forte e embora o anjo viesse pelas cangostas e caminho dos matos a ralhar, logo passava porque outras tentações surgiam.
Às vezes, antes de adormecer, depois de botar o terço em família, o anjo da guarda surgia no escuro a ralhar comigo por isto e por aquilo e mais aquilo de pensar nas pernas da criada (era assim que se dizia) que vislumbrara de longe quando ela se baixara para apanhar a cesta da roupa. Não o via. Na minha crença originada nos ensinamentos da catequista eu imaginava a voz do anjo e não o desimaginava. Qualquer pensamento que me levasse àquelas pernas lá vinha ele abanar me e enxotar-me do pecado.
A verdade é que o anjo da guarda estava sempre ao meu lado para me impedir de cair em tentação.
Tudo isto e muto mais se passou há muito, muito tempo. Porém, há uns dias fui surpreendido por grandes cartazes cujo conteúdo me levou a essa infância remota. Nos cartazes ali estavam as mensagens – Sempre a teu lado – Todos os dias contigo – e dei comigo a pensar no anjo da guarda.
Esta ideia de que há sempre alguém a meu lado tem o seu quê de enigmático quer nos tempos dos medos dos infernos, quer em termos políticos, pois o estar sempre ao lado é algo difícil de medir por melhores intenções que haja de quem oferece a proteção.
A palavra sempre é um advérbio de tempo, como o nunca, e nunca se deve dizer nunca, sempre também será de evitar porque o sempre é uma eternidade e como tal incomensurável.
Já dentro do comensurável – Sempre a teu lado- também tem os seus quês. Tratando-se, presumindo- de uma classe, a dos trabalhadores, sabe-se hoje e já se sabia, que uma classe, com tantas camadas e segmentos sociais, não se guarda num redil. Assim sendo, estar –Sempre a teu lado – é algo indistinto para quem carrega bem carregada as distinções sociais e faz da sua visão de classe(?), à sua maneira, a sua Bíblia. Ora saber ler é hoje atributo de quase todas as classes e deste modo o destino da mensagem é muito ambíguo e contraditório. A seguir às perdas eleitorais pode compreender-se o esforço, mas um slogan tão indistinto dá que pensar quanto aos destinatários.
Ademais é um tiro no escuro e fora do alvo dada exatamente a ambiguidade dos abrangidos. Por outro lado, o Sempre tem o seu quê da eternidade salvífica ou da terrível perdição.
Vamos supor que o beneficiado, indistinto, não quer ninguém a seu lado a não ser quando ele o solicitar, ou não quer em quaisquer circunstâncias ou apenas quem ele escolher? O cheque preenchido deste modo assume uma obrigação cega, ou seja, faça o que fizer o alegado protegido está sempre coberto e sem riscos. Só Cristo foi tão longe quando recomendou que depois de levar uma bofetada se desse a outra face.
Aqui chegados, coloca-se a pergunta em toda a sua esplendorosa simplicidade, esta afirmação não derivará da ideia velha e desgastada ideia de que há uma espécie de elite- vanguarda- que sabe o que os trabalhadores querem e, portanto, é essa vanguarda que marca a luta o destino está traçado – Sempre ao teu lado– porque no fundo está ao lado do que o “protetor” decidiu? Caso contrário como é bom de ver trata-se de um cheque em branco. Quem pode afirmar com rigor estar todos os dias contigo e a teu lado? Há dias em que nem o próprio está a seu lado. A consciência do si é uma leveza, mas também um peso, mesmo sem anjo da guarda.
Há bifanas ou o que há?

As bifanas têm o seu quê, que se não vê. As de Vendas Novas falam por si, há décadas. Há quarenta anos não havia caçador que a meio da noite não parasse no Boavista. Havia uma longa fila para saborear as bifanas a pingar de gordurinha.
Agora no Porto Alto há uma nova casa de bifanas. E ficamos sem saber o que realmente há.
Se bifanas estranhamente confecionadas com palavras e ideias, à poeta, mais escorreitas, como é das Letras.
Ou se as bifanas são fonte de inspiração espiritual, apesar da gordurinha a escorrer da carcaça; os poetas já não vivem à míngua de uma boa bifana.
À vista há bifanas à Poeta e há que provar. Pode ser que ponham o país a ler à larga.
Uma emenda
No texto sobre a Ucrânia há um lapso evidente; trata-se de 16 de fevereiro e não 16 de março.
As minhas desculpas
Um enorme manto de vergonha caiu sobre o mundo – entre Biden e Putin – a paz
Este 16 de março devia encher de ridículo todos quantos anunciaram que era o dia em que a Rússia invadiria a Ucrânia. E de vergonha. O dia em que os capachos ficaram pornograficamente capachos. O dia em que os papagaios deviam ver-se ao espelho e sem penas a sua nudez é incomodativa.
Darwin nunca imaginou esta sobrevivência dentro de certos membros desta espécie que corre o risco de ser substituída por robôs de inteligência artificial, tal o desprezo pela nobreza de uma das mais belas e profundamente humanas profissões.
O anúncio da morte saiu à rua sem um pestanejar, sem um porquê. Saiu. Disseram-lhes para a fazer sair em anúncio e anunciaram cansados de tanto a repetirem.
O Sr. Biden e o Sr. Jonhson, cheios de problemas nos seus países, queriam um ambiente de guerra para convocar o povo contra o poderoso inimigo prestes a fazer uma carnificina na desgraçada da Ucrânia.
O Sr. Biden tem brevemente eleições e está mal colocado.
Talvez em tempo de guerra o Sr. Boris pudesse continuar as glamorosas festas no nº10 da Downing Street em honra dos santos liberais.
Claro que mais de cem mil soldados russos junto à fronteira da Ucrânia são uma ameaça. E misseis Pershing II e Cruzeiro da NATO a quatro ou cinco minutos de parte do arsenal russo arsenal não o seriam. Misseis russos sê-lo-iam no Canadá ou em Cuba ou no México? E se fossem, o que fariam os EUA?
Uma invasão da Ucrânia seria uma catástrofe e uma violenta violação do direito internacional. Mas é curioso que nenhum país da NATO pediu sanções duras e brutais pela invasão, ocupação, destruição e humilhação do Iraque apesar dos muito mais de cem mil mortos.
Quem se lembrar, encontrará os repetentes e recalcitrantes: EUA, Reino Unido. Desta vez não foi preciso ir aos Açores, mas Marcelo, Costa e Rui Rio, em santa aliança, vão enviar tropas para proteger os desígnios de Biden.
Não apareceu Durão Barroso, mas Santos Silva podia lá ficar fora do festim e apelou ao regresso dos portugueses que se encontram a trabalhar naquele país. Fica bem.
E quem se lembra da França humilhada pelos EUA na venda dos submarinos à Austrália? E das declarações nada ameaçadoras de Biden a Schlotz dando conta que o gás russo não chegará à Alemanha?
Claro que isso são coisa entre os EUA e aqueles pequenos países europeus; com o gigante luso bateriam a bola baixinho.
No dia mundial da mentira e da vergonha as tropas russas começaram a desmobilizar. As negociações vão prosseguir. Há um certo alívio. Entre Biden e Putin há que escolher a paz, e só a paz. E essa não passa por enviar soldados portugueses para a loucura em que o Leste europeu se está a tornar.